Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (4)

Recebam-me quantos amancebados: legalizem as uniões destes laparotos

Deixamos a Abadia para trás, onde a beleza da paisagem fez derramar umas lágrimas pelo rosto do Arcebispo, no dizer de Aquilino Ribeiro, quando nos recorda a primeira visita pastoral de Dom Frei Bertolameu, como Arcebispo de Braga, com prioridade para as “igrejas mais recessas, perdidas no meio dos matos ou recostadas no alcantil de montes fragosíssimos, ignorados de Cristo e dos homens”.

Para lá chegar, a caravana tinha de “contornar precipícios medonhos, através de sendas sinuosas e escorregadias, onde só transitava em risco o pé bifurcado da cabra” geresiana.

E não é que “lhes aconteceu rolar de cambulhada, machos e homens, por uma destas ribanceiras”?

Frei Bertolameu, que marchava atrás, “ergueu as mãos ao céu, aterrado. Por milagre não passou do susto, e o tombo saldou-se com mais costela menos costela dorida ou contusa”.

Aquilino recorre à sua veia poética com ironia (que não estava no códice de Frei Mateus de Tortosendo, confessor de Dom Frei Bertolameu, em que se inspirou) para descrever o cenário do tombo: “a neve vestia à terra uma bela sobrepeliz inconsútil, quando não era o vento que os fustigava com a chuva em plena cara para que os senhores cónegos soubessem a doçura que tinham os salmos do rei David cantados no coro da Sé. Debaixo dos grandes guarda-chuvas de barbas de baleia, enfronhados nas garnachas (sotainas), com polainos de junça que lhes tinham cedido os regatões de Adaúfe, batiam o dente e suspiravam. Rezar, rezavam por eles as beatinhas da rua dos Biscainhos”.

Enquanto recordavam “com amargura o conforto dos seus lares sempre tão mornos do lume de cavacos” — acrescenta Aquilino — “iam murmurando contra o prelado que, dois meses depois de investido no cargo, em pleno Inverno, se abalançava àquelas peregrinações por terras barbarescas. E era este o seu estribilho: porque é, santo Deus, que lhe agrada tanto a neve, e os temporais desabalados?

Pois é, comenta o autor de “O Malhadinhas”, “apenas à chuva e ao vento, debaixo de neve, com as carnes retalhadas pelo cieiro, os homens se mostravam no seu vero ser. Ali, mais que em nenhuma parte, a vida era dor e transe”.

Quanto ao itinerário “pelos píncaros e serranias, onde só os meirinhos gastavam a sola dos sapatos, não havia remédio, visto aquelas gentinhas, com igrejas do tempo do santo rei Vamba e eidos, onde se embebedavam com vinho de cepas plantadas pelos netos de Noé, serem igualmente filhas de Deus”, na perspectiva do Arcebispo.

Se os acólitos de Bertolameu não são poupados, Aquilino tem outro olhar sobre a figura do seu “Dom Frei” atribuindo-lhe a “sua grande função” que consistia em “dar de comer aos famintos, a boa maioria dos viventes, e aliviar-lhes os outros males, se podia. Andando, despejava os alforges. Assim, aldeia que visitasse, era como se chovesse sobre ela o maná. Não chegou a vestir naquele ano quatrocentos e tantos esfarrapados?

Sempre a pensar nos outros, Bertolameu “calçava botas cambadas e emplastradas de tombas. A sua sotaina perdera há muito a cor e ria-se por todas as costuras”. Chegou a ponto de Frei João de Leiria, obrigado a zelar pelo decoro episcopal, lha substituiu por outra à traição. Ele deu conta aos vestir, por ser mais leve, e reclamou a antiga” mas… o seu ecónomo prevendo “tal despautério” disse que a “tinham dado a um pobre” (cf. p.41). Frei Mateus de Tortosendo argumenta que Bertolameu reconheceu a nova sotaina mas “não foi pelo peso, mas pelo cheiro especial que exalam as fazendas novas”.

Neste capítulo se mostra que Aquilino — mesmo seguindo de perto Frei Mateus — não ignora a “Vida” escrita por Frei Luís de Sousa, quando cita as palavras ditas em Nogueira, Vila Nova de Cerveira: “sou o físico mor de mil e quatrocentos hospitais” (paróquias). No entanto, acrescenta: “não posso empregar mal um ceitil”. Nesta Viagem entre Abadia e Vilarinho da Furna, por Chorense e Santa Isabel do Monte, o autor de “Terras do Demo” faz um breve parêntesis para se socorrer da “Vida” de Frei Luís de Sousa e contar alguns episódios mais pitorescos, como o das primeiras lampreias de Janeiro que ofereceram a Frei Bertolameu.

A etiqueta “mandava a que as remetesse à rainha” através de um andarilho veloz “de modo a chegarem vivinhas à capital”. Este andarilho “ganhava mundos e fundos, mais que um pregador na semana santa” mas o arcebispo não esteve pelos ajustes da etiqueta: “mande-me vender estes peixes na praça. O dinheiro que hão-de render, mais o que haveria de dar ao correio, é-me preciso para os pobres. A senhora rainha D. Catarina perdoará. Tem muito donde lhe venham lampreias e com que as comprar”.

E não é que este gesto chegou aos ouvidas da rainha que lhe “achou graça e lhe fez chegar parabéns”? É verdade. A rainha estava bem para pegar ao pálio, com este Bertolameu que ela impôs como Arcebispo a Braga.

Bertolameu escolhia os candidatos a padres entre “os meninos que lhe pareciam espertinhos. Desta massa, expediu para Braga uma carregação deles. Ao apearem intonsos e desconfiados, davam ideia aos bragueses, içados no seu alcandor de urbanitas, duma ninhada de caçapos (crias de coelhos ou láparos), tirados da lura”. Mais adiante, quando Frei Bertolameu chegar ao Barroso, falaremos destes meninos…

Continuando a citar a obra de Frei Luís de Sousa, Aquilino lembra que os gentios eram tão ignorantes que se afiguravam aos que “acabavam de sair das cavernas. (…) De doutrina sagrada não sabiam patavina. Os padres tinham catréfias de flhos, cavavam a horta e mascavam um latim que devia fazer saltar nos sarcófagos os ossos dos doutores da Igreja”.

Dando exemplo dessa ignorância, O Arcebispo foi recebido com uma dança popular em que se cantava “Benta seja a Santa Trindade, irmã de Nossa Senhora. Finavam-se de riso os flâmulos. Ele fingia semblante alegre” contamplando aquelas tiradas teológicas “impregnadas de um vago ressaibo presciliano”.

Prisciliano, nascido na Galécia, foi o primeiro herege justiçado pela Igreja Católica, tendo sido decapitado.

O priscilianismo foi uma doutrina que, no séc. IV, tinha como base os ideais da austeridade e da pobreza e se desenvolveu na Península Ibérica, sendo considerada heresia no concílio de Braga, em 561.

O segundo concílio de Braga, celebrado vários anos depois, ainda reflecte nas suas actas alusões à ideologia onde se condena o “delirante pecado” de não se cortar o pêlo da clerezia galega.

Prisciliano fundou uma escola austera e rigorosa, precursora do movimento monástico, e oposta à crescente opulência da hierarquia eclesiástica. Os aspectos mais polémicos são a nomeação de “mestres” ou “doutores” a laicos, a presença de mulheres nas reuniões de leitura da Bíblia e o marcado carácter ascético.

Um destes concílios, faz referência a costumes indesejáveis como “mulheres que assistem a leituras da Bíblia em casas de homens com quem não têm parentesco; o jejum dominical e a ausência das igrejas durante a quaresma; a recepção das espécies eucarísticas na igreja sem as consumir de imediato; o apartamento em celas e retiros nas montanhas; andar descalços (nudis pedibus incedere)” (cf. CHADWICK, Henry, Prisciliano de Avila: ocultismo e poderes carismáticos na Igreja primitiva, 1978, p. 34-35.)

UM CORAÇÃO MATERNAL

Santa Bárbara e S. Jerónimo eram tratados como “santos deuses imortais” enquanto S. Torcato era invocado para evitar as “tentações do Demónio e das horas minguadas”, ao passo que a S. Caetano pediam “pão para todo o ano, e a S. Vicente que no-lo acrescente”.

Notando que viviam “à rédea solta da natureza”, Bertolameu decreta aos acompanhantes: “recebam-me quantos amancebados se queiram casar. Nada de custas. Condenar a sensualidade a dinheiro, é o mesmo que pô-la em almoeda. Abominável! Fechem, fechem os olhos e legalizem-me as uniões destes laparotos, desde que não haja impedimento canónico”.

O Arcebispo tinha um coração de mãe: “tão-pouco usava de excomunhão e só em casos extremos. Aos relapsos mandava que os párocos os afastassem do caminho e já era reprovação bastante. Então, pergunta-se, não era uma dor de alma deitar à margem uma ovelha tinhosa, para que os corvos lhe picassem os olhos e os lobos famintos a devorassem?”

Por entre estas observações, sobre o perfil psicológico de Frei Bertolameu, a caravana chega a Vilarinho da Furna, quando “estava a escurecer e iam molhados até aos ossos”, dirigindo-se à chamada Casa da Torre, coberta de telha mourisca e soalhada porque as “demais habitações eram choças, colmadas a giesta negral ou palha centeeira, com uma porta de cravelho, o couce girando num tacão velho de sapato, entre ombreiras de pedra de arranque”.

No seu diário de bordo, onde trazia tudo apontado, podia ler-se: “gentio miserável e brutinho de todo. Cultivam o centeio. Vivem da pastorícia. Pescam no rio Homem o barbo e a boga. As trutas comem-nas os senhores de Bouro e da Vieira e um fidalgote do sítio, dono da tal casa da Torre, homem devasso e feudal que exerce o direito de jambage (primeira noite com a noiva). Primitivos de todo; nem rei nem roque, etc.

O arcebispo recusou a “cama e ceia na casa da torre” num gesto premonitório porque, a meio da noite, “acordaram todos a um grande estrondo. A casa da torre esbarrondara-se e maravilha foi não esmagar ninguém da comitiva” e o arcebispo agradeceu “ao Senhor tê-lo poupado da morte macaca”.

A LIÇÃO DO MENINO PASTOR

De Vilarinho da Furna, continuaram por “alminhas e lugarejos, através de serranias muito ásperas, onde pastavam magros rebanhos, guardados por molossos (cães de guarda) de coleiras de puas (aguilhão). Atrás deles, engoiado na capucha, os pastorinhos, de trunfa arrepelada e monco, batiam a chanquelha de amieiro”.

É nestas serranias que Bertolameu aprende uma lição dada por um menino pastor “exposto à chuva e ao vento que açoitavam a terra, de tenra idade e rotinho a guardar o revanho”.

—“Ó menino, foge da chuva! Ficas aí que nem um pito…

  • Que remédio! — respondeu o pastor. — Se não estou alerta, olho fino, vem o lobo e leva-me a ovelhaou salta de lá a raposa e mata-me o cordeiro.

  • Então, são coisas que acontecem…

  • Deus me livre, que eu tenho pai que me pede contas. E mais com o génio dele! Se ficasse só em ralhos e me não moesse com pancadas, já não era mau! Nada, nada, meu senhor, antes apanhar a molha. Eu velo sobre o rebanho e meu pai sobre mim.
    O arcebispo esperou que a comitiva chegasse e disse:

  • Que melhor exemplo para um pastor de almas que este menino? Recebi agora a maior lição da minha vida.”

A viagem ia longa e faltavam já as provisões para a caravana onde se notavam já desfalecimentos e muitos “romperam em protestos” quando Frei Bertolameu pediu a ajuda de Deus. “Subitamente, escreve Aquilino (p. 48), começaram a descer a encosta pobres indígenas, com um coixão de um veado às costas, outro com os quartos de um cabrito montês, aquele impando com um odre de vinho, tais e tais com o seu balaio (cesto) de trutas, o seu salmão e toda a casta de vitualhas”.

Foi um ver se te avias, porque, “esfomeados como estavam, alguns estoiraram os cós das calças e tiveram de alargar o botão das sotainas” enquanto os serranos homenageavam Bertolameu “zabumbando em bombos e ferrinhos e agitando címbalos que tinham servido nas lupercais (festas romanas) dos tempos áureos do paganismo”.

Carvalho de Zebral: Deus

sabe quantos anos tem…

A sequência do texto do autor de “Quando os lobos uivam” aponta-nos para a chegada a Ruivães, onde existe a ponte da Misarela, mas a sua maior celebridade era um carvalho. Aquilino rejeita a hipótese de que esta Ruivães possa ser a freguesia homónima de Famalicão, como defendem um ou outro autor, entre eles, Camilo Castelo Branco.

Pinho Leal no seu “Portugal Antigo e Moderno” Vol. VIII,pág.s 290-261, refere que Ruivães é «villa, Minho, no concelho de Vieira, comarca da Póvoa do Lanhoso (foi villa e cabeça de concelho, da comarca de Montalegre, em Traz os Montes) 60 km ao N. de Braga, 320 fogos. Em 1757, tinha 305 fogos e «um capitão-mór, com duas companhias de ordenanças cada uma com seu capitão, dois alferes, dois sargentos e quatro cabos.

Em Ruivães, escreve Aquilino, Frei Bertolameu “fez a visitação dentro da toca de um carvalho. Cabia lá muito bem com a mesa e a pessoa inquirida”.

Certamente, embora Aquilino não o diga, estamos a falar do Carvalho de Zebral, monumento nacional, mas o nosso cicerone esclarece que “a árvore era tão grade que não a abraçavam seis homens à roda, que se dessem as mãos, e a sua copa tão vasta e ainda tão robusta que produzia todos os anos 70 alqueires (13 litros) de bolota.

Nos ramos vinham fazer ninho os gaios, os pombos bravos, a poupa, o tentilhão, o papa-figo, o peto e mais aves que gostam de habitar as águas-furtadas do céu. Ali, especialmente, nunca deixavam de armar coreto o curo e a rola e botar, de manhã e à noite, as suas cantatas maviosas. Nos meses do amor, era ali um arraial pegado”.

Face à imponência da árvore, Frei Bertolameu pediu aos vizinhos que “conservem este carvalho venerável e por nada deste mundo levantem ferro para ele. (…) Sejam-lhe gratos. Vejam lá, não o esgalhem e, ao colher as landes, não lhe metam vara. Também lhe dói, fiquem sabendo!

Em Ruivães terminava a primeira fase de visitas pastorais, recolhendo-se depois ao Convento de S. Frutuoso.

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