Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (5)

Dos meninos “caçapos do Barroso”

ao Arcediago escandaloso (de Gualtar)

Na sequência de “Dom Frei Bertolameu”, deixamos para o fim uma brilhante descrição sobre a passagem do “Bracarense” no Convento de S. Frutuoso, dado o interesse que ela tem para os bracarenses, na pena do frei Mateus de Tortozendo, na qual se inspira o autor de “O Malhadinhas”.

Trata-se de uma opção nossa para darmos sequência lógica às actividades pastorais de Dom Frei Bertolameu, depois de “pôr em dia a sua alma pecadora” e encontrar a “última leva de mocinhos ‘filhos dos penedos do Barroso‘ gordos, limpos e róseos, na primeira fase de gente da Igreja” (cf, p. 69).

Assim, nestas entremeadas, escreve Aquilino, “muito se alegrou vendo as boas plantas de fruto que iam reverter da rudes tojeiras depois de enxertadas por Deus”. Faz-se assim a ligação aos “meninos que lhe pareciam espertinhos” e dos quais “expediu para Braga uma carregação deles” descritos (cf. p. 43) como “intonsos e desconfiados” que os bragueses olhavam como vindos de uma “ninhada de caçapos (crias de coelho), tirados da lura”, para atenuarem os efeitos de “padres que tinham uma catréfia de filhos” e que de “doutrina sagrada não sabiam patavina”.

Reforçava-se assim aquele que foi o Seminário Conciliar (após Trento) de Braga — criado em 1560 — e hoje é a Faculdade de Teologia da Universidade Católica (Braga), por onde cresceram intelectual, cultural e espiritualmente milhares de jovens ao longo destas centúrias que quase igualam os dedos de uma mão dos nossos leitores.

Dom Frei Bartolomeu ordena, com alegria pelas suas escolhas, que fosse enviado “pano para todas as povoações de que rezava o rol. A fim de que os pais dos pupilos fossem vestidos para oInverno dos pés à cabeça”, antes do Advento … ou seja, nos primeiros anos de múnus episcopal em Braga.

Aquilino salta para o Natal do ano 1565 para se socorrer de novo do primeiro biógrafo de Bertolameu, Frei Luís de Cácegas, evocando os “soalheiros, as beatas, as devotas, curas e fregueses” mostrando que conhecia todos os relatos da vida de Dom Frei Bertolameu, como são os casos de Frei Luís de Granada, Frei Luís de Sousa, Rodrigo de Granada ou até o ignorado padre Francisco Álvares Vitório.

O autor de “A casa grande de Romarigães” atesta-se assim conhecedor da vida do “Bracarense” ao ponto de os citar para nos dedicar um dos mais belos e irónicos capítulos desta obra. Este é um dos capítulos que Justifica uma obra menos pormenorizada como as de Cácegas ou Sousa sobre a vida do Grande arcebispo (a economia da escrita) . A sua prioridade é dar a conhecer momentos que aqueles biógrafos passaram à frente quando “já se podia erguer, a favor da verdade, o véu da descrição, compreensível com a pudibundaria (vergonha) social coetânea, necessária às pessoas vivas” (cf. p. 70).

Justificado está o regresso ao caminho palmilhado por a Frei Mateus de Tortosendo, na sua “História admirável…”, encontrada em Romarigães onde Aquilino vive e descobre os manuscritos que inspiram também a sua “Casa Grande…”, como se pode ler nas primeiras páginas desta obra.

É de importância pouca? — pergunta o leitor. Não. “A restrita preciosidade do códice está nisto: o ter conhecido o autor a D. Frei Bertolameu por fora e por dentro e haver presenciado o que conta. É, pois, ponto de fé que forneceu aos biógrafos do frade e pastor linfa, se não abundante, fresca e de rocha”.

E de quem estamos a falar agora? Não é de Bertolameu, mas, “nem mais nem menos”, que do arcediago de Braga, D. Luís Ponces de Meneses, “homem mundano, aparentado com a melhor fidalguia do Minho, e mais antigo da ribaldeira (canalhice ou patifaria) que de Deus”.

Ora, este Arcediago (“em despeito dos seus cinquenta e tal anos”) entretinha relações “culposas com D. Odília Larim de Montelongo” e — chegados aqui — vamos omitir o nome do marido para o excitar o leitor a comprová-lo na obra original… (cf. p. 71).

Com “bons órgãos de apreensão”, Frei Bertolameu montara uma “polícia secreta muito atilada, cujos informes ia registando no livro íntimo que nunca largava do bolso” e era alimentado pela boa “cooperação de cem e um espíritos-santos-de-orelha, que têm gosto como as aranhas de urdir teias escusas”.

A negra vida do cortesanesco arcediago, além de opulento, gozando a prebenda de Gualtar, com visita ordinária ao couto de Braga, era-lhe notória” — descreve Aquilino, recordando os avisos do Frei Bertolameu que caíram em saco roto… até ao dia da Missa do Galo.

Quando D. Luís Menezes abria os gavetões da Casa do Tesouro para retirar os paramentos, chegou o arcebispo e disse-lhe ao ouvido:

—“Deixe, deixe! Hoje não lhe permito que suba ao altar.

  • Essa agora! — exclamou o arcediago alterado. — Não hei-de ocupar o lugar que me compete?

  • Hoje não”.

Para o arcediago (ecónomo do Cabido) era o vexame completo num catedral “coalhada de gente, as altas autoridades e cabido nos cadeirões, a fidalguia em seus estrados, entre eles, sem dúvida, D. Odília de olhos lânguidos”que se encontrariam com os do governador do arcebispado, “provisor já de três arcebispos, mestre cantante em lausperenes, jubileus e todas as missas de Pontifical!?

  • O arcediago exalta-se e o Arcebispo mantém a calma e responde: — “a razão conhece-a V. Rev.ma tão bem como eu.

  • Mas faça favor de a dizer…

  • Homem, não se faça de desentendido! — e voltando a falar-lhe à orelha… —está em pecado mortal”.

Bertolameu esperou que o arcediago desistisse para dar início à Missa do Galo mas o arcediago “rompeu em veemente gritaria: porque à-del-rei aquilo era um atropelo inqualificável; nunca tal sucedera na Sé Primaz; era preciso que viesse de fora, de cascos de rolha, um fradalhão para trazer a desordem a um lugar onde sempre houvera paz e concórdia!”

Bertolameu manteve-se de pé, estático, diante dele, “lábios vincados, aqueles lábios finos pregados um no outro a exprimir a sua vontade incoercível, olhos entre abstractos e parados, atitude tanto de quem espera como de quem acusa”.

O arcediago não desistiu e ameaçou o arcebispo com uma queixa à Rainha porque “Vossa Reverendíssima há-de saber quem sou”.

  • Sei-o há muito” — respondeu Bertolameu, enquanto se formava um grupo de pessoas à porta da sacristia e D. Luís Ponce de Menezes desabafava:

  • É uma vergonha para mim… Se me não vêem no altar que hão-de dizer? Por amor de Deus, senhor Arcebispo!

  • Já lhe disse, comigo não sobe ao altar. (…)

  • Seja, avalio com que tirano estou metido. Mas já que assim é, lavro o meu protesto e exijo que se erga auto e se tomem testemunhas…

  • Pode tomar Braga inteira se quiser”.

O arcediago arregimentou testemunhas que lhe deviam favores e amigos para apresentar queixa do Arcebispo à Rainha mas tal foi a matéria dos autos que o arcediago foi transferido para os Algarves.

Mais tarde, Luís Ponces de Menezes, talvez tomado pela “melancolia do amor contrafeito deu no ascetismo. Reconciliou-se dom o Prelado e foi um dos primeiros a visitá-lo no Convento de Santa Cruz de Viana, quando resignou a mitra”.

O velho arcediago acabou por morrer cego, “em odor de bem-aventurado para Braga”, enquanto a D. Odília de Montelongo — revela Frei Mateus de Tortosendo no códice encontrado por Aquilino — “foi raptada por um corsário de Tunes, que fez dela sua mulher e rainha. Valeu-lhe ser bonita, delambida (vaidosa), género de repitoscas”, convertendo-se depois ao islamismo, vivendo feliz e esquecida do arcediago e de Montelongo.

Um livro de jornada

com sinais criptográficos

Está concluído este intervalo que fizemos antes de voltar às visitas do Arcebispo pelas “velhas calçadas romanas, ora pelos caminhos de carro e atalhos onde nunca tinha passado ministro nem príncipe” para chegar a “quantos lugares e lugarejos havia nas serras da diocese: Gerês, Soajo, Barroso, Marão”.

Nas “burras tosquenejantes (dormentes) e ralaças (preguiçosas), habituadas a passo de rezadeiras, os familiares tiritavam e grunhiam” enquanto ele “ia embrulhadinho no seu viator, as mais das vezes à frente, para meditar à vontade, e ainda porque lhe dava satisfação ser o primeiro a descobrir mundo, sem que deixasse de esbagoar (deixar cair os bagos=contas) o rosário de mão automática”.

Curioso, “nada se furtava ao olho ladino (de Bertolameu) tanto na equipagem como na terra à volta”, prossegue Aquilino, dando conta que “dormiam onde Deus queria, umas vezes em casa de torre, outras vezes sobre grabatos (catre ou leito pequeno), e até em choça (cabana) de carvoeiros”.

Quanto à alimentação, “comiam do bornal e do que lhe vendiam ou ofertavam, se era ricos-homens os possidentes”. No dia-a-dia desta visitas, o Arcebispo “dizia Missa com a alva, e pregava em seguida. Depois da homilia, ministrava a extrema-unção” e, entretanto, “sem que o próprio se desse conta, ia examinando o cura de almas” daquela aldeia.

No seu livro de jornada, apontava tudo, “às vezes em sinais criptográficos, não caísse o caderno em mãos alheias”, para caracterizar os párocos ou curas.

Assim, “empregava o círculo sob caracterizações várias para qualificar os eclesiásticos. O círculo a campo branco era indício de bom; se havia infâmia provada, o campo ficava todo a negro; se a infâmia era com defeito de prova, acarvoava apenas um hemisfério; se havia deposição de testemunhas, mas prova indecisa, sobre o círculo, meado de branco e preto, lançava um S, a capitular da suspeição”.

Escreve Frei Mateus de Tortosendo que Frei Bertolameu “trazia sempre este livro sobre o peito” — porque não era inimigo de ninguém — onde não escrevia alguns segredos, como o de mandar o seu alfaiate dar uma peça de tecido para ajudar três mulheres pobres de Braga, com a ordem expressa de nada dizer ao seu ecónomo, Frei João.

  • Face à demora do alfaiate em fazer a nova sotaina episcopal, o alfaiate foi acusado de “descuido culpável” e esteve quase para ser despedido (cf. SOUSA, p.131). Frei João pregou-lhe uma vingança evangélica. Mandou fazer nova sotaina para Bertolameu e deu a velha a um pobre. Bertolameu ficou áspero mas apenas se limitou a uns “suspiros”.

São páginas sublimes, estas escritas por Frei Luís de Sousa (138-146) que evoca o provincial Frei Luís de Granada, que esteve em Braga, “na entrada do estio do ano 1570”, acompanhado de um antigo bispo de S. Tomé e Príncipe, que estava alojado em Tibães. O Superior religioso de Frei Bertolameu ficou “escandalizado” com a austeridade do Paço de Braga, onde vivia o Primaz de Braga e Senhor das Espanhas… e Bertolameu — avesso a estas honrarias — voltou a acusar o seu Provincial pela sua eleição que nunca quis nem queria.

Respondendo ao seu superior, perguntou: “que me faça respeitar dos pobres, gastando com a minha pessoa, e tirando aos mesmos pobres aquilo com que os possa remediar e manter? Que meta em ataviar criados, em dourar baixelas e ornar paredes mortas o cabedal com que posso emparar a órfã, socorrer a viúva e vestir paredes vivas? Que empregue tempo e cuidado em aparato da mesa e mestres de cozinha para que sobejem potagens que desbaratam a saúde, levam a Fazenda e não matam a fome aos pobres?

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