Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (1)

Bartolomeu VianaAquilino Livraria Bertrand

Obra dedicada aos rotários e “aos meus amigos de Braga”

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) manifestou, no comunicado final da 189.ª Assembleia Plenária, apoio à canonização do beato Bartolomeu dos Mártires, que o papa Francisco já autorizou sem a atribuição de um milagre.

No passado dia 7 de Abril, A Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa destacou “a fama de santidade e o culto” do beato Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga, para “atestar a sua relevância eclesial em vista do processo de canonização com dispensa de milagre“.

Em Fevereiro passado, o papa Francisco autorizou a canonização sem a atribuição de um milagre ao futuro santo. Nessa altura, o bispo da Diocese de Viana do Castelo, D. Anacleto Oliveira, afirmou esperar que ainda este ano o beato venha a ser declarado santo.

São razões mais que suficientes para justificarem a oportunidade desta série de artigos centrados numa obra de Aquilino Ribeiro, “A Vida de Dom Frei Bertolameu”, a partir de um manuscrito que ele encontrou na Casa de Romarigães, em Paredes de Coura.

Aquilino Ribeiro, explica que, a partir deste códice quinhentista, usou a “goiva com que me pus a carpintejar um caixilho de compreensão para este homem extraordinário, aparentemente compósito, imperioso e humilde, democrata e absoluto, a quem ‘a mitra pesava como os montes Apeninos‘, e que aceitou servir o Demónio do Meio-dia” (alusão aos tempos deprimentes da Igreja Católica).

OBRA DEDICADA A BRAGA

MERECE SEGUNDA EDIÇÃO

Trata-se de uma obra publicada em 1959, pela Livraria Bertrand, esgotadíssima (a merecer nova edição) que tivemos a sorte de a encontrar num alfarrabista com o sinete do autor. Esta obra “Dom Frei Bertolameu” foi dedicada ao dr. Luís Almeida Braga e aos Rotários de Braga, em Dezembro de 1958.

Luís Carlos de Lima de Almeida Braga, nasceu em 20 de Novembro de 1886, em Braga, e faleceu em Lisboa, a 2 de Março de 1970, após uma vida dedicada à advocacia, à literatura e à política, como fundador do integralismo lusitano, tendo-se destacado pelo seu combate à Primeira República e ao Estado Novo.

Depois de estudar no Colégio do Espírito Santo, actual Liceu Sá de Miranda, desde 1922, interrompe os estudos em Coimbra para acorrer à Galiza, onde participa nas incursões monárquicas contra a República, ao lado de Paiva Couceiro e Francisco Rolão preto.

Nas Universidades de Bruxelas e Gant funda a revista “Alma Portuguesa”, em 1913, para dinamizar o Integralismo Lusitano, movimento estético e filosófico do renascimento católico, regressando a Portugal do qual volta a ser exilado em 1919.

Até ao fim da sua vida destaca-se pelo combate ao salazarismo e promove com Rolão Preto a candidatura presidencial de Humberto Delgado, com o seu Movimento de Monárquicos Independentes.

Tornou-se conhecido ao defender Henrique Galvão, líder do assalto ao Paquete Santa Maria. A sua principal obra literária é o “Significado nacional da obra de Camilo”.

Na dedicatória de “Dom Frei Bertolameu”, Aquilino Ribeiro acrescenta “os meus amigos de Braga, especialmente os rotários” a quem prometera fazer uma palestra sobre “o perfeito pastor de almas, mais que príncipe da Igreja, D. Frei Bartolomeu dos Mártires”.

Aquilino destaca o “enlevo que sempre senti por este sacerdote, tão altanado de ânimo como de entendimento, e ainda com a circunstância especial de possuir eu um manuscrito que boas achegas podia trazer, se não ao retrato do arcebispo, à crónica bracarense da época”. Os afazeres do escritor e a “chegada do inverno para mim” deixaram a “prosa no limbo” e nunca mais se fez a conferência em Braga, “essa ínclita cidade, sempre notável”.

Aquilino Ribeiro descreve este livro como um conjunto de palavras “desbotadas, em letra de forma, mas vivas no gosto de comprazer ao convite lisonjeiro e de homenagem à cidade que se dealbou tão desenganadamente de pecados velhos”.

Depois da impressão em Viana do Castelo, da obra-prima de Frei Luís de Sousa, a “Vida de Dom Frei Bertholameu dos Martyres”, em 1619, tantas vezes reeditada, sabemos que existem outras biografias do venerável Arcebispo de Braga (quando abrangia os territórios desde Melgaço a Miranda do Douro, a norte do rio Douro).

Se Frei Raúl de Almeida Rolo foi o último e mais minucioso biógrafo do Arcebispo, a obra de Aquilino Ribeiro une-se, no séc. XX, a outras obras publicadas sobre a vida de Dom Frei Bartolomeu em séculos anteriores, sendo a primeira a de Frei de Luís de Cácegas (revista e ampliada por Frei Luís de Sousa), impressa na “notável Villa de Vianna” em 1619, às custas da mesma “Villa”. Esta obra foi reeditada em 1763, em Lisboa, em 1818 e 1842, seguindo-se novas impressões em 1857 e 1890 (cf. Frei Bartolomeu dos Mártires, 1514-1590: catálogo biblio-iconográfico, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1991, pp. 138-143).

Dom Rodrigo da Cunha (1577-1643) vê publicado em 1684 o seu “Summario da vida e morte do… Senhor Dom Frei Bartolomeu dos Martyres”, até que, em 1867, surge “Vita Venerabilis Bartholomaei de Martyribus”, escrita por Giovanni Tommaso Guilhardi sobre a participação do Arcebispo de Braga no Concílio de Trento. Conhecida é a biografia assinada por Luís de Granada, publicada em Madrid, em 1727, com o título “Vida de D. Fr. Bartholome de los Martires”, escrita em francês e traduzida depois para castelhano.

O CÓDICE DE ROMARIGÃES

Ora, Aquilino não ignora estas obras, como se depreende da introdução, quando fala de Frei Luís de Sousa e observa: “quanto lhe aproveitou o texto de Frei Luís de Cácagas, de Frei Luís de Granada e possivelmente de Frei Mateus de Tortosendo, cujo manjuscrito eu utilizei, não seria fácil de discriminar”.

Mas o que é este manuscrito que serve de fonte a Aquilino Ribeiro? Trata-se de um códice (volume antigo manuscrito), “em papel almaço, escrito a letra bastante cursiva, embora de lançamento miudinho como o painço, a tinta tão descolorida que parece haver-se molhado a pena em fezes de ouro”.

O seu título é enorme, como era usual: “História admiravel do Convento de S. Fructuoso / extramuros de Brachara Augusta / com a fundação e antiguidade da sua / crasta, outrora gentílica, consagrada / ao Patriarca S. Bento / deferida depois do nosso seráfico padre S. Francisco (…) collegida e ordenada de graves auctores e memoriais / pelo mais indigno filho da Província da Piedade / o P.e Frey Thomaz de Tortosendo / ex-leitor de Theologia / pregador e mestre de noviços. Acrescentada com hu epitome da vida e preclaras virtudes de Frey Bertholameu dos Martyres/ Arcebispo e Senhor de Braga / Primaz das Espanhas / por mercê de Deus / e da Santa / Igreja / de Roma”.

Aquilino dá-nos conta do caminho percorrido pelo códice até à Casa Grande de Romarigães (Paredes de Coura), citando as observações das duas folhas em branco nos anterrostos. Este livro pertenceu a um frade de franciscano de Azurara, Vila do Conde, viajando depois para Fragoso, no limite de Barcelos com Viana do Castelo, chegando depois a Caminha, onde o padre Rabelo o pagou com “três missas do bem de alma de Frey Agostinho de Fragoso, professo do Convento do Santo Bom Jesus de Barcelos”. Depois passou para as mãos do abade de Vila Nova de cerveira, oferecido por uma tal Agata Rabella (talvez sobrinha do padre Rabelo) (cf. pp.14 e 15). Na outra folha está escrito “este livro he agora de José do Espirito Sato da Cunha” seguindo-se nova observação: “já não é seu, que é pertença do P.e Joaquim Rodriguez, de Rubiães, que lhe custou a sobrepeliz no ofício de corpo presente na igreja de Covas”.

Falta um saltinho de meia légua até Romarigães, o que não é nada do outro mundo… e, nas folhas em branco, foram-lhe acrescentadas várias receitas… de cozinha!

O códice da autoria de Frei Mateus de Tortosendo estava na livraria da Casa de Romarigães, “desinçada infamemente, saqueada pelos curas (párocos), roída pelos ratos, esfarripada pelos caseiros para embrulhar o farnel das romarias”.

Aquilino acredita que foi “conservado miraculosamente dos flagelos de Deus e dos Homens” avisa os leitores que o cita muitas vezes nas página de “Dom Frei Bertolameu”, tal como foi “fonte farta para os cronistas da Ordem e Província da Piedade — além de Frei Luís de Cácegas e, por tabela, Frei Luís de Sousa — Frei Manuel de Monforte e Frei Francisco de Santiago, religiosos e escritores mínimos de pena de pato”.

Quem foi Frei Mateus de Tortosendo?

Tortosendo é um lugar próximo da Serra da Estrela onde nasceu, viveu e foi pároco Frei Mateus, durante “largos anos” até um dia quando, “cansado do mundo”, apareceu à porta dos Piedosos, em S. Frutuoso, Braga, para ser frade franciscano.

O Bispo da Guarda, preparava-se para o fazer cónego da Sé, mas o quinto filho do Conde de Vimioso preferiu ingressar na ordem franciscana onde foi mestre de noviços, chamando a atenção de D. Frei Bartolomeu. “Algumas vezes lhe serviu de secretário. Outras de confessor. Aconteceu-lhe também ser guardião do conventinho de S. Frutuoso e não raro subir ao púlpito da Sé Primaz” — prossegue Aquilino, ao traçar o perfil do autor do códice que o inspirou a escrever “Dom Frei Bertolameu”.

Aquilino chega ao ponto de assegurar que a sua “retórica era rude, desengraçada, requeijão da serra, mas piotoresca e cheia de polme” (massa de consistência mole, com a qual se envolvem os alimentos antes de os fritar).

No entanto, acrescenta, “as suas palavras topavam nos peitos e, se não os punham a escorrer sangue, deixavam lá grandes nódoas roxas, a assinalar os grandes pecados”.

Ao anotar todos estes pormenores, Aquilino Ribeiro apenas quer reforçar a segurança e veracidade da sua fonte de inspiração para a sua obra sobre aquele Bartolomeu que “tiraram da cela para a sede e arcebispado de Braga, e assim foi forçado e violentado como se o arrancassem de onde tinha ceptro e reinado para ir ser crucificado” — como escreveu Camilo Castelo Branco, defensor acérrimo do Arcebispo em “Doze Casamentos felizes”.

Vai um Cerdo à D. Telmo

na… Casa de Romarigães?

Nas folhas em branco do códice encontrado por Aquilino Ribeiro na Casa de Romarigães estavam descritas várias receitas de cozinha, que o autor de “Dom Frei Bertolameu” partilha connosco. Vamos a elas:

Pegue-se num bom tassalho (naco) de porco, do soventre (tira de toucinho entre as mamas do porco), curadinho do fumo, a tromba do dito e a orelheira, a meio sal, e que não sintam sombra de ranço. (— O ranço é o inimigo número um. Do tacho passa-se à alma, dizia Frei Anacleto das Dores, antigo capelão desta casa).

Deitem-se, com uma cebola picada, em vasilha escrupulosa duas colheres grandes de banha, três de manteiga e um bom gole de azeite, e ponham-se a refogar. Juntem-se-lhe tantas vezes cinco rodelas de paio, paio para frade lóio ou morgado do Basto, quantas hão-de ser as pessoas, que se hão-de sentar à mesa, e tanto feijão barriga-de-freira, quanto permita à colher dar volta e reviravolta na caçoila sem a ofender, nem se pegar; adicionem-se-lhe as moelas e fígados de ave de capoeira, criada a milho, na proporção de um para dez; polvilhe-se com pimenta, coentro, um arzinho de loiro, e sirva-se com vinho dos Arcos e apetite, que não há-de sobrar coisa com que encha o papo de um passarinho”.

Já agora, bom apetite, para os próximos oito artigos.

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