Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (3)

Bouro chafurda em idolatria

e Arcebispo chora na Abadia

Se a “Vida” escrita pelos monges Frei Luís de Cácegas e Luís de Sousa dedicam muito espaço ao dia-a-dia do novo Arecbispo, após a sua chegada a Braga, Aquilino Ribeiro segue outro caminho.

Após breves pinceladas sobre a personalidade austera e simples de Dom Frei Bartolomeu, continua a sua obra — baseada num códice do monge confessor do Arcebispo, Frei Mateus de Tortosendo — com a primeira visita Pastoral de “Dom Frei Bertolameu” às igrejas de Terras de Bouro.

Contra a vontade de todos, após as celebrações do Advento, ele preparou a visita quando “estava um inverno muito cerrado e a sazão imprópria para o exercício do múnus episcopal em aldeias humildes, com as ruas lastradas de tojo, onde as pessoas se enterravam até ao joelho, e batidas ora e sempre por nevões desconformes”.

Àqueles que reprovavam a escolha, respondeu de pronto: “pois, precisamente, nesta altura é que reclama a minha presença. São como os rebanhos. Não é nas intempéries que exigem mais que nunca o olho vigilante e aturado do pastor?

Não havia argumentos dos colaboradores que travassem esta “alma couraçada das suas razões e quando elas pareciam irredutíveis decretos”.

Já aqui escrevemos (cf. “O Arcebispo que era … mãe”) que a visita pastoral “é quase a alma do governo episcopal porque é por ela que o pastor se desfaz e consome em benefício e utilidade das suas ovelhas. O bispo autentico quando sai a calcorrear todas as paróquias é como um sol que desponta para iluminar a terra pelos três actos hierárquicos, a saber, limpar, ilustrar e aperfeiçoar” para além de “consolar todos os que choram e acudir com remédio a todas as necessidades espirituais e temporais” (cf. Stymulus Pastorum”).

Aquilino Ribeiro descreve o nóvel Arcebispo de Braga ou “ermitão de S. Bento da Porta Aberta”, como “um homem barbaçudo, anguloso de feições, cabelo em estrigas, com umas grossas camândulas (rosário de contas grossas) a chocalhar do pescoço”. Todavia, este segundo capítulo funciona principalmente como fotografia psicológica de “Dom Frei Bertolameu” (cf. pp. 29-39) em viagem entre Braga e Santa Marta de Bouro.


Amiúde, Aquilino não esquece os traços psicológicos de Dom Frei Bertolameu definido como tendo uma “
vontade inflexa”, de antes quebrar que torcer no seu ascetismo que evitava “colheres de prata” (cf. p. 32).

Ésta figura vai calcorrear por “toda aquela corda povos, de S. João da Balança à Portela do Homem” onde “o gentio chafurdava em fraca idolatria”, porque “não orava, não guardava os dias de magro nem o domingo; quanto a jejuar não se fala”.

Mais, “a santa lei do matrimónio era letra morta. Viviam, homens e mulheres, à rédea solta da natureza, e os primeiros a participar na ribaldeira eram os ministros do altar”.

Ou o arcebispo acudia, ou “perdia-se de todo a seara de Cristo naquelas terrinhas altas, onde para maior desgraça os ventos sopravam à compita com os foles do inferno”.

O primeiro servidor do Paço, entrevistado pelo Frei Dom Bertolameu, pareceu-lhe “frenético, de alma torva ou torturada por debaixo da estamenha”:

— “Há quantos anos não vai o prelado às igrejas da Serra?

A resposta mais negra não se fez esperar:

—“não há memória, reverendíssimo senhor. Os visitadores, nomeados pelo cabido, vão, fazem duas cruzes, cobram os dízimos, arrecadam a peita (suborno) dos párocos, e ala para a cidade, onde estão ao quente”.

Frei Bertolameu quis saber se o que ele dissera era verdade e “mandou que dessem gasalhado ao homem, que podia ser óptimo guia nas serras, tirou inculcas (provas), e porque averiguasse que muito do que dissera era verdade mandou aparelhar a visitação”.

O seu secretário Frei João opôs-se e pediu ao arcebispo que se “reservasse para a Primavera”, mas o Arcebispo manteve-se firme: “arranje-se lá como entender. Frei João, quando muito bem quer, recebe ajuda de Deus. Socorra-se dele”. Sabe-se que, pela Primavera, andava ele em Vila Nova de Cerveira (Cácegas e Sousa, Op. Cit. p.108)

O seu secretário-ecónomo lá mandou “forneirar pão para duas semanas, broas grandes como rodas de carro, encher merendeiros e merendeiros de peixe de escabeche e de conserva, tantos foles de gravanços (grão-de-bico), tantos de feijão, tantos odres de vinho, lotado tudo menos pelo número de cabeças que, pela largueza do arcebispo, que era pródigo a dar aos pobres e não podia ver ninguém à sua beira ter fome”.

Acresciam “roupas, camas, baixela, toda em pau para não se partir e muito sucinta” porque para o Arcebispo bastavam “uma louça de Talavera e cama com mantas de burel (lã de ovelha), sempre sem lençóis”.

Mesmo com esta poupança, foi necessária uma “rédea de machos, que nunca mais tinha fim, quando se foi desdobrando, primeiro pela rua das Cónegas, em seguida por aquela velha calçada da Geira, que datava do tempo dos romanos”.

Consigo, Dom Frei Bertolameu levava dois cónegos visitadores, “cada um deles com um escrivão e respectivos fâmulos, criados com roupas, comes e bebes”. A caravana “compunha-se de vinte e tal pessoas, com um número ainda maior de azémolas”.

Parecia uma comitiva real, mas não era — explica Aquilino: “os morgados e colegiadas eram obrigados a franquear-lhes as portas e a pôr a mesa” à comitiva real, mas Dom Frei Bertolameu não imitava a “cáfila” do Rei, uma vez que “gastava do alforge”.

Numa altura em que a mitra bracarense pagava vinte mil cruzados ao Rei, D. Bertolameu privou-se de “escudeiros, pajens, homens de capa e espada, mordomos, moços de estribos e trinchantes — trinchantes são os meus dentes, alegou ele ao correr um candidato a tal sinecura” — para ter sobras e levar a “cabo estas missões com liberalidade e sem gravame para os povos”.

Nada o detinha neste “imperioso serviço de Deus. Caía uma chuvinha batente e pequenina de aljôfar (orvalho) e cristal, destas que, depois de encharcarem cristão por fora, lhe amolecem a alma”. Fixem-se nesta descrição: “os cónegos ergueram a gola das garnachas (batinas) e em seu íntimo não é ponto de fé que não encomendassem o arcebispo ao Diabo. Leva que leva, quando atravessaram o Cávado (na ponte do Porto) iam gelados até aos ossos. Felizmente Santa Marta de Bouro, onde fora deliberado fazer alta para dizer missa e tomar um viático, não estava longe”.

Não escapa nenhum pormenor destas visitas na narrativa de Aquilino, como este, quando escreve que, “de véspera os estafetas tinham ido levar o recado, tanto que eram aguardados à entrada da povoação pelo abade da freguesia e pelos nobres e principais, de pálio e cruz alçada”, para desconforto do Arcebispo.

Frei Bertolameu — anota Aquilino — “escondeu mal a contrariedade ao defrontar-se-lhe tal pompa, quando o seu propósito era dizer a santa missinha, ministrar o crisma, fazer a prédica, e, inquirir dos males tanto teológicos como materiais da população, pois que a Mitra exercia a jurisdição civil como uma monarquia”.

Na terra onde havia o “mosteiro dos frades bernardos” (Santa Maria de Bouro), “muito bem quadrava àquela terra, como tabuleta de paganismo, uma landaina (historieta) que trazia registada no seu livro secreto, espécie de diário de bordo”.

Nesse seu livro se conta a tradição das moças casamenteiras. “Sempre que o pretendente à mão de qualquer moça chamava à porta dos pais, trocava-se este bate-língua:

  • Ó de casa?

  • Que procurais?

  • Mulher honrada, fazenda e dinheiro.

  • Saía o pai com a noiva pela mão como nos autos de Gil Vicente.

  • Ela cabras guardou; sebes saltou; se em alguma se espetou e a quereis, assim como é, assim vo-la dou.

Nestas terras, o arcebispo “não teve remédio senão aceitar” a oferta de um almoço oferecido por D. Vasco Mogueimes Fajardo e sua mulher D. Maior (da família de uns senhores de Coura que participaram na viagem marítima para a Índia).

Com as boas trutas do rio Cávado (que tantas discórdias geraram entre os Vasconcelos e os senhores de San Joan de Rey) emparelhavam as perdizes de canapé e em molho de vilão. Faziam escolta aos capões assados rodelas olorosas de paio e chouriços de cerdo, engordado a castanhas. Riram-se os olhos dos cónegos e, depois de uma leve oração, precipitaram-se sobre as iguarias.

Frei Bertolameu tomou uma xícara de canja e esburgou uma asa de frango com um cibo de pão e provou o verdinho de Rio Caldo, mas cortado ainda de água. Nada lhe aborrecia mais que a gula”.

Aquilino mostra aqui que conheceia a obra fundamental do Arcebispo, ao citar Stymulus Pastorum, quando lembra que “tres pestes, imo et tres serpentes, irrepunt in episcopi dignitatem, scilicet honor, pecunia et mensa” (“três pestes, três serpentes, danam a dignidade episcopal, pompas, ganância e mesa”).

Quando Bertolameu se levantou da mesa, “os mais novos trataram ainda de amochilar o seu salpicão, a sua perdiz para o bolso das sotainas, outros de levá-las ao despenseiro, para que lhas guardassem, e ala que se fazia tarde”.

Amainara a chuva” e Frei Bertolameu pôde ficar deslumbrado com o cenário que envolvia os montes que “chamam da Abadia” em que os cumes “pareciam recortados em anil puro e as encostas escorriam beatitude, uma cheia de beatitude toda celeste” levando o prelado, que tinha a “alma aberta à lançada transcendente” a não se conter e ajoelhar-se em “plena rua”.

Altar admirável era aquele em que se convertia a natureza à beleza infinita” e bendisse ao “Senhor por lhe haver dispensado um espectáculo de tamanha excelssitude”.

Viram-se-lhe os olhos trémulos e rasos de lágrimas”, enquanto ditava à comitiva para prosseguir a caminhada, enquanto um dos cónegos profetizava: “vem aí chover…

No entanto, Frei Bertolameu garantia: “— Hoje não chove mais. Garanto, Vamos lá. Bem sabeis qui observat ventos, non seminat; qui considerat nuves, non metet (“quem espera que o vento passe não semeia, quem se põe a olhar para as núvens nunca mais faz a segada”).

Dali seguiu para Chorense e no “couce” da comitiva seguia Frei Bertolameu, com o seu capelão, “em cima das mulas, rédea bamba, a rezar o breviário”. A visita é longa e prossegue na próxima semana.

O dia-a-dia de Bertolameu

Da página 75 em diante, na sua “Vida”, Frei Luís de Sousa descreve o dia-a-dia do “Bracarense” – epíteto papal devido à sua intervençaõ no Concílio de Trento — que “se levantava infalivelmente, todos os dias às três horas da manhã e para se despertar usava o remédio da água que tinha sempre à sua cabeceira” e ocupava a manhã na leitura da Escritura ou vidas de santos, ou a “escrever tratados de devoção que deixou muitos”.

Antes da leitura rezava duas horas pela manhã, cedo e “sempre só”. Às oito horas rezava ou ouvia missa e deixava entrar os negociantes e requerentes que “o buscavam”. Depois da missa, recebia as pessoas, as mulheres em primeiro lugar, seguindo-se os assuntos de interesse para a cidade.

À tarde abria as portas a quem quisesse falar com ele, despachava até ao fim do dia, e quando soavam as Avé Marias, ao anoitecer, recolhia-se ao seu quarto, e “se agasalhava em suas pobres mantas”. Muitas vezes ouviam-se “uns gemidos” intrigantes. Eram castigos que — como na sua ordem — infligia a si próprio e procurava o refúgio do Mosteiro de S. Frutuoso, após às visitas pastorais (cf. p. 77): “cilícios usava em todo o tempo, mas com segredo e cautela, que se não lhe entendessem”.

O mantimento da sua mesa, “os dias da carne (excepto as quartas-feiras que para ele eram dias de peixe) era uma só ração de carne de vaca ou carneiro e se lhe punham alguma coisa mais deste ordinário, e em a vendo mandava logo dar inteiramente aos pobres”. Ao meio copo de vinho acrescentava o resto de água, até encher.

Afinal, ele era o “físico-mor de mil e quatrocentos hospitais, que são outras tantas freguesias que à minha conta tenho neste Arcebispado” (cf. CÁCEGAS E SOUSA, in Vida de Frei Bartolomeu dos Mártires, p.107), durante uma visita à paróquia de Nogueira, em Vila Nova de Cerveira.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s