Bernardo Abreu: visionário de Vieira do Minho funda primeira agência de viagens do mundo

A história da primeira agência de viagens no mundo, fundada na cidade do Porto, em 1840, por Bernardo Luís Vieira de Abreu, nascido em Rossas, Vieira do Minho, inspira um livro de 400 páginas que traça esta “odisseia” de 175 anos por Portugal, Brasil, Angola e no mundo.

O brasileiro António Pereira de Oliveira descreve a Casa Abreu, em 2001, como “a mais antiga agência de viagens de turismo do mundo” (cf. Turismo e Desenvolvimento, Planejamento e Organização, S. Paulo, Editora Atlas) e situa a sua fundação no dia 7 de Abril de 1840. Em 1940, o jornal O Comércio do Porto assinala os “cem anos de trabalho honesto” da empresa criada por Bernardo Vieira de Abreu.

Escrito por Fernando Sousa e Maria da Conceição Meireles Pereira, ambos professores em universidades do Porto, o livro “Agência Abreu — Uma viagem de 175 anos” resulta de uma “aturada pesquisa desenvolvida ao longo de oito anos, em torno dos factos, das figuras e da documentação relevante que narram a história da primeira agência de viagens, no mundo, a abrir um estabelecimento de atendimento directo ao público”.

O livro engloba contributos que vão desde o arquivo da família Gonçalves Concieiro, descendente directa do irmão mais velho do fundador da agência Abreu, à angariação de testemunhos, de guias de turismo, de clientes e de colaboradores mais antigos da Agência Abreu, já reformados ou ainda no activo, entre outros, que conduziram à feitura deste livro em que se destaca uma sinopse valiosíssima que coloca em paralelo as histórias de Portugal e da empresa, ao longo dos últimos 175 anos.

Com centenas de fotos, desde cartazes a publicidade, desde gestores a lojas, uma encadernação e papel de luxo, a capa do livro foi desenhada pelo grande pintor português, Júlio Resende, para uma brochura publicada pela Agência Abreu, em 1960. Este livro inclui anexos exaustivos sobre esquemas genealógicos, abertura de 200 dependências do grupo Abreu e uma profunda bibliografia muito útil a investigadores de turismo, emigração e viagens.

Naqueles dias iniciais de 1801, em que a Espanha declara guerra a Portugal — a das Laranjas — por não fechar os portos aos navios britânicos, nascia Bernardo Luís Vieira de Abreu, a 27 de Fevereiro, em Ortezelo, na Freguesia de Rossas, Vieira do Minho.

A casa em que foi dado à luz “ainda se conserva na perenidade da pedra em que foi construída. Era designada por “Casa da Adega”, já que este era o topónimo de uma parte do lugar de Ortezelo e serviu muitas vezes para identificar os moradores do Casal da Lage e Castanheiro; era foreira cabeça do dito “prazo” do Arcediago do Mosteiro de São Salvador do Souto de Fonte Arcada a família de Gonçalves Luís, a quem outras famílias consortes pagavam os foros das respectivas propriedades”.

Tudo indica que os antepassados de Bernardo de Abreu viviam numa situação desafogada e a genealogia comprova uma origem remota que tem como epicentro alguns lugares da freguesia de Rossas (Celeirô, Pombal, Ortezelo). A menção deste antigo concelho até 1836 (com foral dado em 1514) em documentos oficiais remonta a 1014 e aparece como abadia de apresentação dos Abreus, senhores de Regalados.

Este filho da Casa da Adega há-de emigrar, em 1819, para o Brasil, onde ganha dinheiro para fundar, no Porto, a Agência Abreu com a finalidade de vender passagens para o Brasil e solicitar passaportes, num ano em que Costa Cabral publica a Lei das Rolhas que limita a Liberdade de Imprensa. A empresa vai manter-se até aos nossos dias na posse de descendentes directos do visionário de Vieira do Minho.

O pai de Bernardo Abreu, José Luís Vieira Gonçalves, nascido em Ortezelo, lugar onde faleceu, casou com Teresa de Abreu, nascida no lugar de Celeirô, a 16 de Março de 1788, morre na Casa da Adega, e é o seu apelido que permanece no futuro. O seu casamento exigiu uma bula de dispensa do Papa, por terem consanguinidade de terceiro e quarto graus. Bernardo é um dos oito irmãos todos nascidos no lugar de Ortezelo e foi baptizado na Igreja de Rossas a 4 de Março de 1801. Também os avós e bisavós são naturais de Rossas.

Teria 18 anos quando emigrou para a Bahia, em 1819, e depois Rio de Janeiro, mas desconhece-se se partiu como acompanhante de alguém com passaporte, ou saiu clandestinamente ou terá embarcado na Galiza. Manteve-se no Brasil até 1928, uma vez que o processo de independência do Brasil, em 1922, trouxe alguns incómodos, perseguições para os portugueses e mesmo assassínios.

LIGAÇÃO À TERRA NATAL

Bernardo Abreu nunca se desligou do torrão natal, sendo padrinho de vários filhos dos seus irmãos, como é o caso de Raquel que faleceu na casa do Sameiro, um palacete do séc. XVIII, em Ortezelo, onde nasceram mais tarde os irmãos (Roberto, Gaspar e Vasco Sameiro, corredores de automóveis, este último com grande notoriedade devido a importantes provas que venceu no Brasil e em Portugal).

Segundo filho, privado de herdar os bens da família, Bernardo Abreu tenta a sua sorte no Brasil. No regresso, em 1828, casa com a amarantina Francisca de Jesus, com quem tem treze filhos, todos nascidos na cidade do Porto.

Bernardo Abreu aparece, em 1837, entre os “negociantes nacionais” da praça do Porto e a tradição familiar aponta o ano de 1840 para a criação da empresa, na rua do Loureiro, que dirigiu até ao dia da sua morte, em 19 de Dezembro de 1878, de febre tifóide, durante um surto que grassava então na Invicta. Um registo de passaporte de 8 de novembro de 1848, assinado profissionalmente por Bernardo Luís Vieira de Abreu refere a Rua do Loureiro (pág. 61) e, em Janeiro de 1896, o Jornal de Santo Thyrso já publicava anúncios da “Casa Abreu” com a menção de que tinha sido fundada em 1840. (pág. 103).

As origens da Agência encontram-se indissociavelmente ligadas ao Brasil e à emigração que do Norte de Portugal se desenvolve na primeira metade do séc. XIX e se prolonga até ao século seguinte, numa longa caminhada de emigrantes que iludiram as leis de proibição ou restrição de ambos os territórios e ignorou as mudanças dos regimes políticos.

DAR CORPO A SONHO LUSITANO

Bernardo Abreu deu corpo ao sonho dos portugueses que partiam — cultos ou analfabetos, ricos ou pobres — sabendo que a “aventura se afigurava mais forte que o enraizamento” até à segunda Grande Guerra Mundial, tempo em que a emigração para o Brasil diminui. Os sucessores de Bernardo Abreu percebem a mudança e centram-se sobretudo no turismo que começava a afirmar-se como indústria florescente.

Também os filhos de Bernardo Abreu — pelo menos cinco — embarcam nesta aventura de migração para o Brasil. Daniel Luís Vieira de Abreu foi o continuador da segunda geração na Casa Abreu. Aníbal Vieira de Abreu, filho de Daniel também esteve emigrado no Rio de Janeiro, dos 13 aos 20 anos de idade, e foi o seguinte sucessor do negócio do avô Bernardo, cujo legado principal foi o “capital moral, a credibilidade que conferiu à casa de passagens e bilhetes que fundou e consolidou num tempo em que a procura destes produtos era grande mas também por isso a oferta nem sempre se regulava pelas regras estritas da honestidade e transparência”. Joaquim Costa Leite recorda que o Brasil recebeu mais de um milhão de portugueses, entre 1855 e 1914, oriundos de entre Minho e Vouga.

A quebra da emigração para o Brasil coincide com alguns momentos mais difíceis da Instituição, nas primeiras duas décadas do séc. XX, seguindo-se a transformação de casa de passaportes e passagens para a venda de turismo sob gestão de Augusto e Aníbal Lopes Vieira de Abreu (entre 1924 e 1973) que protagonizam a gestão mais longa da Casa Abreu.

A marca começa a ser uma referência em Portugal, multiplicando filiais que vincavam a qualidade dos serviços prestados, mercê do pioneirismo traduzido em apostas estratégicas em produtos, parcerias e tecnologias de comunicação, recordadas em vários capítulos desta obra.

A parte final do livro evoca os sucessores de Bernardo Abreu da quinta geração com Aníbal (era o mais velho), Alberto e Artur Vieira de Abreu que catapultam a marca para a liderança absoluta do segmento do lazer, ou seja a “passagem do turismo de alfaiate para o turismo de pronto-a-vestir, sem prejudicar a qualidade alargando a sua actividade a todos os continentes.

Além da internacionalização, a secção de carga foi outra das apostas, em 1957, além dos voos charter, desde 1972, dando merecimento a várias condecorações e medalhas de mérito nacionais e estrangeiras que testemunham o mérito de milhar e meio de trabalhadores.

Alberto e Artur Vieira de Abreu continuam hoje a grande obra de perseverança num tripé de excelência em que assenta o êxito de uma marca que continua a reinventar-se em todo o mundo, a partir de Rossas, Vieira do Minho, a onde voltam, amiúde, para apreciar as suas raízes.

IMG_6293IMG_6301IMG_6308Tanto assim é que instituíram um concurso, em 2013, — “Dá cor às tuas viagens” — que envolveu os alunos de todas as escolas do ensino básico do concelho de Vieira do Minho que proporcionou a algumas crianças a primeira viagem internacional.

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