Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (2)

Dança do Rei David acolheu

Frei Bartolomeu dos Mártires

Nesta comparação com obra de Aquilino, seguimos de perto a versão de Frei Luís de Cácegas, “reformada em estilo & ordem, & ampliada em sucessos & particularidades de novo achadas por Frei Luís de Sousa”, editada em seis livros, na Typographia Rollandianna, em 1818, ou seja, quase há 200 anos.

Aquilino, seguindo o códice descoberto na Casa de Romarigães, começa a sua vida com a chegada de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires a Braga, no dia 4 de Outubro de 1559, aos 45 anos.

A “Vida de D. Frey Bartolomeu dos Martyres” de Cácegas e Sousa é muito mais pormenorizada, iniciando-se com os primeiros anos de vida em Lisboa, prosseguindo com os estudos, entrada em Braga, participação no Concílio de Trento, as suas obras pastorais e as reacções que se seguiram à sua morte em Viana do Castelo, que celebrou há dois anos os 500 anos do seu nascimento.

Apenas na pág. 62 e seguintes começa a narração da sua nomeação para Arcebispo de Braga, um cargo que tentou recusar a toda a força e só aceitou porque os seus irmãos, em Capítulo, lhe impuseram a obediência à ordem assinada pela Rainha D. Catarina (tutora de D. Sebastião).

Cabia a Bartolomeu dos Mártires suceder ao carmelita Dom Frei Baltazar Limpo, mas a sua chegada a Braga é quase ignorada por Cácegas e Sousa, ao contrário de Aquilino Ribeiro ou do códice do confessor do Arcebispo.

BARTOLOMEU RECEBIDO

COM A DANÇA DO REI DAVID

Dom Frey Bertolameu” chega a Braga numa altura do ano em que se arreganhavam os ouriços e “começavam a cair sobre as azinhagas as primeiras castanhas longais, e as adegas rescendiam ao cheirinho capitoso do mosto de enforcado, no trasfegar a cântaros das lagaretas para as cubas” (p. 21).

Os bracarenses foram esperar o novo Arcebispo a Tebosa, onde chegou “escarranchado na sua mula, arreios roxos, gualdrapa (manta que se estende debaixo da sela) franjada de verde, murça preta de capelo, mantelete e chapéu preto também forrado de verde”.

Molinhava” (caía chuva miúda) — anota Aquilino, descrevendo o novo Prelado como “um homem pouco palacego (palaciano) de temperamento” que não se perdeu em salamaleques e desandou em direcção à cidade, acompanhado de uma “dúzia de ginetes bragueses, fidalgos e ricos-homens que lhe tinham vindo ao encontro” e estranharam uma comitiva tão pequena (dois frades e dois primos).

O autor de “Quando os lobos uivam” realça algumas características do seu retrato físico, notado que “era homem alto, membrudo, carão sobre o comprido, vermelhusco” e “punha respeito”.

Mas este primeiro capítulo de “Dom Frei Bertolameu” reserva-nos outros pormenores, que escapam na “Vida” de Cácegas e Sousa, a saber: “tupa que tupa, muito antes do meio-dia chegava ao arrabalde de Braga. O mestre de cerimónias guiou-o para a Igreja de S. Pedro de Maximinos, onde faria a oração preliminar à sua investidura”.

Da facto, Cácegas e Sousa preferem dar pormenores que revelam melhor a personalidade do Arcebispo, enquanto Aquilino se detém a observar a “grande mó de gente, fidalgos de raiz, magistratura, cabido e dignidades da Igreja Primaz, nem um a menos” e destaca o pormenor de Dom Frei Bertolameu descer “da mula com muita facilidade e grande sério” para se ajoelhar na “almofada de carmesim que ali estava adereçada no degrau cimeiro”.

Ou então perde o seu olhar na cruz arquiepiscopal “estrelada de gemas” enquanto persistia “a dobar do céu uma chuva miudinha, molha-tolos” e se iniciava o cortejo para a catedral”.

Interessantíssimo é o pormenor — certamente desconhecido de Cácegas e Sousa e só narrado por Frei Mateus de Tortosendo— de que a Dança do rei David já se exibia naquele tempo com todo o requinte. Escreve Aquilino: “já a essa altura os tocadores de sacabuxas (trombones) e trombetas atroavam os ares com a sua fanfarra. No mesmo instante os coribantes (bailarinos) da santa dança do rei David romperam no saracote (baile) ao som de sistros, gaitas de foles, e charamelas”.

Nesta sua descrição do cortejo, o escritor da “Casa Grande de Romarigães” dá conta de os bailarinos e tocadores da Dança do Rei David “vinham muito bem ensaiados, com coroas douradas na cabeça, justilho (colete) aleonado, calça vermelha uns, e azul outros, cingida à perna, borzequins (botins de cano aberto) de cor respetiva e deviam ser uns doze pares, todos varões”.

Descrevendo cada elemento da dança, Aquilino refere que “traziam no braço, dobrado para o peito, cítaras fingidas, excepto um que era o capitão e empunhava uma vara dourada”, uma espécie de batuta com que regia os passos e os ”volteios dos bailarinos, e representava o próprio santo rei a dançar diante da Arca”.

Com “muito bem concertadas mesuras (reverências) e moafas, gambiavam, torneavam, faziam semblante de tanger as liras, e toda a gente queria ver, que só pelo donaire bem o merecia o espectáculo” — prossegue Aquilino numa das mais belas descrições literárias da Dança maior das festas do S. João de Braga quem nos tempos ainda mais remotos se integrava na procissão do Corpo de Deus.

Nessa lindíssima descrição, Aquilino cita o códice original em que os passos dos bailarinos “eram engenhosamente combinados, sendo um regalo vê-los tripudiar, ora com destreza e chiste (humor), ora com remansado garbo, que aquelaledice de aparato se tornava grave e admirável liturgia‘ — lê-se no cronista da jornada, cuja obra repousava em Romarigães acompanhada da receita do Cerdo à D. Telmo e de “duas receitas para dor de dentes, a oração a Santa Apolónia, advogada dos ditos, molestados de cárie, um rol de roupa dada a lavar na praia de Moledo, sinal de que o cartapácio andou em bolandas” (cf. 17).

Parece que o nóvel Arcebispo  admirou muito o esforço dos músicos e dos bailarinos.

Já explicaremos porquê, uma vez que o cronista citado por Aquilino se recorda do chuvisco em que “se ensopavam as mitras dos citaredos, e as gotas de água, de pois de lamberem o ouro das coroas, despegavam-se-lhes para a cara, onde, ensaburradas com o suor dos movimentos, lhes pingavam do nariz e repas de cabeleiras postiças”.

A Dom Frei Bartolomeu dos Mártires “nada escapava ao seu olho de nebri (falcão), mandou tocar ‘mais asinha’, depois de fazer saber ao rei David que os dispensava de continuar a dança”.

Assim, metade do trajecto entre Maximinos e a Catedral, pela rua Direita e Cruz de Pedra, até ao actual Arco da Porta Nova, “foi efectuado em silêncio e a passo de forma com uma das mãos na cítara, a outra a limpar a testa às abas dos perpontes”.

Na sua minuciosa descrição da chegada a Braga de Dom Frei Bertolameu, destaca-se o lugar cimeiro da Dança do rei da David neste cortejo, porque só depois caminhavam as “santas religiões, carmelitas descalços, lóios, eremitas do Pópulo, capuchos de S. Frutuoso, crúzios, a última fileira das quais ia marchando de cara torcida”.

Logo aos músicos sucedia-se a “vaga negra-retinta e importante dos cónegos” que, por causa da “chuvinha que dobava” todos tentavam acelerar até chegar aos Biscaínhos e rua “das Cónegas”, onde se voltam a ouvir as “trombetas e sacabuxas”.

Ao chegar ao primeiro degrau da galilé da Sé, o novo Arcebispo ajoelhou na “alcatifa que se prolongava para o recinto sagrado” e logo “romperam a tanger todos os campanários e torres de Braga, ao sinal festivo do sino grande”.

Se dentro da Catedral ecoavam os acordes do Te Deum laudamos, “na rua, em frente à porta, batendo a sua contradança, os bailões do santo rei David, eram objecto da mais religiosa e exuberada basbaqueira” — escreve Aquilino, suprimindo assim uma das maiores lacunas da “Vida” escrita por Frei Luís de Cácegas e ampliada por Frei Luís de Sousa.

Estes dois autores também ignoram o “beija-mão, ao novo arcebispo, sentado na cadeira pontifical, na cabeça a mitra resplendente de pedrarias, pelos ombros a capa a manar rios de luz”.

Acabada esta homenagem, o novo Arcebispo “correu a desparamentar-se na Casa do Tesouro. E de roupeta, Frei Bertolameu, quase a correr, se dirigiu ao Paço. Foi um alívio”.

O cronista Mateus de Tortosendo, citado por Aquilino, afirma que “atravessou as salas quase como um sonâmbulo. E, tão apressado ia, que de caminho foi tirando o barrete alargando o cabeção, e assim se meteu na cela, que tinha sido adereçada consoante as suas instruções”.

Entrados na cela, podemos retomar os relatos da “Vida” feitos por Cácegas e Sousa, nos quais coincide a versão encontrada por Aquilino Ribeiro em Romarigães. A profunda humildade está patente em todos os textos, mas é objectivo deste trabalho centrarmo-nos na obra de Aquilino Ribeiro, pela sua modernidade e menor conhecimento do público.

Seguindo o códice, Aquilino coloca na boca do Arcebispo as palavras que bem o definem a sua humilde personalidade: “Meu Deus, não me exalceis para me deixar cair. Sou um pobre verme da terra e a glória ofusca-me como sol do inferno. Que desejo eu senão viver e morrer no silêncio e contemplação do vosso martírio, Salvador do Mundo? Amparai o homem que, debaixo das vestes de príncipe da Igreja, não é tão néscio que se esqueça da sua pequenez”.

O dia 4 de Outubro, da sua chegada a Braga, ainda não acabara. Foram-no chamar para o almoço, já eram umas 15 horas, numa segunda tentativa, porque a “comidinha arrefece”.

Cácegas e Sousa já nos tinham mostrado que ele escolheu ter uma “cama sem nenhuma diferença das ordinárias da Ordem de São Domingos, do feitio seguinte: três tábuas mal lavradas sobre dois banquinhos do mesmo lavor. Sobre este leito (barra dominicana), lançado um colchão de palha e em cima seu colchão de lã, cobertos com duas mantas de pano grosso, que eram as mesmas que tinha no Mosteiro (em Lisboa) e lhe serviram muitos anos depois”. O dia a dia estóico, austero e pobre de Frei Bertolameu, em Braga, que começava às três e terminava às 20 horas, é aqui descrito ao pormenor, nas páginas 74 e seguintes.

Ligação de Aquilino

à Casa de Romarigães

Aquilino Ribeiro não foi até Paredes de Coura por ter sido chamado pelo sino de ouro da Lagoa de Lamas ou da Salgueirinha… nas margens da estrada romana entre Braga e Astorga, com marcos miliários que evocam o sanguinário imperador Caracala. A ligação de Aquilino a Romarigães começa em 1929 através do casamento com a filha de de Bernardino Machado e neta do Conselheiro Miguel Dantas, Jerónima Dantas Machado.

Conhece-a em Paris, onde encontra o sogro, ex-presidente da República, e em 1955 há fotografias de Aquilino a residir na Casa de Romarigães, numa altura em que se faziam obras na Capela da Senhora do Amparo, reedificada no século XVIII, cujo tecto ruíra.

Em 1957, surge o romance “A Casa grande de Romarigães”, para muitos a sua obra mais emblemática, que há-de inspirar uma homenagem nacional em 1963.

A história desta casa começa no séc. XVII, quando Miguel Dantas a compra, após emigrar para o Rio de Janeiro, onde enriqueceu de forma singular, em tempo da guerra entre Brasil e Paraguai, mercê do tráfico de armas.

Chegado a Portugal, Miguel Dantas é eleito deputado e senador. Compra a Casa e torna-se o principal construtor de Paredes de Coura, com estradas e edifícios.

A sua filha Elvira vem a casar com Bernardino Machado, presidente da República na I República e vive aqui até se exilar em Paris, com as filhas. É aí que Aquilino conhece a Jerónima, da qual nasce o outro Aquilino que há-se ser presidente da Câmara de Lisboa.

Em “A Casa Grande de Romarigães”, o beirão Aquilino Ribeiro conta a história destas famílias, de forma romanceada, tendo encontrado aqui o códice de Mateus de Tortosendo, confessor do grande Arcebispo, do qual nasce a obra “Dom Frei Bertolameu”.

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