Bartolomeu dos Mártires: um Arcebispo… que era mãe

 

As visitas pastorais constituem uma das melhores contribuições do Arcebispo de Braga — D. Frei Bartolomeu dos Mártires — no Concílio de Trento. O seu livro “Stimulum Pastorum” foi distribuído aos padres conciliares do Vaticano I e já vai em 22 edições. Numa altura em que o Arcebispo e os bispos de Braga andam a visitar as nossas paróquias, é oportuno evocar quem foi o seu criador e está a caminho dos altares.

O Arcebispo Dom Frei Bartolomeu dos Mártires entrou em Braga a 4 de Outubro de 1559 e, passados quatro meses, tinha posto em ordem todos os negócios dos dois anos que Braga estivera sem prelado, partindo no coração do Inverno para uma visita que durou até à Quaresma.

Este é o verdadeiro pontapé de saída para o programa de visitas dos bispos de Braga às suas 1200 paróquias espalhadas pelo Minho e Trás-os-Montes. Braga era uma Arquidiocese vastíssima e mergulhada em extrema ignorância religiosa, tanto nos leigos como entre os próprios eclesiásticos .

Não foi tarefa fácil, a implementação deste programa de visitas do Bispo. Ao despedir-se do Concílio de Trento, onde elas foram aprovadas, o “Bracarense” contava a S. Carlos Borromeu: agora era preciso prosseguir a obra ingente de fazer executar os decretos, um pressentimento das grandes lutas que a missão ia custar em Braga.

Bartolomeu dos Mártires “era eloquente e sabia matizar as palavras e o semblante segundo as matérias e as necessidades. A história da sua actuação tridentina e as notícias que nos ficaram dos seus ademanes, da sua voz e do efeito das suas intervenções são uma documentação preciosa dos dotes oratórios e da força de persuasão que o Arcebispo imprimia às suas palavras” — escreve um dos seus maiores estudiosos, Frei Raul de Almeida Rolo, in Lusitania Sacra, num texto que seguimos de perto. “Ele não tinha só uma grande riqueza natural de dotes oratórios: estatura elevada, ar grave, voz sonora, palavra fluente, espírito culto e coração ardente mas tudo isso, no sermão, obedecia também aos cânones da boa eloquência”.

O conceito que o Arcebispo tinha do seu papel de pastor é de uma delicadeza espiritual extrema: “O médico, escreve ele, busca os doentes e não os sãos, e o mestre é aos ignorantes e não aos sábios que tem de ensinar. A paciência é necessária para os inquietos e não para os mansos e o bom prelado, acrescenta ele, deve saber que o seu ofício é a cura das almas e não o cuidado das pompas”.

ARCEBISPO É… MÃE

Por isso, quando visita as comunidades, o Bispo «não vai ao meio da grei para lhe impor a sua carga, mas antes para a ajudar a levar a dela. Deve apresentar-se como mãe e não como dominador, e, mesmo quando tiver de ser severo, seja pai e não tirano».

D. Fr. Bartolomeu sabia que mesmo que se desfizesse todo em voz como «rouxinol e trombeta de Deus» não podia pessoalmente acudir a tantas e tão grandes carências. Havia a agravante de ao clero de Braga, embora “numerosíssimo”, lhe faltar saber e sobretudo não ter zelo das almas. Desta falta de zelo o repreendia mais o Arcebispo, que da ignorância quase comum.

A culpa de não ensinarem os seus fregueses, “não procede de ignorância ou falta de letras mas de negligência e preguiça de estudar, e de falta de virtude e zelo da salvação das almas…” — escrevia ele na introdução ao seu Catecismo ou quando escreve em Considerationes….«Vae episcopis qui non sunt rigorosíssimi vindices fornicatorum sacerdotum imitando zelum Phinees, aeternis patibulis affigentur…».

O pároco obstinado, com os seus doze filhos armados, para impedir a visita do Arcebispo à sua igreja, ficou rendido quando o viu humilde e sozinho Frei entrar-lhe pela casa dentro com um sorriso de pai, prostrado aos pés deles suplicando-lhe a conversão — recorda Frei Luís de Sousa na sua “Vida”.

Apesar disso, as multas em dinheiro e penas de excomunhão eram moderadas. Os pecados e os vícios não se redimem a dinheiro mas com perdão e graça de Deus para reconduzir as ovelhas tresmalhadas.

Contra a excomunhão, no Concílio de Trento, em vez de poderes para as impor pede faculdades para as perdoar. Ele queria a visita pastoral para reconduzir à Igreja e não separar dela.

Como não podia contar com os mosteiros quase todos carregados de isenções e privilégios, ricos de rendas, mas pobres de religiosos e observância, teve de lançar mão dos frades da sua Ordem Dominicana e da Companhia de Jesus, doze padres, buscando auxiliares para o ministério da pregação.

O TRIPLO OBJECTIVO DA VISITA

Dom Frei Bartolomeu dos Mártires destaca no “Stimulum Pastorum” três objectivos das visitas às paróquias: iluminar pela pregação, purgar pelo inquérito e correcção dos delinquentes e aperfeiçoar na vida cristã pela administração do Santo Crisma.

Quanto ao primeiro — Iluminar —, a função exerce-a o bispo pela pregação, sempre pelo exemplo e mais frequentemente pela palavra.

Antes do inquérito da visita, ele acomodava o discurso à capacidade e necessidades do auditório.

No IV Concílio Provincial Bracarense, 1537, decretou-se que na visita pastoral nunca devia faltar a pregação, de tal modo que, se o visitador não fosse capaz de exercer esse ministério, era obrigado a levar um bom pregador consigo.

Quanto ao segundo — Purgar —, tinha muito que fazer o Arcebispo. Purgar o material e o espiritual, purgar a grei e, frequentemente, também o pastor. O Arcebispo não descurava nenhum pormenor da situação material das igrejas e dos objectos do culto divino, examinando como se administravam os Sacramentos e com que esplendor se celebrava o divino sacrifício e se prestava culto a Deus.

Ao desamparo e pobreza dos templos vivos, que eram os pobres, dedicou o Arcebispo a maior solicitude. Mandava-os vir à sua presença e acudia às maiores necessidades com dinheiro e fazia um rol dos que havia de mandar vestir — destaca Frei Luís de Sousa.

Fixemo-nos agora no terceiro objectivo — Aperfeiçoar — em que toda visita pastoral apontava à perfeição espiritual do povo, em que sinal sacramental dessa perfeição era o Santo Crisma.

A administração deste Sacramento ocupava um lugar privilegiado na solicitude pastoral do Arcebispo e os seus biógrafos não deixaram de transmitir o zelo extraordinário que punha na administração deste Sacramento. Mesmo que fosse de caminho, se alguém se aproximava a pedi-lo, ali mesmo interrompia a viagem, mandava preparar tudo e fazia daquela vereda uma igreja onde era administrado o Santo Crisma.

ALMA DO OFÍCIO PASTORAL

Frei Luís de Sousa, na sua Obra “Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires”, no Livro I, c. 14, lembra que «Era fim de Janeiro, tempo ventoso e frigidíssimo…» quando o Arcebispo de Braga se lançou nas primeiras visitas às paróquIas, que eram, para ele, «a alma de todo o ofício pastoral».

Iniciava-se um novo ciclo na relação do Bispo com os seus crentes, deixando para trás o espírito interesseiro que acompanhava as visitas dos prelados às suas igrejas, ao ponto de ter sido necessário decretar severas penas contra os abusos que a ganância tinha introduzido no exercício dessa função eminentemente apostólica.

Se os homens dos séculos XV e XVI caíram em muitas tentações, a do dinheiro foi das que mais profundamente corroeram aquela sociedade. Esta tentação penetrou até no Santuário.

A ausência de grande parte dos bispos de suas dioceses fez cair em desuso essa actividade pastoral ou delegaram-na nos Cabidos das Catedrais e seus dignitários que, por sua vez, mandavam em seu nome clérigos «panosos», como diz D. Fr. Bartolomeu, mais a recolher emolumentos que a catequizar e salvar almas.

Expliquemos o termo “panosos”. Quando D. Fr. Bartolomeu falava em Trento havia em Braga “dezoito visitadores e apenas seis eram da nomeação do prelado. Os outros doze visitavam mesmo contra a sua vontade, mais para recolher as colectas, que era costume cobrar nas visitações, que para remediar os males das igrejas. Para maior desolação, os visitadores acabaram por nem se dar ao trabalho de irem eles próprios, mas mandavam em seu nome clérigos pobres e sem autoridade (clérigos “panosos”).

Para o “Bracarense” — como ficou conhecido em Trento — , é necessário que o bispo vá frequentemente às “várias igrejas para obstar aos males que, só estando ele presente, se podem evitar.

Mas o Arcebispo de Braga tinha uma concepção mais positiva da visita pastoral que esta dimensão negativa de evitar escândalos e castigar os que erravam.

Para ele, o bispo é Sol da sua Diocese — “Qui aliud est episcopus, quam quidam suae diocesis sol, (…)?” —, e a visita pastoral era como o Sol que desponta no horizonte de cada terra para lhe dar luz, calor e vida. Entre os cuidados pastorais, escreve o Arcebispo, a solicitude em visitar a Diocese ocupa um lugar de destaque. A visitação é quase a alma do governo episcopal porque é por ela que o pastor se desfaz e consome em benefício e utilidade de todas as suas ovelhas. “O bispo autêntico quando sai a calcurrear todas as paróquias é como um Sol que desponta para iluminar as terras pelos três actos hierárquicos, a saber, limpar, ilustrar, aperfeiçoar. O bispo sai a exortar, a pregar, a arguir, a repreender, a confirmar e a perscrutar como se administram os Sacramentos, com que reverência e dignidade se celebra o divino Sacrifício; finalmente é missão suave do verdadeiro pastor consolar todos os que choram e acudir com o remédio a todas as necessidades espirituais e temporais».

VANTAGENS DA PRESENÇA DO BISPO

Comparado os benefícios e vantagens da visita pessoal à visita que era feita por outros visitadores, o Arcebispo afirma: “São inumeráveis as vantagens que resultam da visita pessoal do bispo; e, entre outras, não é pequena a da sua própria presença, só por si mais útil e eficaz na repressão dos vícios do que tudo o que os visitadores possam fazer». «Os crimes não se curam só à força de excomunhões ou outras penas, mas antes com palavras, autoridade e caridade, arguindo e repreendendo e de outras mil maneiras que o verdadeiro pastor e esposo das almas inventa, estimulado pelo amor que tem à sua grei como a uma esposa. Esta diligência não a pode ter o visitador mercenário. Além disso, também por parte dos súbditos, quer homens quer mulheres, é frequente terem casos reservados e delicados que fácil e confiadamente comunicam ao seu pastor e não aos outros».

A visita pastoral, sobre tudo nas condições da vida rural do século XVI, tendo o visitador de galgar léguas no dorso de uma mula, (a Águia, no dizer de Aquilino Ribeiro) por caminhos lamacentos no inverno e poeirentos no verão, para depois pernoitar numa aldeola montanhesa desprovida de toda comodidade, era um trabalho árduo que muitos consideravam indigno de um bispo e em detrimento da sua autoridade.

«Por isso, escreve Bartolomeu, é que não são de ouvir as falas daqueles que dizem que este contínuo calcorrear caminhos ofusca a autoridade do ofício e que basta encarregar tal ofício a outros». Não foi pequeno o trabalho desenvolvido pelo grande — talvez o maior — Arcebispo de Braga. Numa carta ao Papa Gregório XIII, em 1576, enumera entre os seus grandes trabalhos as quase mil e trezentas paróquias, que visitava pessoalmente de quatro em quatro anos, gastando nesta função pastoral a maior parte do ano (“habeo parochias visitandas fere mille trecentas”). A S. Carlos Borromeu escreve que as paróquias da Arquidiocese “passavam de mil duzentas e sessenta”.

E terminamos com o guia deste artigo, o Stimulum Pastorum: “A norma de perseguir só aos vícios, conservando sempre o amor para com as pessoas, tem de ser indeclinável, se não pode a correcção degenerar em crueldade com perigo de perder quem se queria salvar. A doçura e a correcção têm de ser equilibradas de maneira que os bons encontrem no amor algum temor, e aos maus no medo não lhes falte que amar”.

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