Fraião prepara festa do padroeiro

IMG_4413 Fraiao Tiago

A paróquia de Fraião prepara as festas em honra do seu padroeiro, S. Tiago, com um programa que decorre entre 21 e 23 deste mês, embora o dia do Santo Apóstolo seja o dia 25. Um pequeno grupo de fraionenses teima, a cada ano que passa, em evitar a morte destas festas mas, no ano passado, a adesão foi quase nula.

O programa tem carácter profundamente religioso e começa com uma Eucaristia no dia 21, às 21 horas, cantada pelo grupo coral, seguindo-se um arraial nocturno animado pelo conjunto Os bonitos.

Como dá conta uma nota do padre António Gomes Oliveira e da Comissão de Festas, a celebração do Padroeiro “prestigia e engrandece as tradições” da Freguesia de Fraião.

A partir deste Domingo, a Comissão vai percorrer as ruas de Fraião a recolher donativos para suportar os custos dispendiosos dos festejos.

Os que participam no peditório andam devidamente identificados e quem desejar um comprovativo para deduzir no IRS pode pedir. A julgar pelos documentos históricos, estas festas terão sido iniciadas no ano 904, pelo que é um brio pessoal dos antigos e novos habitantes de Fraião contribuir para “manter viva esta traição de homenagem ao nosso padroeiro Santiago” — destaca o apelo subscrito por Isabel Valentim, Manuel Abreu e Constantitno Leite, além do pároco de Fraião.

No Sábado, dia 22, depois da alvorada, um grupo de Bombos e lavradeiras partem para o peditório pelas ruas da freguesia durante toda a manhã. Ao começo da tarde, joga-se o Torneio do fito com bar aberto. À noite, regressam as cerimónias religiosas, com nova Missa cantada pelo grupo coral de Fraião, seguindo-se depois novo arraial nocturno com o artista Carlos Ribeiro até estralejarem os foguetes da sessão de fogo marcada para as 0,30 horas.

No Domingo, os catequizados da primeira Comunhão e da Profissão de Fé dão corpo a uma Eucaristia solenizada pelo Grupo Coral.

Às 18 horas começa a Adoração do Santíssimo, seguindo-se o sermão e a saída da procissão, que leva à frente a Fanfarra do Agrupamento de Escuteiros de Fraião.

A procissão sai da Igreja Paroquial e segue pelas ruas Padre Feliciano, Devesa, Boavista, Fonte Seca e regressa à Igreja. Dois grupos folclóricos em palco, a partir das 21 horas, esperam ter mais gente a ouvi-los e a apreciá-los que no ano passado.

A Comissão de Festas agradece a colaboração, no peditório do segundo dia, mas esperam com maior satisfação que os habitantes de Fraião participem nestas actividades.

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UM POUCO DE HISTÓRIA DE UM NOME VISIGODO

Fraião é um nome do tempo dos Visigodos. É uma afirmação que não deve sofrer grande contestação porque o primeiro documento que nos fala de Fraião data de 1089, o qual foi pretexto para o anunciado Congresso Internacional comemorativo do IX centenário da existência da Freguesia. Esse documento é o ‘Liber Fidei’, um dos mais ricos cartórios eclesiásticos portugueses, e faz referência a uma doação de um casal, Paio Peres, à Sé de Braga, dedicada também nesse ano. Essa doação é confirmada por outro documento do século XVIII, “O contador de Argote”, onde se especifica que a fazenda doada fica em Fraião.

Em termos paroquiais, a primeira referência data dos finais do século XIII, de acordo com recolha de elementos informativos constantes das Inquirições e 1220 e de 1290. Era em tempos idos uma freguesia pobre, incapaz de sustentar um pároco, pelo que foi anexada á vizinha freguesia vimaranense de S. Cristina de Longos, em meados do século XV, situação que se manteve até 1525. Hoje, por razões diferentes, o pároco de Fraião é o de Lamaçães mas o bairrismo da freguesia está em agonia.

Em termos administrativos, Fraião estava anexada a Nogueira e apenas se tornou independente em 20 de Fevereiro de 1903. Ainda hoje, Fraião, uma freguesia cujo núcleo mais antigo se situa na rua da Boavista, possuía uma igreja paroquial pequenina, que só há poucos anos foi substituída por um novo templo.

Na década de 90 do século passado, a freguesia de Fraião foi abanada na sua pacatez pela instalação de grandes superfícies, das quais se destaca pela sua grandiosidade, o Minho Center-Carrefour, para além do Office Center,, o Aki e o San Luis. A implantação destes hipermercados e das novas urbanizações acabaram com a exploração agrária de quintas existentes entre Lamaçães e o vale do rio Este, de grande fertilidade.

Uma dessas quintas, a da Senra de Baixo, ainda ostente motivos patrimoniais que convinha fossem salvaguardados, entre eles um dos marcos que separa Fraião de Lamaçaes e um belíssimo fontanário do século XIX.

A construção do Hipermercado Carrefour obrigou à trasladação da antiga fonte das águas férreas, para um espaço renovado e devidamente recuperado, que é ponto de ‘peregrinação’ para milhares de bracarenses que ali se abastecem de água.

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Monumentalmente, a freguesia de Fraião é pobre — pode escrever-se sem erro que é uma das mais pobres do concelho de Braga — e o sítio mais mediatizado é a fonte das águas férreas, dominado por um pequeno fontanário que terá sido o primeiro desenho do grande Carlos Amarante.

Trata-se de uma fonte que é conhecida pelo menos desde 1773, pelas suas características medicinais, sendo divulgada nas grandes publicações de hidrologia, a que se refere Pereira Caldas, em 1851. Já nessa altura, esta água é definida como cloretada comsódio e ferruginosa.

A nascente de Fraião era aquela que apresentava maiores teores de ferro, a partir de compostos de ferro acumulados no aluvião.

Na fonte à qual recorrem agora centenas ou milhares de pessoas, jorra água de uma nascente situada onde existe a rotunda que dá a para a avenida Alfredo Barros, entre o Carrefour e o Office Center, a 50 metros da antiga nascente e não é por isso uma emergência natural de água férrea. Trata-se do aproveitamento por gravidade de uma nascente situada a 200 metros para Sul da localização da fonte. No entanto, não deixa de ser uma água hipotecam, cloretada sódica, com teores de ferro extremamente baixos, pelo que pode ser considerada uma água mineral natural, cuja pureza é fiscalizada por análises trimestrais.

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FONTE CONSTRUÍDA PELA CÂMARA

A fonte original foi mandada construir pela Câmara Municipal de Braga, no sítio que “fica místico ao Espadanido, arrabalde desta cidade, para asseio e resguardo e poder o povo com melhor comodidade servir-se da água férrea novamente descoberta”.

A empreitada foi entregue a Paulo Vidal, em 30 de Julho de 1773, um mestre pedreiro e morador na freguesia de Adaúfe, por oitenta reis, com “obrigação de a fazer na forma do risco que se lhe entrega assinado pela Câmara, como também mudará o rio, fará o desentulho, formará as paredes de segurança dele, tudo à sua conta e na forma do risco que viu e lhe foi apresentado”. Esta deliberação camarária mostra também o abandono a que esta fonte estava votada no século XVIII.

Mais tarde, em 1851, há notícia do pagamento de 18 reis a José António Peixoto Braga, por 600 exemplares dos “ensaios analíticos das águas férreas de Fraião”.

A fonte mergulhou de novo numa fase de algum abandono ao qual foi posto cobro no final do século passado, com a construção do Hipermercado Carrefour, cuja implantação levava à demolição da Fonte.

Argumentando que a fonte era pública, a Junta de Freguesia de Fraião, opôs-se à sua demolição e resgatou-a, mediante um acordo celebrado com os representantes da multinacional francesa, para o domínio dos cidadãos, cedendo na sua localização, cerca de 200 metros a norte do local onde se encontrava e se destinava a armazéns de recolha de mercadorias do Hipermercado.

Trasladada para um quarteirão público e vedado com uma sebe, a fonte é hoje procurada por centenas de pessoas que, diariamente, ali enchem os garrafões de água para consumo. Só é pena que alguns aproveitem para ir à água e levem os cães que conspurcam o pequeno relvado que a circunda… mas isso é uma questão de civismo e respeito pelo que é dos outros que não se guarda em garrafões nem brota da fonte…

A par da implantação destas superfícies comerciais, os terrenos disponíveis e que davam a Fraião um ar de ruralidade passaram a urbanizáveis, reforçando o número de habitantes de Fraião nuns bons milhares de residentes, em novos blocos habitacionais em construção.

Egídio Xavier Guimarães:

a chama que não se apaga’

A freguesia da fonte das águas férreas possui uma chama que não se apaga porque continua depois desta vida outra vida (Luís Murat) e da qual todos se recordam ao passar junto ao portão que dá acesso à quinta de Calvelo de Cima: o dr. Egídio Xavier Amorim de Sousa Guimarães.

Faz vinte anos no próximo dia 27 de Dezembro que faleceu, após uma queda junto à Igreja de S. Lázaro, mas deixa aos bracarenses uma herança cultural e de combate pela cidadania que deve orgulhar os habitantes de Fraião, onde viveu durante décadas, depois de ter nascido na Póvoa de Varzim, em 7 de Julho de 1914, apesar de ter profundas raízes familiares em Braga. Da cidade de Braga nunca se ausentou por muito tempo, excepto quando era criança e viajou com os seus pais para Moçambique, numa ida episódica. Pode-se dizer que Braga foi o seu berço, o seu lar e o seu túmulo, para além de ter alimentado uma paixão desmesurada pela Cidade dos Arcebispos.

Assim, o seu grande projecto, inacabado, era uma ‘monumental bibliografia bracarense’, acompanhada de algumas memórias, onde os estudiosos pudesesm beber tudo o que fosse necessário saber acerca de Braga.

Depois dos estudos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde concluiu uma formatura em histórico-filosóficas e depois uma especialização em bibliotecário-arquivista, foi nas viagens que empreendeu pela Europa que culminou toda a formação de um grande humanista, lutando em favor de uma ideia de Humanidade, de Pátria e de Cidade que os cépticos nunca viram com bons olhos.

Entre 1964 e 1969 integrou o executivo municipal de Braga, como vereador da Cultura, cujo exercício ficou marcado pela realização de grandes congressos, como o Congresso Internacional de homenagem a São Frutuoso, o apoio à investigação arqueológica, com incidência notável na recuperação e salvaguarda da romana Bracara Augusta, na colina da Cividade e, acumulando com o cargo de Director da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga, permitiu criar as condições de apoio para os projectos de pesquisa do historiador de arte americano Robert Smith.

Além de escrever regularmente na revista Bracara Augusta, na altura dirigida por outro grande amigo de Egídio Guimarães, Francisco Bacelar Ferreira, fez sentir a sua influência decisiva na realização de outros congressos internacionais efectuados em Braga, como o de S. Martinho de Dume e o de André Soares.

Mais tarde, já no regime democrático pós 25 de Abril voltaria a exercer as funções de vereador como eleito pelo PPM (Partido Popular Monárquico) numa lista do PSD, em 1989.

Entre a década de setenta e a de noventa participou ainda como elemento destacado da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia, de curta vida, e a Comissão Arquidiocesana de Arqueologia e Arte.

Sócio número um da ASPA e presidente do seu Conselho Fiscal, prefaciou obras sobre Moura Coutinho e Manuel Monteiro, além de ter colaborado na revista Mínia e na imprensa de Braga.

Depois da integração da Biblioteca Pública na Universidade do Minho, seguiu-se a fase da sua vida onde melhor pôde desenvolver a usa ideia de pátria e de cidade.

Além de militar em experiência literárias na “Quatro ventos”, desenvolveu profundas ligações de amizade com grandes intelectuais portugueses e estrangeiros, mas ainda teve tempo para colaborar em iniciativas como o Círculo de Cultura Musical que teve uma grande actividade em Braga nos anos 60, a Alliance Française em Braga ou ainda a Delegação de Braga da APPACDM, onde com a esposa, D. Lucinda, e o dr. Félix Ribeiro lançaram as primeiras estruturas de apoio aos deficientes mentais, cumprindo a lição transcrita em livro “O meu amigo Gervásio e a sua filha catedrática, publicado em 1986 e dedicado à sua filha Maria João.

Mas para apreciar melhor o que é Fraião, aceitemos percorrer lugares ainda desconhecidos da freguesia situada no sopé do Monte de Santa Marta e do Sameiro.

O primeiro enigma está na praça da Sede de Junta de Freguesia onde existe um nicho cuja inscrição se lê: “Almas de Lamaçães”. Para um desprevenido, pode dar a indicação que se enganou no caminho e não está em Fraião, mas tudo tem a sua explicação. Trata-se de umas alminhas que ali foram colocadas mas ninguém sabe de onde vieram. Por isso, resolveram o problema desta maneira e em vez de escreverem às Almas desconhecidas, escreveram “Almas de Lamaçães”.

Desfeito o equívoco – afinal, estamos em Fraião – seguimos até à praça do dr. Manuel Faria (conhecido Chefe dos Escuteiros), onde foi demolida uma ilha onde viviam cinco famílias em frágeis condições e no seu lugar nasceu um prédio com cinco habitações para cada um daqueles agregados que viviam na miséria e sem condições de vida, com o patrocínio do Carrefour.

Nova igreja paroquial

Depois demos uma saltada até junto da pequenina Igreja paroquial, agora substituída por um novo templo com cerca de três mil metros de área.

Trata-se de uma igreja simples à qual foi feito, em 1993, um acrescento com a construção do Salão paroquial, inaugurado há vinte anos.

Sem grandes espaços e lazer, Fraião tem de aproveitar alguns terrenos disponíveis nas principais urbanizações para esse fim. É o caso da chamada urbanização da Quinta, junto à Travessa do Passal, onde existe um parque de lazer que se enquadra perfeitamente na área mas a precisar de maior utilização pela infância e os idosos.

Por falar de lazer e desporto, uma das velhas ambições ressuscitar o clube Os Maikes de Fraião, cuja actividade desportiva já viveu grandes momentos de glória pelas conquistas no futebol distrital.

Panorama lindíssimo

Lindíssima é a urbanização de Calvelo de Cima (a partir da casa onde viveu Egídio Guimarães) , discretamente implantada por entre a vegetação em direcção a Santa Maria Madalena da Falperra e de onde se avista uma panorâmica ímpar sobre a cidade de Braga.

Deixamos a parte mais antiga de Fraião para descermos até junto do Minho Center (Carrefour), onde, à sua volta, ‘nascem’ centenas e centenas de fogos para habitação, na margem de novas ruas e avenidas.

Mas nesta viagem não podíamos evitar a Quinta da Senra de Baixo, um grande celeiro de Fraião em décadas passadas e agora praticamente reduzida à casa agrícola da quinta mas onde existe algum património que não deve deixar-se degradar.

Junto à casa de lavoura encontravam-se uns marcos delimitadores da freguesia com a inscrição ‘SIP’ e um lindo conjunto de granito com bancos, fonte e tanque construído em Setembro de 1858.

Nesta viagem passamos também junto da Fonte das Águas férreas, o ex-libris da freguesia em termos monumentais.

A nossa visita termina no Campo Escola do Corpo nacional de Escutas, oferecido por Calouste Gulbenkian, e fundado em 1 de Julho de 1963 e por onde já passaram milhares de jovens nas suas acções de formação do escutismo.

Ponte de Lima: António Feijó sacerdote da Beleza e da Verdade

Norton de Matos definiu António Feijó como um “sacerdote da Beleza e da verdade e nada pode haver na sua obra que representa a apologia do egoismo e de baixos sentimentos”. O General aludia assim ao seu primeiro poema Sacerdos Magnus publicado em 1881 e representado num sarau em Coimbra.

Vem esta afirmação, feita em 1938, quando Ponte de Lima ergueu um monumento ao poeta, a propósito do centenário da morte deste Homem que cantou o rio Lima e diplomata, ocorrida em Estocolmo, a 20 de Junho de 1917.

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Cândido Martins, um dos seus maiores estudiosos e editores, sustenta que “a voz emocionada e romântica, ou bucólica e nostálgica, mas também virtuosa e humorada de António Feijó ficará para a história da literatura portuguesa como uma criação representativa da plural renovação do fim de século português” (cf MARTINS, José Cândido de Oliveira, in “A escrita do sagrado na poesia de António Feijó: dos ecos mitológicos ao religioso cristão”, In Teografias, Aveiro, 2011, 49-62).

Sobre ele, David Mourão Ferreira — outro dos seus grandes leitores — disse: «António Feijó […] é um daqueles poetas que dificilmente podem filiar-se nesta ou naquela escola, neste ou naquele movimento [literário].» Estudos recentes o comprovam, porque António Feijó, visceralmente romântico, na preferência por certas temas – a noite, o outono, a morte, – foi um clássico pela cultura, pela disciplina, pelas exigências de perfeição formal,

Tendo despertado para a “criação poética em plena efervescência realista e parnasiana, um tanto sob a asa de Junqueiro, não menos sob o signo do bracarense João Penha, vai-se mostrando, progressivamente, permeável às difusas sugestões de um vago simbolismo que “a princípio procura satirizar, mas em cujas malhas de indefinível sortilégio pouco a pouco se deixa envolver” (cf. FERREIRA, David Mourão, in Tópicos de Crítica e de História Literária, Lisboa, União Gráfica, p. 233)

DIFÍCIL DE CATALOGAR

Segundo Manuel da Silva Gaio, António Feijó “é, entre nós, o primeiro representante do Parnasianismo” (cf. “La jeune Littérature Portugaise”) e Jorge de Sena chamou-lhe “estranhamente parnasiano” (cf. SENA, Jorge, in A poesia de Teixeira de Pascoais, Porto, Brasília Editora, 1982, p23).

Estamos perante uma figura umbilical e literariamente ligada ao bracarense João Penha, apontado como “fundador da estética parnasiana” (cf. LOPES, Óscar e SARAIVA, António J., in História da Literatura Portuguesa, p. 949).

Nesse sentido, a investigadora brasileira Zulmira Marques Santos coloca António Feijó no mesmo grupo de João Penha, Gonçalves Crespo e Cesário Verde (cf. “António Feijó — uma poética de síntese”, Mestrado de Literaturas Românicas Modernas, Faculdade de Letras do Porto, 1988, pp. 16 e 17).

A sua poesia é difícil de catalogar, uma vez que há quem o considere “parnasiano”, ou “estranhamente parnasiano” ou momento de “mudança dentro do Parnasianismo” (cf. SANTOS, Zulmira, in Art. cit., p.20).

Depois destas citações todas, o leitor pergunta: mas, afinal, o que é o parnasianismo? É um movimento literário essencialmente poético, contemporâneo do Realismo-Naturalismo que se desenvolveu partir de 1850, em França, para retomar a cultura clássica. Caracteriza-se pela sacralidade da forma, pelo respeito às regras de versificação, pelo preciosismo rítmico e vocabular, pelas rimas raras e pela preferência por estruturas fixas, como os sonetos.

NA RIBEIRA LIMA

Nasceu na Ribeira Lima, um lugar onde a harmonia das coisas se revela com única expressão natural e “nos enlaça tão suavemente pelos montes pouco impetuosos e torturados cujas encostas “descem macias” e tingidas de “uma cor meigamente violácea”.

Talvez por causa deste cenário, António Feijó se afirme perante nós como alguém que sabe “exprimir o que não sabemos dizer” porque o seu papel na comunidade foi “servir-se do seu poder de expressão para nos mostrar e fazer compreender a ânsia de beleza, de verdade, de justiça que nos enche a alma”.

Estamos perante uma personalidade a quem “muito deve a terra em que Feijó nasceu ao alto poder de expressão”, mas também é verdade que “o génio do poeta não teria sido o que foi, se não tivesse a embalá-lo desde o berço a beleza das coisas que nos cercam, as vetustas tradições da sua vila, o espírito de comunidade de que fez parte” — assinalava o grande militar e democrata português, oito anos mais velho que o poeta.

Nesse sentido, concluía, “Ponte de Lima e António Feijó estão indissoluvelmente ligados” num tempo em que se “cantava mais nas fontes, no rio e nos campos” ( cf. MATOS, General Norton de, in Memórias e trabalhos da minha vida, Coimbra, Imprensa da Universidade, Vol. III, 2005, pp. 239-245)

Norton de Matos recorda a infância de António Feijó, pouco tempo passado sobre o fim da guerra civil, em que se “vivia uma vida tranquila e ordeira, dos lutadores, miguelistas e liberais” e “principiavam os homens a respeitarem-se uns aos outros novamente; via-se claramente que nas ideias que mais antagónicas pareciam, muito havia de comum — para que serviu tão cruenta luta, tanto sofrimento, tanta tristeza, perguntava-se”.

É esta envolvência geográfica e política que cria toda a existência de Feijó e “se revela através de toda a sua obra”.

O rio Lima é um elemento essencial na vida e obra de António Feijó e, de qualquer das suas margens, “o panorama que se contempla deslumbra-nos sempre e parece dizer-nos mansamente que a felicidade suprema reside no espaço restrito onde nascem as fontes que alimentam o rio”.

Para António Feijó, o rio Lima é “o companheiro mais querido” porque, “fora das época das cheias, desliza mansamente e pleno de encanto, as suas águas descendo nessa luz reflectida, a tremer como um luar, deixa a descoberto aqui e além, as areias do seu leito para que a gente ribeirinha venha junto dele fazer as suas feiras e celebrar as suas festas” reflectidas no “grande lençol de água que o mar puxa para si” — escreveu Norton de Matos, citando o poeta.

António de Castro Feijó nasceu em Ponte de Lima no dia 1 de Junho de 1859, tendo sido um poeta e diplomata. Como poeta, António Feijó é habitualmente ligado ao Parnasianismo e o final da sua obra tende a um certo tom fúnebre.

A 20 de junho — dia em que se assinala o primeiro centenário da morte de António Feijó (1917-2017) —, o Município de Ponte de Lima abre uma exposição de homenagem ao poeta-diplomata ponte-limense, considerado um dos maiores vultos da literatura portuguesa do fim do séc. XIX.

Intitulada “António Feijó, 1917-2017: memórias e revisitações”, a mostra bio-bibliográfica de tributo — patente ao público na varanda interior da Biblioteca Municipal de Ponte de Lima —, congrega 14 painéis, generalistas e temáticos, que evocam os principais momentos da vida e obra do autor de “Sol de Inverno”. Aí se podem apreciar os livros deixados por António Feijó, artigos vários de jornais da época, nacionais e estrangeiros, com particular destaque para os periódicos suecos e brasileiros.

A exposição comemorativa, que pode ser visitada de 20 de Junho a 31 de Outubro de 2017.

JUVENTUDE EM BRAGA

António de Castro Feijó nasceu em Ponte de Lima, Concluiu o liceu em Braga, depois de ter estudado em Viana do Castelo e licenciou- se depois em Direito, pela Universidade de Coimbra, em 1883. Apesar da importância de António Feijó na literatura portuguesa, este poeta permanece desconhecido do grande público.

Em duas vertentes principais se distinguiu António Feijó: como diplomata, discreto, mas dedicado e competente, por um lado; como poeta que nos legou «uma importante soma de poesia […] que constitui um límpido repositório lírico, ora comovente, ora saboroso», como escreveu David Mourão Ferreira.

A biografia de António Feijó pode ser repartida em dois períodos relativamente distintos.

O primeiro vai, desde o seu nascimento, a 1 de junho de 1859, em Ponte de Lima, até ao final do curso de direito, em Coimbra, frequentado entre 1877 e 1883, com uma prévia passagem por Braga, onde fez os estudos preparatórios.

É um tempo marcado pela vida de estudante, com as naturais experiências afectivas e boémias mais ou menos originais, a nível pessoal e social.

O segundo período, falhada a vocação para advogado, é dominado pela carreira diplomática. Situa-se entre 1886, ano em que é nomeado Cônsul no Brasil, e o dia 20 de junho de 1917, data do seu falecimento, em Estocolmo.

Entre 1891 e 1917, durante 26 anos consecutivos, exerceu funções de Cônsul Geral e de Encarregado de Negócios, em Estocolmo e em Copenhaga, para poucos anos depois, em 1906, ascender à categoria de Ministro Plenipotenciário.

Em 24 de Setembro de 1900, tinha 41 anos, casa com Maria Luísa Carmen Mercedes Joana Lewin, uma jovem sueca de 22 anos, filha de pai sueco e mãe equatoriana.

António Feijó foi um homem que, mesmo enquanto diplomata, gostava de gozar a vida, do bem viver e de viver bem. A este respeito, Cândido Martins descreve o nosso poeta como tendo sido «sempre um fidalgo culto e distinto, espirituoso e expansivo.» Refere, a propósito, que não faltam «os testemunhos que realçam a [sua] lucidez irónica e a saudável alegria, verdadeiramente contagiantes.» E remata: «são inúmeros os ditos graciosos e as situações anedóticas protagonizadas pelo poeta e diplomata limiano, homem folgazão, de convívio desejado, repetidamente alcunhado de “opíparo Feijó” por Guerra Junqueiro.»

Num carta, Emília de Castro, esposa de Eça de Queiroz, «preocupada com a frágil saúde do marido», fala do «“temível” Feijó como responsável por desencaminhar os amigos íntimos para memoráveis e desmedidos repastos gastronómicos.»

Para exemplificar este lado divertido e folgazão de Feijó, são de ler ou reler, por um lado, em primeiro lugar, Bailatas, de 1907, e Novas Bailatas, publicado, postumamente, em 1926.

Depois, entre outros, o belo livro O Mistério da Estrada de Ponte de Ponte do Lima – António Feijó e Eça de Queiroz, de A. Campos Matos. E de Luís Dantas, António Feijó – A Boémia Estudantil e os Primeiros Versos, publicado em 2008.

O pessimismo que se encontra, com frequência, em muitos poemas de Feijó é, por isso, mais aparente que real, é mais estético que ético.

O casal teve dois filhos – António Nicolau e Joana Mercedes.

Apesar de mais nova 19 anos que o marido, Carmen Mercedes faleceu, prematuramente, em 1915, vítima de sofrida e prolongada doença. António Feijó não resistiu ao doloroso golpe: amavam-se profunda e intensamente.

Dois anos depois, em 1917,o poeta sucumbia a um duro ataque de gota.

Os restos mortais de Carmen Mercedes e de António Joaquim de Castro Feijó (o seu nome completo) encontram-se no cemitério de Ponte de Lima, para onde foram trasladados de Estocolmo, em 1927, é na legenda tumular «O amor os juntou e nem a morte os separou» que se perpetua a memória do profundo amor que este casal entre si comungou.

Vem a propósito recordar o poema «Eu e Tu», incluído no livro Sol de Inverno – Últimos Versos, que transcrevemos em caixa repleto de sentimento amoroso e de uma subtil sensualidade. Nele se encontram, por outro lado, claras influências parnasianas e simbolistas.

Na sua Juventude começa a publicar em jornais, actividade que manterá ao longo de quase toda a sua vida.

Cursa Direito na Universidade de Coimbra entre 1877-1878 e 1882-1883. Reprova no primeiro ano, facto que o transforma de «estudioso aplicado» em «cábula habilidoso», segundo as suas próprias palavras.

Com Luís de Magalhães funda em 1880-1881, nessa cidade, a Revista Científica e Literária, de orientação positivista e escreve um folheto intitulado Sátira funambulesca sob o pseudónimo de Frá-Diávolo.

Em 1882 publica Transfigurações, com poesias escritas entre os anos de 1878 e 1882 (incluindo o texto poético Sacerdos magnus que já tinha sido publicado em Coimbra em 188116).

Em 1884, saem as Líricas e bucólicas, antologia com poesias escritas entre 1876 e 1883. Um destes cinquenta e quatro poemas intitula-se “Sobre o rio Thchú (do poeta chinês Thu-Fú)” e integrará depois o Cancioneiro chinês.

Desde os fins de 1886, contudo, sofrendo com o ambiente social e o clima, começa a pensar na sua transferência do Brasil (chegando inclusive a sonhar com o consulado de Xangai (18), o que obtém apenas em 1890.

Goza então seis meses de licença em Portugal. No fim desse ano é publicado o Cancioneiro chinês.

Em 1891 parte para a Suécia onde exerce os cargos de cônsul-geral e de encarregado de negócios interino. Volta a Portugal intermitentemente, por períodos mais ou menos prolongados, publicando, em 1897, a colectânea de poemas Ilha dos amores.

Em 1907 saem as Bailatas sob o pseudónimo de Inácio de Abreu e Lima, com um prefácio assinado por ele próprio.

O espólio de cartas do poeta é riquíssimo e é uma fonte de informações pessoais e sócio-culturais valiosas, como é o caso das interessantíssimas cartas entre o poeta e Luís de Magalhães.

NOS CEM ANOS DA MORTE DE ANTÓNIO FEIJÓ

Cancioneiro Chinês (1890)

obra prima do poeta limiano

COSTA GUIMARÃES

António Feijó expôs o seu «princípio estético», na seguinte frase: «na minha estética un vers n’est jamais bien quand’il peut être mieux.»

Viajamos agora pela sua obra que começa com Sacerdos Magnus, o primeiro livro, se assim podemos chamar, que Feijó publicou, em 1881. É um longo poema, épico e elegíaco, composto e recitado, em 1880, em Coimbra, durante as celebrações do tri-centenário da morte de Camões. O poema aparece depois integrado no livro Transfigurações, em 1882, onde reúne poemas escritos desde 1878 e revela «a influência» do pessimismo de Schopenhauer, por um lado, e as “doutrinas largamente proclamadas de Augusto Conte e Herbert Spencer», por outro.

Aqui encontramos poemas da juventude, escritos nos tempos de estudante em Braga e Coimbra. Dada a extensão dos poemas, ouçamos um fragmento de «Esfinge Eterna», datado de 1880, recolhido em Transfigurações.

Não é suficiente a letra do Evangelho…

Para erguer a razão das trevas onde cai

Inflamem-se de novo as sarças do Sinai!

Que o saber alimente e eleve a inteligência!

Para tranquilizar a nossa consciência

Não basta simplesmente o que nos diz a fé:

O que ensinou Jesus e o que ensinou Mahomet!

 

Segue-se Líricas e Bucólicas, em 1884, onde Feijó reúne poemas escritos entre 1876 e 1883, isto é, poemas escritos antes de Transfigurações.

Ilha dos Amores é publicado em 1897. São XXIX pequenas oitavas, introduzidas por um «Prelúdio». O objecto poético de todos estes versos é, de novo, uma mulher que o sujeito poético amou e de quem continua a sentir saudades. Feijó encontrava-se, então, no «exílio» de Pernambuco.

É na «Alma Triste» que se encontra «Inverno», cujas quadras da segunda parte foram adotadas como hino de Ponte de Lima:

«Nasci à beira do Rio Lima,

Rio saudoso, todo cristal;

Daí a angústia que me vitima,

Daí deriva todo o meu mal.»

 

Bailatas, publicado em 1907, é o último livro que Feijó publicou em vida, ao lado de Novas Bailatas, postumamente publicado, em 1926. O poeta assina-os, porém, com o curioso pseudónimo de Inácio de Abreu e Lima. Pseudónimo? Mourão-Ferreira afirma que «era praticamente um heterónimo, no sentido em que Fernando Pessoa viria depois a pôr em voga esta palavra.»

Finalmente, Sol de Inverno, publicado em 1922 , mas pronto em 1915, ano da morte da esposa.

Sol de Inverno é considerado, pelos estudiosos da obra poética de Feijó, o melhor livro. Cândido Martins considera-o «uma verdadeira obra prima, síntese de um lirismo magoado e nostálgico, profundamente outonal e crepuscular»-

Por sua vez, Mourão-Ferreira regista: «Por meio do Símbolo, António Feijó, simultaneamente, oculta e descobre o que há de mais íntimo em si. Por isso mesmo, quando nos fala do “Cisne Branco, esquecido a sonhar no alto Norte” e que se vê, “ao despertar, das neves prisioneiro”, nós sentimos perfeitamente que é de si próprio que ele fala…»

António Feijó dedicou-se à tradução literária. Neste campo, verteu para português A Viagem de Pedro Afortunado, peça de teatro em cinco atos, do sueco Augusto Strindberg, em 1906, para além da Viagem em Portugal, 1798-1802, de Carl Israel Ruders, publicado em 1981.

A publicação do Cancioneiro chinês, em Outubro de 1890, é unanimemente aclamada pela crítica que o considera a “manifestação mais clara do código estético configurador do Parnasianismo” (cf. Santos, Zulmira, in art.cit. p.59) e a única.

São poemas, criativa e intensamente trabalhados, que Feijó traduziu, não directamente do chinês, mas do francês, a partir do Livre de Jade (1867), por Judith Gauthier. No entanto, a investigadora brasileira Zulmira Santos (in. Art. Cit., p.58) sustenta que esta obra “não foi elaborada a partir do Livre de Jade, mas de Dragon Impérial. Foi António da Costa Lopes, investigador bracarense, quem descobriu que Feijó revela, em “Cartas Íntimas”: “faz-me muita falta um livro que deixei, atado a sete cordas num desses inumeráveis pacotes, cuja confecção me fez suar, como Jesus nas Oliveiras, o melhor do meu sangue. Chama-se o livro Le Dragon Impérial, de Judith Walter” (cf. LOPES, A. da Costa, “Do positivismo ao agnosticismo panteístico no poeta Feijó”, in Revista Portuguesa de Filosofia, Tomo XXVIII, Braga, 1972, fasc. 1-2).

Trata-se, mais que de traduções, de recriações que o poeta, seduzido pelo exotismo oriental, fez de cantares de poetas da dinastia Tang (séc. VIII). Nestas recriações, Feijó procura, como o próprio diz, «resgatar por intuições e imagens uma beleza gráfica, pictural, intraduzível». Mas nelas encontramos, por um lado, «uma depuração parnasiana» e, por outro, «um vago simbolismo», como regista Cândido Martins.

Feijó não consegue, observa Mourão-Ferreira, «disfarçar», no Cancioneiro, os seus temas como a beleza romântica da mulher que, de «moça e bela», um dia ficou «Flor esquecida, que tombou no lodo».

O jornalista de Pontos nos iis (19 de Dezembro de 1890), depois de comentar que a demasiada agitação dos tempos era pouco propícia a “obras de cunho”, declara:

«[…] no meio da fúria revolucionária de uns, e dos espalhafatos bélicos de outros, parece que inda alguns trabalhadores acham sossego, para conceber, numa atmosfera límpida e perfumada de arte, coisas delicadas de poesia e narração. Aí está por exemplo o “Cancioneiro chinês”, de António Feijó, o poeta gentil-homem, que passa a vida a buscar na frase, como Flaubert, a suprema perfeição na suprema graça, e que a encontra, e neste livro a cristalizou com fortuna insólita – a ponto de parecer que o texto poético por ele vertido, não seja de poetas chineses, problemáticos, mas de Henri Heine, um Heine novo, religiosamente nostálgico, e dum humorismo velado e cheio de problemas.»

No Primeiro de Janeiro (29 de Dezembro de 1890), um comentador menciona os dois poetas que teriam sido os iniciadores deste novo caminho:

«Gonçalves Crespo e João Penha abriram caminho rasgado e têm como iniciadores uma glória indisputável no trabalho de flexibilização da nossa língua; contudo, é forçoso confessar que António Feijó, prosseguindo na mesma esteira, representa, se não a última étape, uma fase notavelmente mais perfeita em relação aos seus ilustres predecessores.»

A propósito do bracarense, recordamos aqui que, na década de 30 do século XX, a Câmara de Braga resolveu prestar uma homenagem ao seu concidadão, levantando-lhe um busto no centro da cidade.

Para isso foi escolhido um quarteirão do jardim do Largo de São do Souto. E assim numa peanha em granito, rodeada por um murete, foi colocado o busto de João Penha, tendo a “seus pés” um espelho de água. Pronto o monumento, questões burocráticas, iam atrasando a data da homenagem que estava programada para ser efectuada com grande aparato.

Passaram tempos e sempre adiada, continuava o busto coberto por uma grosseira serapilheira. Então irreverentes estudantes do Liceu Sá de Miranda, não se conformando com os sucessivos adiamentos, tomaram a peito fazerem eles a inauguração.

Numa noite foram até a São João do Souto, arrancaram a serapilheira e puseram a descoberto João Penha. Mas parece que ouviram, talvez, do além túmulo a voz do poeta ao ver onde estava e, como reclamando da situação com uma quadra que ali afixaram . “O PENHA AO VER CHEGAR A ÁGUA QUASE À TESTA NÃO SE CONTEVE E DISSE, MAS QUE . . . É ESTA !

Tempos depois, durante “O primeiro Congresso Nacional de Filosofia” realizado em Braga em Março de 1955, a Câmara quis homenagear Francisco Sanches, resolve apear o busto de Penha e no seu lugar colocar o do filósofo, professor e médico, Sanches, cristão-novo, que foi batizado na próxima igreja de São João do Souto.

Para o busto de Penha escolheram, para sua nova morada, na Avenida Central, perto do Coreto. Não contentes com esta acção, resolvem, tempos depois, levá-lo para o Largo do Rechicho e colocaram o busto sobre a Fonte do Rechicho, hoje aterrada, mas que lá está. O Centenário da Morte de João Penha acontece daqui a dois anos (3 de Fevereiro de 1919).

Luís de Magalhães, no entanto, e como é de esperar, vai mais longe e encontra afinidades profundas entre a arte dos poetas chineses e António Feijó: «Há fundas e radicais afinidades entre os caracteres do lirismo chinês, revelados no Livro de Jade e o feitio poético do autor das Líricas e Bucólicas. Esses delicados rimadores não são os ingénuos trovistas duma época sentimental, mas bárbara. São letrados, feitos por uma educação culta, erudita, oficial. Em toda aquela simplicidade há muita arte, a direcção superior duma estética clássica, a inspiração dum gosto formado e definido. São artistas consumados, verdadeiros mestres retóricos, no antigo sentido da palavra. Feijó é o mesmo. A suprema característica da sua individualidade literária é a de ser um refinado artista, discreto, equilibrado, consciente, escravo da forma, meticuloso no gosto, puro e preciso na expressão, senhor da sua língua e possuindo toda a técnica da sua arte. Ninguém, entre os novos, faz versos como ele. A sua poesia é plasticamente impecável.”

Na primeira edição de (Paris, 11 de Abril de 1892), António Nobre chama a Feijó «impecável artista» , afirmando que este, na sua

«[…] preocupação constante de bem versejar, com elevado aprumo artístico, cultiva todos os géneros e exprime todos os matizes poéticos entre os derradeiros vestígios do romantismo e do ultra-romantismo, o parnasianismo, o decadentismo e o simbolismo, misturando-os sem dissonâncias de maior e com minúcia de hábil joalheiro, a partir de básicos princípios parnasianos

O Cancioneiro chinês é «a manifestação mais clara do código estético (…) do parnasianismo» cujos traços são «a apologia da impassibilidade, a tendência para o descritivismo, o tom anti-confessional, o geometrismo e rigor da forma, a sobrevalorização do pormenor exterior sobre o interior.»

Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, pelo culto da beleza verbal, pelo rigoroso cuidado da forma, das linhas marmóreas da frase, do seu corte lapidar, das riquezas das rimas, da eufonia dos ritmos, do poder evocativo das imagens, – Feijó pode chamar-se, com acerto, um parnasiano seguidor do mestre Theo: “Ce qui n’est pas bien fait, n’est pas fait”.»

Se André Chenier foi o único europeu a interessar-se pela poesia chinesa que conhecia através das poucas transcrições dos livros dos jesuítas, deixando até umas Notes sur la litérature chinoise, António Feijó foi o segundo europeu e primeiro escritor português a fazer a ponte literária entre a Língua de Camões e o Mandarim.

Luís de Magalhães, no discurso produzido por ocasião da trasladação dos restos mortais de António Feijó para Ponte de Lima, publicado no Diário de Notícias, de 17 de Novembro de 1917, revelou: “Antero lia esta obra cheio de encanto e dizia: “É perfeito.” Esta frase valia os mais extensos e laudatórios artigos de crítica.

O poeta do comparativo clarificador

Chiara Lubich, fundadora do Movimento católico dos Focolares, afirmava que “o modo como” agimos, falamos e sentimos é tantas vezes mais importante que a essência do fazer, do dizer e do sentir. Uma das suas frases mais célebres é esta: “ Falemos sempre de qualquer pessoa como se ela estivesse presente” (cf. http://kdfrases.com/autor/chiara-lubich).

Eu e Tu, num ser indissolúvel! Como

Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,

Aspiram a formar um todo, – em cada assomo

A nossa aspiração mais violenta se ateia…

 

Como a onda e o vento, a lua e a noite, o orvalho e a selva

O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,

Ou o orvalho inundando as verduras da relva

Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

 

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,

O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,

O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,

Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

 

Como partes dum todo, em amplexos supremos

Fundindo os corações no ardor que nos inflama,

Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,

Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama…»

Neste poema dedicado à sua mulher, António Feijó mostra a sua estratégia poética assente na comparação, no vocábulo “como”, assinalado em itálico. “Apenas duas composições, “A Águia prisioneira” (p. 354) e “A Lenda dos Cisnes” (p. 399), não integram qualquer tipo de comparação. Todas as outras incluem, pelo menos, uma ocorrência de que demos exaustivamente conta e há casos em que é possível detectar três ou quatro dentro do mesmo poema (cf. SANTOS, Zulmira, in Art. Cit., p.83).

O recurso à comparação é a tendência clarificadora, nos poemas do limiano: “Pondo como uma flor, nas folhas sem aroma” (Poesias Completas, p. 343), “Como uma aranha na sua teia” (“Elegia de Abertura”, p. 346), “Como alguém que a si próprio iludir procurava” (“Descendo a encosta do Parnaso”, pp. 347-348), “Como sobre um paul contínuos sedimentos” (“A Armadura”, p. 349), “Como o caminho chão de uma aldeia ao luar” (“A Cidade do Sonho”, p. 350), “Despenha-se no mar, como um barco sem leme”

(“Beatitude Amarga”, p. 351), “E o clarão do luar, como um pranto mortuário” (“A Selva Escura”, p. 355), “Ele tenta arrancar da folha percorrida, / Como de mina obscura a pedra refulgente” (“O Livro da Vida”, p. 357), “Como se a sombra hostil de uma grande montanha” (“Díptico”, p. 358), “Dois! Eu e tu, num ser indissolúvel! Como / Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia”

(“Eu e Tu”, p. 359), “Como um dos seus avós…” (“Paladinos”, p. 360), “Como se a ruína fecundasse a hera / …como explosões… / / como o poente… (“Cabelos brancos”, p. 362), “Como esperanças desfalecidas… Como um espelho a brilhar” (“Sonâmbula”, pp. 36 3- -364), “Amarga e triste como o exílio onde agoniza” (“Cisne branco”, p. 367), “Como uma estufa a arder…” (“Súplica ao Vento”, p. 369), “Como um prisma…” (“Gota de Agua”, p. 369), “… Como chora a saudade” (“A Ventura”, p. 371), “Como uma esperança…” (“Entre pinheiros e ciprestes”, p. 372), “...como um rio amargo…” (“Rio Amargo”, p. 373), “. . .como o feto ao seio… (“Hino à Vida”, p. 374), “…como sonhos… como estrelas… como flores… como um gládio” (“Hino à beleza”, pp. 376-377), “…como se um beijo…” (“Hino à dor”, p. 378), “…como o sol de inverno…” (“Hino à alegria”, p. 380), “Vivendo como um Deus…” (“Hino à solidão”, p. 383), “como sombra…” (“Hino à morte”, p. 384), “Como um cativo…” (“Epílogo”, p. 386), “Como à luz…” (“Prelúdio”, p. 388), “Como um pobre…” (“Fábula Antiga”, p. 389), “Como a concha de nácar luminoso” (“Cleópatra”, p. 389), “…como um lírio no gelo” (“Moiro e cristã”, p. 391), “…como o olhar moribundo” (“A resposta do árabe”, p. 391), “…como a chuva em calcinada areia” (“A Vocação de Ibrahim”, p. 393), “como uma alvorada prenuncia o dia” (“A Princesa Encantada”, p. 395), “como uma tulipa no meio do abrolho” (“O Romance da Pastora linda”, p. 397) [cf. FEIJÓ, António, in Poesias completas, Livraria Bertrand, Lisboa, s/d.].

Senhora-a-Branca: uma boa prenda para Braga

O livro “Senhora das Neves a Branca” é um “subsídio esplêndido com fundamento científico para o estudo do Povo de Deus, uma realidade representada nesta Igreja que é fonte de espiritualidade e de solidariedade” — garantiu o Bispo Auxiliar de Braga, D. Francisco Senra Coelho, quarta-feira, em Braga.

O Prelado falava na sessão solene e muito musical de apresentação do novo livro do padre Carlos Nuno Vaz que assinala os 500 anos daquele templo em que “muita gente fica na história da história da Senhora-a-Branca”, como sublinhou o jornalista Costa Guimarães

A sessão, com a Igreja cheia, começou com a execução de peças de órgão por Costa Gomes e a entoação de cânticos pelo grupo Coral dirigido pelo padre Júlio Vaz, preparando o auditório para uma “breve visita guiada” à evolução desta antiga ermida que hoje acolhe a Irmandade da Senhora-a-Branca, fundada em 1516.

O bispo auxiliar de Braga, sagrado há três anos, recordou as “peugadas na estrada que o padre Carlos Vaz empreendeu para nos dar a conhecer um Povo de Deus que brota do Baptismo, se alimenta da Eucaristia” através da história da irmandade, com “os seus dias de sol e os seus dias de sal”.

  1. Francisco Senra Coelho centrou a sua intervenção na Comunidade de todos os irmãos que precisa de “recontar a história da Igreja e não pode ficar encerrada num castelo” de negociações entre Papas e Reis, entre Papas e Bispos e entre Bispos e padres.

A história do Povo de Deus está por fazer mas não é fácil porque o povo não deixou documentos nos arquivos nem tinha chancelarias”, mas “é onde nós encontramos com uma multidão imensa que construiu a Igreja”.

Os documentos das irmandades testemunham a “religiosidade popular, as devoções, os ex-votos, as promessas cumpridas e as crenças mais simples como a do medo do purgatório” mas elas são “os primórdios dos movimentos que levam aos grandes Montepios mutualistas” — acrescentou o Bispo Auxiliar de Braga.

Partindo do livro de Jean Deluneau, “História vivida do Povo de Deus”, Francisco Coelho desafia ao estudo da vida e obras do “grosso volume de fiéis anónimos que são a Igreja”. Hoje, a santidade é uma chamada universal, em contraponto aos tempos medievais em que “a santidade era apanágio exclusivo das ordens religiosas” e mesmo dentro dos mosteiros existiam vários escalões.

A RESPIRAÇÃO DOS POBRES

Daí que o Bispo Auxiliar de Braga destaque este estudo do padre Carlos Nuno Vaz porque a história da Irmandade “é um caminho clarividente que nos mostra a realidade viva do povo bracarense, as Confrarias eram uma proposta de caminho da santidade para os simples que dava atenção à piedade, incluía os testamentos, os sufrágios”.

O prelado lembrou a vitalidade das confrarias civis — como a da alheira, da morcela, dos vinhos ou do pudim — quando “sentimos as nossas Irmandades a asfixiar, apáticas. Estamos a falar da respiração espiritual dos pobres, da fraternidade de pobres com pobres e de coisas marcadas com sangue, suor e esperança”.

Uma vez que agora ninguém pode ignorar — com este livro do Carlos Nuno Vaz — D. Francisco Coelho fez um apelo ao “apoio à Irmandade da Senhora-a-Branca, pela sua história e pelo património imaterial que representa para Braga”.

O bispo auxiliar de Braga não esqueceu “esta família de sacerdotes — Cónego António Vaz, padre Júlio Vaz e os sobrinhos Carlos Nuno e Júlio Vaz — que tem um compromisso umbilical, de ordem genética, com o concílio Vaticano II”.

D. Francisco não esqueceu as “cicatrizes e caminhos difíceis que eles percorreram na fidelidade, muitas vezes em silêncio e em sofrimento”.

Coube ao jornalista Costa Guimarães a apresentação do livro que se afirma como “um combate à amnésia programada” através de 570 páginas sobre 500 anos do belíssimo exemplar que acolhe a primeira obra de André Soares (o sacrário).

Trata-se do resultado do exaustivo trabalho de seis anos de estudos de cerca de duzentas fontes documentais distintas, e de muita dedicação que nos apontam momentos, actos, sentimentos, palavras, gestos que calaram fundo e nos ajudam a ter outra perspectiva sobre a importância deste templo na cidade e concelho de Braga.

Com estas 570 páginas, das quais devemos destacar uma excelente colecção de imagens que falam mais que as nossas palavras, o padre Carlos Nuno Vaz ajuda-nos, através de um trabalho que esconde um enorme amor, a aprofundar a história de Braga para a apreciarmos ainda mais” — prosseguiu Costa Guimarães, lembrando que a receita dos 1600 exemplares reverte a favor das obras da Igreja porque as rendas são muito diminutas face ao que eram outrora…

Estamos perante um contributo de muitos que foram coordenados por Carlos Nuno Vaz… como Franklim Neiva Soares (As visitações de S. Vítor), o espólio da Confraria de S. Pedro (unida 15 nos à da Senhora A branca, cedido pelo padre José Paulo Abreu), ou de outras como a Senhora do Ó, do Hospital, da Boa Nova (Arco da Porta Nova), do Bom Despacho, nas Carvalheiras, (que fazem da Senhora a Branca um quatro em um).

Outra lembrança e agradecimento vai para o Doutor José Marques, que forneceu o documento que comprova a existência do nome «Senhora-a-Branca» numa transacção de 1485 e, além disso, verteu para grafia mais acessível a introdução ao Livro dos Brasões, colocada no início do cap. XI.

De Ernesto Português veio o contributo da União com a Irmandade de S. Pedro, enquanto Eduardo Pires Oliveira facilitou a colecção dos brasões dos Arcebispos desde D. Diogo Sousa, em 1516.

UMA PRENDA PARA BRAGA

O jornalista assinalou que é “uma óptima prenda que Carlos Nuno Vaz oferece também a Braga, porque sendo mais que um livro de história, é uma parte ímpar da história de Braga, fora dos muros medievais, quando não havia a Igreja de S. Vítor , mas apenas a Capela de S. Vítor Velho, como mostra bem o Mapa de Bráunio, em 1594,a meio caminho entre a Avenida Central e a Capela de S. Vítor-o-Velho”.

A implantação e prestígio da irmandade alargavam-se de tal jeito que, em 1587, os recebimentos atingiram os 62.667 reis, o que permitia a renovação de alfaias, missais e outro mobiliário decorativo e religioso.

Costa Guimarães deu algumas pinceladas sobre os principais momentos da História da Irmandade que, após séculos de crescimento e crescimento, entrou em declínio e quase morte na primeira metade do séc. XX.

Este livro de Carlos Nuno Vaz também canta essa gente que fica na história da história da Senhora-a-Branca, esses padres e leigos que passaram nas vidas de tantos para os marcar com a sua dedicação e trabalho e não para causar cicatrizes” — sentenciou Costa Guimarães, antes de lembrar com alguma emoção alguns obreiros do renascimento da Senhora-a-Branca: os padres Manuel Rodrigues de Azevedo, António Sousa Fernandes e os irmãos Vaz “marcaram a nossa juventude pela sua coragem para afrontar poderes eclesiásticos hipócritas e castradores da formação da juventude”.

LEMBRAR OS PADRES VAZ

É a estes que a Irmandade deve o seu renascimento desde 1969 até hoje: o padre António Sousa Fernandes , o Cónego António Luís Vaz com o seu irmão Padre Júlio Hilarião Vaz. Os sobrinhos dos padres Vaz— Carlos Nuno Vaz, como capelão — o irmão Júlio, Director do Grupo Coral que anima as celebrações desta Igreja, continuaram a renovação.

Eles acreditaram, com gestos, dedicação, palavras e acções, desde há décadas, naquele grito do papa Francisco em Fátima, no passado 13 de Maio: Temos Mãe. Acreditaram quando, em alguns momentos, a Mãe Igreja se comportou como madrasta e os olhou de soslaio” — lembrou Costa Guimarães.

Eles são os construtores desta “nova centralidade especial da Senhora das Neves a Branca que devemos conhecer mais — através da leitura deste livro — para a amarmos melhor”.

Mais que perpetuar, o padre Carlos Nuno Vaz aviva a memória e dá a conhecer tantas coisas…ricas de humanidade e devoção que há dentro destas paredes. Ninguém ama aquilo que não conhece. Com esta obra deixamos de poder invocar a nossa ignorância. Já não temos desculpa para não amar tanto este templo” — concluiu o jornalista.

Colégio Dom Diogo de Sousa: fim de tarde cheio de emoções

Ao fim do último dia de aulas, a família do Colégio Dom Diogo de Sousa reuniu-se em festa e convívio, onde não faltaram as artes, o futebol (com a final da Super Liga), insufláveis para os mais pequenos, tendas de vande de acepipes e bebidas. O cenário foi o majestoso Estádio Municipal de Braga. As fotos traduzem mais que as palavras que possamos escrever.