Cérebro: verdades e mitos

Desde que se lembra, queria “ser médico, na senda do pai, do avô” e percebeu que “a saúde mental me interessava muito” e ganhou mais força quando o prof. António Damásio o convidou para ser seu assistente, ainda no terceiro ano de Medicina.

Após várias vicissitudes, conseguiu uma bolsa e entrou para a universidade para estudar este órgão caríssimo que é o cérebro humano, pois consome muita energia: “um centímetro cúbico de cérebro consome muito mais energia que um centímetro cúbico de músculo”. Foi assim que abriu a conversa de Alexandre Castro Caldas com a ex-jornalista do Correio do Minho, Paula Nogueira, no fecho das VI Olimpíadas da Saúde no Colégio D. Diogo de Sousa.

Apesar deste consumo elevado de energia, “não dá para emagrecer, mas podemos emagrecer, criando mecanismos de apetite, como uma primeira refeição diária rica em proteínas. Estas aumentam o nível da Dopamina e esta tira o apetite”.

Castro Caldas sugeriu que é bom comer uns ovos estrelados, fiambre com queijo, ao pequeno almoço.

No dilema Cérebro ou computador, o orador lembrou o sistema hidráulico de Descartes, para concluir que o cérebro não funciona como um computador- “Nada disso. É melhor proteger o corpo dos perigos da vida diária porque o nosso corpo alimenta o cérebro. As células do nosso cérebro estão sempre a mexer”.

É verdade que “os neurónios são uma minoria porque há muitas outras células que são mais que eles (mais fáceis de estudar) e por isso mais difíceis de investigar mas têm um enorme papel no nosso corpo”.

Outro segredo do cérebro é a sua presumida divisão em dois hemisférios. Não é bem assim, justifica: “há múltiplos sistemas neurológicos e uns recebem enquanto outros processam a informação que recebemos”. Por isso, não existe uma “dominância de hemisférios cerebrais”, enquanto há cem anos atrás se dizia que o esquerdo era humano e o direitos “do macaco”. O cérebro adapta-se às funções diversas, sendo verdade que a linguagem gestual é mais do hemisfério direito enquanto a oral e suas sequências são mais esquerdinas.

A neurologia é hoje confrontada com as tecnologias de informação e os robots, utilizando estes (sociais) no tratamento de doentes oncológicos mas falharam no tratamento dos doentes com autismo. Estudos feitos nos Estados Unidos, lembra Castro Caldas, que abordaram a evolução da linguagem desde os primeiros sons falharam porque — como demonstrou a americana Patrícia Cool — “as máquinas não falam com as pessoas”. No autismo, o robot “não é capaz de imitar comportamentos ou seja, criar um cérebro social. Tem ligações a mais no cérebro. Não podou o cérebro e não consegue perceber o que é importante e o contexto”.

No capítulo da evolução tecnológica, Castro Caldas deu o exemplo dos eléctrodos que podem ser implantados no cérebro para curar a depressão ou a doença de Parkinson ou melhorar a qualidade de vida de tetraplégicos. Mas, a sua implantação, um milímetro ao lado, pode accionar no cérebro a atracção pelo suicídio.

Os maiores problemas, neste caso, “são a segurança, como aconteceu com a mão alienada (que faz o que não queremos)” até porque estes eléctrodos, no cérebro de uma pessoa, são como um e-mail que transmite frases em que ele pensa no que o outro está a pensar. Os robots são úteis, mas se é verdade que compreendem as frases, o discurso, não entendem o contexto. É a grade dificuldade para desenvolver robots para ajudar as pessoas”.

Interrogado sobre a possibilidade de perdermos as referências espaciais (com GPS e Google) a favor da máquina, Castro Caldas regressou à Grécia para lembrar que Sócrates foi um grande filósofo sem escrever uma linha, deixando essa tarefa para Platão e concluir que “escrever é um progresso do ser humano e não devemos temer as produções do génio humano”.

Nesse sentido, diz, “estamos na idade da pedra da informática: um dia vai dar-nos qualidade, porque hoje é quantidade”. Temos de incorporar tudo convenientemente: a informação, por si só, não serve para nada. Tenho de saber usar essa informação e esta fase está embrionário”.

Isto significa, para Castro Caldas, que a “evolução tecnológica faz evoluir o cérebro” e basta ver a agilidade das crianças com os tablets ou smartfones que “foram programados para elas e elas estão na melhor fase par incorporar informação amigável e útil”. Hoje, o “tablet na mão de uma criança serve para a mãe lhe dar a sopa, substituindo a lenga-lenga das nossas mães que cantavam”.

Estes equipamentos geram duas vidas, uma presencial e outra virtual, em que a emoção e a razão foram transferidas para o Facebook, separando amigos reais dos do Facebook.

NAS RELAÇÕES AFECTIVAS

FACEBOOK É UM DESASTRE

Como substituto de relações afectivas, o Facebook é um desastre” — assegura Castro Caldas que destaca a sua importância na divulgação de informações. Acresce que o “cérebro cresce com a dimensão das comunidades pois somos claramente indivíduos sociais”. Mais, “o isolamento gera egocentrismo e um pensamento redutor”.

Outra questão que marcou o debate foi a constante mudança do cérebro, à qual Catro Caldas respondeu afirmativamente. “Espero sair daqui com mais alguns neurónios e muitas células novas” e partiu para Londres para dar o exemplo dos taxistas (que recusam o GPS) que sabem de cor o nome das ruas de uma cidade gigante. O hipocampo direito (nos lobos laterais do cérebro e sede principal da memória) IMG_7290IMG_7288aumenta com o tempo de actividade do taxista.

Se é verdade que o cérebro fica mais pequenino com a idade (porque há zonas que deixam de ser necessárias), as zonas do pensamento abstracto (filosofia) aumentam a densidade do cérebro.

Também é certo que se deve aprender sempre e criar vícios cerebrais e é verdade que a descida das árvores pelo ser humano obrigou-o a procurar nova alimentação que reforça a Dopamina e gerou alterações no corpo humano, arrefecendo o corpo: “nenhum animal aguenta correr a maratona, excepto o homem”.

Porquê? O cérebro aumentou e teve um salto quando começamos a cozinhar os alimentos, “deixamos de petiscar e passamos a ter refeições organizadas e sociais, gerando picos de amino-ácidos (carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto) que nos aletraram o sono, pois os herbívoros dormem menos. Se uma girafa dorme quatro horas por dia, um vampiro dorme doze horas. Por isso, passamos a ter sonhos, no intervalo do sono” — explica o interlocutor de Paula Nogueira.

Na ponta final da conversa, Castro Caldas desmontou alguns mitos que povoam a nossa cultura, como aquele de que “só usamos um terço do nosso cérebro” ou que “o queijo tira a memória”. “Só em Portugal se diz isso” — garante Castro Caldas.

Adolescência:

idade fantástica

A adolescência é uma idade fantástica e está a ser estudadíssima” – garantiu o prof. Alexandre Castro Caldas, aludindo aos “aspectos comportamentais que interferem no aproveitamento escolar”.

Os colegas passam a ser referências maiores que os pais (foram na infância), a curiosidade pelo risco e a sensibilidade para a dependência é muito maior”, prosseguiu este professor catedrático que pede a pais e educadores uma “atenção muito maior aos adolescentes”.

O mesmo se diga com as pessoas que sofrem, porque o “cérebro se modifica e traz à superfície as más memórias e transforma algumas boas memórias em más”, disse Castro Caldas que não percebe, por exemplo, por que as “ mulheres portuguesas com mais de 65 anos se julgam muito mal de saúde”

O exercício físico, adiantou, trava o envelhecimento do cérebro e fomenta a aprendizagem e o prazer intelectual e mais se diga da música: “a música devia fazer parte obrigatória do ensino, porque a entrada auditiva é muito forte para o cérebro e modula o sistema nervoso”.

Dos progressos científicos recentes, destacou a criação de máquinas microscópicas que “nos permitem já ver os neurónios de animais” e, na genética, o destaque foi para a forma de cortar o DNA, inovação que coloca muitos problemas éticos à ciência, uma discussão que deve estar sempre na ordem do dia quando — lamenta — o “motor da humanidade não é o bom senso, pois é preciso trabalhar por objectivos”.

Se apenas Direito e a ciência distinguem o bem do mal, “não se pode tirar a filosofia da vida das pessoas e das escolas” – concluiu Castro Caldas que deu aos jovens três conselhos: “aprendam uma coisa nova todos os dias; estejam atentos ao que se passa à nossa volta, e, com a informação da vossa cabeça vamos buscar informação nova aos computadores”.

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