Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (6)

Domador do “Testa-de-boi” pároco de Fontoura (Valença)

Na segunda parte desta série sobre “Dom Frei Bertolameu”, escrita por Aquilino Ribeiro, a partir de um códice encontrado em Romarigães, assegurávamos que “nada detinha” o Arcebispo que a Igreja se prepara para elevar aos altares da santidade.

Ele possuía uma dimensão psicológica fortíssima que se impunha aos “invernos, fragosidade, ameaças pessoais, malinas (marés de águas vivas)” para seguir os seus intentos e afrontar com “igual rijeza e denodo umas coisas e outras”. É esse o pretexto para Aquilino nos guiar até ao Alto Minho, no concelho de Valença, e mergulhar numa aldeia onde ainda hoje se publica “O Perico de Fontoura”.

Fontoura dista da sede do concelho dez quilómetros e ocupa uma área de 913 hectares de terras férteis, onde predomina o cultivo do milho e da vinha e onde há abundantes pastos propícios à criação de gado caprino, o qual é particularmente apreciado em todas as feiras da região.

A freguesia assenta as suas raízes em épocas longínquas, possivelmente pré-romanas. No lugar de Grove, topónimo que pode relacionar-se com o povo gróvio, apareceram vestígios arqueológicos (cerâmicas, cinzas e carvões), julgando-se que, pela sua localização e pela forma arredondada do monte, ali pode ter havido ocupação castreja.

Também a meio da subida para o monte de S. Gabriel, no sítio chamado Telhões, foram encontrados sinais dessa vida muito antiga, e os velhos da terra gostam de contar que, em tempos muito afastados, já ali fora achado um fosso em tijolo, cheio de cunhas de metal amarelo, que o povo atribuía aos mouros.

Segundo a tradição, o nome Fontoura tem origem numa fonte existente junto à Casa Alta cujas águas, acrescenta a lenda, traziam consigo algumas partículas de ouro; era a Fonte d’Ouro.

Por sua vez, o lugar de Reguengo está associado a uma outra lenda. O que se conta é que a rainha Santa Isabel aqui pernoitou aquando do seu regresso de uma peregrinação a Santiago de Compostela.

Em 1444. D. João I conseguiu do papa que este território fosse desmembrado do bispado de Tui, passando a pertencer ao de Ceuta, onde se manteve até 1512. Neste ano, o arcebispo de Braga, D. Diogo de Sousa, deu a D. Henrique, bispo de Ceuta, a comarca eclesiástica de Olivença, recebendo em troca a de Valença do Minho. Em 1513, o papa Leão X aprovou a permuta.

Quando, entre 1514 e 1532, o arcebispo D. Diogo de Sousa mandou proceder à avaliação dos benefícios eclesiásticos incorporados na diocese de Braga.

Ora, pelos anos de 1560, nesta aldeia valenciana “havia um abade, homem de avultados teres, tão prepotente como devasso. Valia-se das muitas posses para não dar satisfação a ninguém do que fazia”.

Na sua Igreja não havia visitador de bispo que entrasse, porque ele mandava emissários ao caminho, “e pela blandícia (falsa meiguice), a troco de presentes, ou pela ameaça, desviavam-no da missão”. Este cura —pároco — “recrutara gente, galegos pela maior parte, que cobravam soldo, aquartelados em casa e debaixo de armas. Se os visitadores (enviados do arecbispo) persistiam avançar, mostrava-lhes as bocas dos arcabuzes”.

Quanto a “excomunhões, monitórios, fazia tanto caso como da água que rolava o Minho, cuja fita se via em baixo, nas várzeas a correr para o mar”.

Na sua juventude, este padre levara “bons tempos de vida fragueira, batedor de montes, calção de toda a sela, gerifalte (falcão) de donzelas, tiranete de pequenos, e só de filhos nas barbas da Santa Madre Igreja tinha doze. Doze, a sua guarda de mamelucos (escravos), homens feitos, robustos e desenganados”.

Num quadro destes, os companheiros de jornada de Bertolameu avisaram-no dos “sérios riscos se teimasse visitar aquela igreja de acesso defendidos por tais molossos (cães de guarda)” até porque o “Testa-de-boi, pelo conduto da malandrice, se tornara benquisto a seus servos e mulheres, que dariam o sangue dos braços por ele”.

Bertolameu usou de toda a sua astuta inteligência para afontar o “Testa-de-boi”, ao chamar um dos seus criados (fámulos) e, ambos de “capa às costas, bordão em punho, inculcando ideia de fradinhos mendicantes, cobertos de suor que o caminho era pedregoso, se aproximaram confiadamente do reduto” defendido por mercenários galegos, a soldo do pároco de Fontoura.

Nas vizinhanças, o arcebispo cortou uma “varinha de castanheiro e, com ela em riste, foi andando, como se a levasse ao desfastio. As sentinelas acudiram com a notícia ao abade epicurista:

  • Vêm lá dois frades…”

  • O abade não viu nem arcabuzeiros nem gente de cavalo e admitiu que eram frades, dando ordem aos criados: “Que venham esses peneireiros…

Quando os dois chegaram à presença dele, vinham mais mortos que vivos, quebrantados da caminhada”.

Então, o arcebispo Bertolameu, “em voz meia risonha, meia de caso:

  • Sabe a que venho? Venho, meu filho, para o açoitar com esta vergasta…

E brandia a varinha…

  • Mas, olhe, antes que ajustemos contas — acrescentou — dê-nos alguma coisa de comer, que estamos arrasados…

Era o primeiro passo para “subjugação da fera. (…) O abade ficou, de princípio, varado de assombro. Depois caiu no sentimento da realidade: estava perante um príncipe da Igreja que tinha atrás de si o aparato omnipotente da força e das leis. Vacilaram então o seu orgulho e fidúcia, e rompeu a chorar. Bom sinal. Quando o cepo verde começa a estilar águas no lume da lareira, é anúncio de que se vai tomando do fogo. E o velho tonsurado acabou por lançar-se aos pés do arcebispo. Suplicante e atrido (pesaroso ou triste), meio espontâneo, meio teatral, entre sincero e impostor”.

E que tem de novo este caso, já narrado na “Vida” de Frei Luís de Sousa? — perguntará o leitor. É que, a partir deste ponto entra o contributo de Frei Mateus de Tortosendo, na sua “História admirável”, ao falar dos filhos do abade.

O mais velho, que casara com uma fidalgota do termo e vivia dos rendimentos, pediu também a confissão” ao ver o velho abade e pai chorar os seus pecados enquanto a “velha ama criadeira chorava o seu medo”. Era digno do senhor seu pai: “percorria as aldeias num cavalo ardego (fogoso) e contavam-lhe umas três ou quatro amigas só no couto de Vairão”.

Bateu igualmente no peito o cadete” — prossegue Aquilino, descrevendo-o como “marchante que negociava a sua novilha por feiras e mercados e praticava a onzena (juro de onze por cento ou usura) com seguro baraço (corda para enforcar). Passara a mesário da Irmandade do Santíssimo, depois de o terem corrido da Irmandade das Almas por homem confuso nas contas”.

O terceiro filho imitara o pai e “prelevava a todos no temor de Deus e benquerença do próximo”.

Quanto aos “outros filhos, ora varões, ora fêmeas, eram por ali abaixo gente bem comportada, mal comportada, segundo o estilo da terra e dos tempos sem que daí viesse grande mal ao mundo”.

Frei Mateus, destaca Aquilino, “conta e reverte em louvor do arcebispo pela sua tolerância e compreensão, foi a saída que deu àquele caso diocesano”.

É verdade que o caso “tinha constituído vivo escândalo” mas já não o era porque o tempo “apagara todos os lumes da sensualidade que o animavam, mais cerce que um rijo vento a um fogacho de palhas. A ama estava reduzida a uma senhora barriguda, entre castelo sem adarves e velha catedral, com pêlos no queixo como anzóis, três regueifas na barbela, por trunfa uma molhelha (almofada em que assenta a canga dos bois) ruça, babosa, tatibitate (gaga) e trémula dos membros, e o abade o velho paxá (mandrião) dum galaroz (galo grande), sem barbilhões, sem crista, meio percluso (paralítico) de reumatismo, ambos privados de apetites e sem galhardia humana”.

Aquilino observa que “seria matá-los não os deixar coexistir debaixo da mesma telha, uma vez que o pecado da carne, o mais demoníaco de todos, estava amordaçado por inércia absoluta da dita”.

Neste quadro tão bem descrito por Aquilino Ribeiro, o Arcebispo decide:

  • Não quero bulir com a ordem que encontrei nesta casa. Mas, santa paciência, o abade tem de aceitar de boa mente o coadjutor que lhe vou dar. Ele é que figura doravante em todos os actos paroquiais. (…) Continua abade da freguesia, colado de patena e cálice. Não lhe toco. Diz a sua missa, reza o seu Breviário, põe a sua sobrepeliz para qualquer ofício, e quanto a pé de altar (rendimento de baptizados casamentos e funerais), entenda-se com o coadjutor. Assim está pobre?

Perante esta sentença, o velho abade de Fontoura exclamou: — “Reverendíssimo Prelado, não desejaria melhor. Vossa Reverendíssima é um santo”.

Frei Mateus conclui dando a notícia que “Frei Bertolameu visitou a igreja e fregueses — que tudo era mato bravo — pregou, crismou, santificou aquela Nínive de tamancos a gabinardo de burel. E partiu aliviado dos pesadumes canónicos.”

Mas a história não acabou aqui: “o coadjutor meteu-se com a filha mais nova do abade” (cf. p.174)

Trata-se de um episódio unicamente narrado na “História admirável” de Frei Mateus de Tortosendo, com tais pormenores que deve ter sido presenciada pelo confessor de Frei Bertolameu, uma vez que não o encontramos na “Vida” escrita por Frei Luís de Cácageas e ampliada e revista por Frei Luís de Sousa.

O Cabido dominava Braga

Damos agora um salto pequenino: para as paróquias da cidade que estavam sobre a alçada do cabido da Sé e sobre as quais o Arcebispo nada sabia ou se podia intrometer “sobre as capelas, freguesias e ermidas da cidade”.

Era um acordo de cavalheiros — como hoje se diz — entre Cabido e Arcebispo que, tendo apaziguado discórdias passadas, “deixou semente para outras maiores” (cf. SOUSA, Op. Cit. pp. 394 e segs.).

O Cabido nomeava os seus visitadores a estas paróquias da Cidade de Braga (S. João do Souto e Cividade) mas o Pastor “ficava sem conhecimento das suas ovelhas, dos eclesiásticos, dos ricos e poderosos da cidade”.

Ora, “estava claro que havendo neste género de gente vícios e culpas, de que a liberdade e a riqueza são fonte certa, nunca poderiam ter emenda, pois a eleição dos que as haviam de sindicar pendia do arbítrio dos mesmos que muitas vezes eram os mais culpados” porque “repousam devassamente atolados no lodo do pecado, anos e anos sem emenda e sem remédio”.

Ora, esta era a “pedra” de escândalo em que tropeçavam e “se magoavam” todos os prelados que entravam nesta Igreja gerando conflitos que se arrastavam há décadas para não falar em centúrias.

Ao “nosso arcebispo” chegava-lhe à alma “ver chagas podres e já contagiosas dentro dos muros em que vivia, sendo ele o Cirurgião verdadeiro delas, achar-se com as mãos atadas para as curar”.

Socorrendo-se de Trento, onde participa com todo o apoio do Papa Pio IV— “O que o Bracarense disser está bem” —, Frei Bertolameu dispensa o Cabido da Sé em nomear visitadores para a cidade porque ele “começaria a visitar as suas ovelhas”.

Frei Luís de Sousa escreve: “não há palavras que possam declarar bem as poeiras, as gritas, os estrondos que levantou em todo o género de gente esta determinação” (cf. SOUSA, op. Cit. p. 396).

Uns defendiam o Cabido, outros a sua consciência e outros acusavam o arcebispo de abuso de poder, dando-se início a uma guerra que há-de durar décadas.

Sabia-se porquê. Na primeira visita de Frei Bertolameu, o povo deu-lhe a conhecer “atentados do Cabido” e “ardiam em fogo de cólera e raiva os prebendados” em contraste com a alegria episcopal que via crescer o Seminário Conciliar, cuja sobras visitava amiúde.

Enquanto acudia aos enfermos no hospital e aos estudantes, Frei Bertolameu afirmava que “toda a esmola que havia, se fazia por restituição, não por esmola” — quanta actualidade nesta mensagem!

E porquê? “Porque os pobres que as recebiam, eram os proprietários dos bens e rendas da sua Igreja e dar-lhos era tornar o seu a seu dono” (cf. SOUSA, Op. Cit. p.400).

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s