Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (7)

De que “catacumba saiu

este urso das brenhas suevas”?

Já todos reparamos que a estrutura de Frei Luís de Sousa é acompanhada de perto pela “História admirável”, de Frei Mateus de Tortosendo, encontrada por Aquilino Ribeiro na Casa Grande de Romarigães. A gesta de Trento comprova-o claramente e mostra que o autor de “O Malhadinhas” conhecia também as “Vidas” de Frei Luís de Granada e de Frei Luís de Sousa, editadas em 1818, em Lisboa.

Não havia “mais que um ano e meio que o Arcebispo residida em Braga” — contam os primeiros e mais célebres biógrafos —, quando se veio sentar na Cátedra de Pedro o papa Pio IV, a 25 de Dezembro de 1559. Um ano depois eram expedidas as cartas que convocavam os príncipes da Igreja da o Concílio de Trento.

Bertolameu sentiu um dilema: ou visitar o resto do seu arcebispado (todo o norte do rio Douro até ao rio Minho, ou “o bem universal de toda a Cristandade” (cf. SOUSA, Op. Cit. pp. 177 e seg.s).

E assim fez e, quando se apresentou em Trento, “estavam lá apenas dois purpurados, paradinhos de todo, boquiabertos e sonolentos” interrogando-se sobre que “arquidiocese era aquela Bracara de que ouviam o nome pela primeira vez”. Eram os bispos de Modena e de Verona, mas D. Frei Bertomaleu viu no de Modena, a “avaliar pela roupeta coçada, o chapéu a esfarripar-se.. e sapatos mal engraxados, um homem simples, avesso a pompas e preferiu o seu agasalho” — escreve Aquilino Ribeiro.

Instalou-se nas margens do rio Adiger — sem trutas — mas o Concílio tardava em começar e Frei Bertolameu começava a inquietar-se com o que se “passaria na sua arquidiocese” escreve nova carta ao governador a lembrar a sua prioridade: “com esses duzentos mil reis que lhe deixei — dê-me de comer a quem tem fome e dote-me as órfãs para que se casem. Que horror uma mulher solteirona, pobre e honrada. É pior que uma abóbora a apodrecer no meio do ervaçal”.

Preparou tudo para que nada falhasse na sua ausência, e nomeou uma comitiva pequenina de oito pessoas e, reza “A História admirável” — encontrada por Aquilino Ribeiro — que Bartolomeu saiu de Braga para Trento “na segunda-feira de Lázaro” o que nos leva a indagar que as solenidades da Semana Santa, em 24 de Março de 1561, não possuíam a importância que hoje recebem. Nem Mateus de Tortosendo nem Frei Luís de Granada ou Frei Luís de Sousa fazem qualquer referência a ela. O Domingo de Ramos seria passado em Zamora.

Aquilino lembra que “estava em flor o alecrim da cerca e uma pita das capoeiras havia tirado uma ninhada de doze pintaínhos, bonitos como anjos”.

Quanto à comitiva, ela incluía o Padre-Mestre Anrique de Távora, pessoa bem falante e desenganada, espécie de alter-ego, Pero Peres, desembargador “que tinha medo de um rato”, o capelão, que não era para graças, quatro guarda-costas “tesos, armados de adaga e mosquete debaixo das esclavinas que tnham servido nas Índias” e um estribeiro, “homem das Arábias”.

O ecónomo, Padre João de Leiria foi quem seleccionou a escolta e diz que os guarda-costas “não se benziam duas vezes para mandar o salafrário que lhes saísse à esquina, de presente de Diabo”.

Mais, a comitiva integrava uma “rédea de oito machos, três carregados com tralha, restando quatro bestas para oito pessoas, excluída a montada do Arcebispo”.

Programaram a caminhada de modo a andar de sol a sol e pernoitar em cidade ou vila onde houvesse convento e ele entrava dissimulado como um frade normal.

No primeiro dia chegou até Bragança e aí deixou a mula e caminhou a pé até ao último lugar do seu bispado, em Miranda do Douro (cf. SOUSA, p. 179). Seguiram depois por Palência (onde o obrigaram a identificar-se) Burgos e Vitória ou São Sebastião, até entrarem em França, por Baiona, até chegar a Trento na fronteira entre Alemanha e Itália, em 21 de Maio de 1561, ao cabo de 56 dias de viagem.

França foi a o território mais difícil para a comitiva bertolomeana porque falava “mal o francês e era por gestos ou em latim que se exprimiam. As comunidades tratavam-nos tal como pedia a natureza de dois religiosos mendicantes levados na derrotina, e a ceia que lhes punham não causava indigestão nem o catre estes admiráveis e eternais sonos inventados pelo Senhor para recompensar os justos”.

Mas isso não os impediu de uma média de “seis léguas por dia, rijos e feros, sem uma dor de cabeça nem se lhes desferrar azémola fora de vila e termo” (cf. p. 93)

Após meses de espera para o começo dos trabalhos, o nosso Frei Bertolameu começa a ficar banzado porque “além das madamas que faziam parte das nobres comitivas, outras acorreram aventureiramente pela posta, em coche próprio ou liteira puxada a urcos do Hanóver e machos de Hartz. E se os bispos e cardeais punham algum recato em estadear as preciosas amantes, elas é que não se entregavam a iguais cuidados”.

Este espectáculo de luxo contrastava com a casa onde vivia a comitiva do “Bracarense”, com “camas de tábuas, duas bancas e dois ou três mochos, um fogareiro de barro em que um dos fâmulos cozinhava a pitanca, nada de alcatifas, nada de adornos, nem uma só almofada”.

Com o seu olhinho estrábico — “ou seu olho gáseo, meio estrábico, quelhe permitia estar a observar a terra enquanto julgavam que tinha os olhos no céu” (cf. p. 97) — ia devassando o que se passava na casa fronteira do magnífico prelado de França. E um dia surpreendeu uma das senhoritas em grande e enliçada beijoca com o presumido senhor seu tio (Arcebispo). Caiu-lhe a alma aos pés e nunca mais assomou à janela”.

É por estas e por outras cenas que Frei Bertolameu, na abertura do concílio “martelou e tornou a martelar na necessidade de reformar a igreja militante. Porque não havia de regressar-se à simplicidade primitiva? Se o lavrador é mau, o campo fica raso de erva e a cizânia sobrepuja a seara útil. A heresia luterana vingou porque o agrícola não soube adubar e arar o agro.

Em consequência lança “clamorosa invectiva contra a opulência e mentira com que viviam alguns prelados e até eclesiásticos” mas as suas palavras não caíram bem e alguns bispos fraceses desabafaram:

  • De que catacumba saiu este ostrogodo?

A sala foi ficando vazia e apenas ficou a “vox clamantis in deserto” porque era “intolerável que existissem bispos que se aproveitassem do leite e da lã das ovelhas, sem entretanto erguer o cajado de pastores contra os lobos que assaltavam o redil”.

Grande parte dos conciliares começaram a afastar se do “Bracarense” como se este tivesse peste e os espanhóis (por causa da primazia de Braga que ele defendeu sem soçobrar) olhavam-no do alto da sua “sobranceria, olímpicos de todo e de fé cesárea, mais que por cima da mula”.

UM GRADE E SANTO PRELADO”

Face ao impasse em que o Concílio se transformou durante um ano sem sessões (de 17 de Abril de 1562 a 20 de Fevereiro de 1563), Frei Bertolameu interroga-se sobre o que “ficava a fazer naquela tortulheira canónico-burguesa onde campeavam todas as mundanidades” se não “ler o Breviário, pregar a sua homilia num latinório a que apenas os padres metiam meio dente” ou a sentir a Janne a disputar-se com Françoise à sombra da árvore outoniça do Prelado de França”?

O arcebispo aproveitou para visitar algumas cidades italianas, “fugindo na burra manca”, em direcção a Roma, onde são por demais conhecidos os diálogos com o Papa Pio IV que o torna conhecido pelo “Bracarense”.

É em Lorena que o cardeal da Igreja local reconhece o seu valor, ao perguntar: “não era um homem alto, estrábico dos olhos, vermelhuço, pessoa de poucas falas, a modo de desconfiado?” Perante a resposta afirmativa do prior do convento onde ele se hospedara, ceando “uma côdea e dois ovos quentes” o cardeal de Lorena exclama: “ trata-se de um santo e grande prelado” (cf. 125-127).

Chegado a Roma, recusa ficar alojado na embaixada de Portugal mas lá se rendeu, de “mau humor”, com a pedra no sapato, “eriçado em sua alma contra tanto fausto e vanglória, quando milhares de homens morriam à míngua carecidos de todo o conforto”.

Bertolameu sabia que o “tinham como um urso das selvas ocidentais” ou “ursos das brenhas suevas” que o Papa quer conhecer, instruído pelo cardeal de Lorena quanto a este “Everest de santidade, recortado em casca de carvalho, espécie de bispo da igreja primitiva, da raça desses que dormem o sono imponderável no cemitério de Calisto”.

Os jantares oferecidos pelo Papa deixaram-no escandalizado e denunciou que os “aparadores dos prelados resplandeçam com este fausto todo e os pobres não tenham certo um bocado de pão para trincar” (cf. p.135).

Ele não se resignava a ver Roma como “um lugar dissoluto, libertino” que só podia “equiparar a Sodoma e Gomorra. Os cardeais viviam na mais desenfreada pompa e molície. As suas amásias eram apontadas a dedo” e chegava ao ponto de exclamar: “não me diga mais nada! Pelos tormentos que Nosso Senhor padeceu, não me conte essas execráveis coisas”.

DIAS DIFÍCEIS EM TRENTO

Perante o que via, em Braga apenas existiam “pecadilhos” como os do seu Frei João de Leiria que ia fazendo o seu “pé-de-meia, metendo a unha no pecúlio dos pobres, praticando a simonia (venda de bens espirituais) muito a recato” ou do Frei Reginaldo de Melo, “na força da vida, não havia de seduzir as moçoilas das aldeias minhotas, sustentar a barregã de Montedor e ter feito um menino a uma rapariga de Âncora?

Eram dias difíceis para Bertolameu em Roma onde foi convertido em “bonzo” ou “urso das serranias hispânicas” e apenas Carlos Borromeu o teve na devida consideração mas nem isso impediu que Bertolameu acelerasse a partida de Roma em direcção “à minha Falperra” (cf. p.154).

É nessa ocasião que o Papa Pio IV lhe oferece a mula Águia “que não fica nada a dever às do cardeal Carlos de Lorena”. “Era ruça-pomba — escreve Aquilino —, alta, formosa, pescoço de garça. Besta que o papa montava quanto ia até Santo Ângelo e certa vila que tinha na campina romana”.

Com o encerramento do Concílio, a 25 de Novembro de 1563, após encontro com o Papa em que este nega a renúncia de Frei Bertolameu ao arcebispado de Braga, o “Bracarense” passa por França e Espanha e chega a Santa Maria de Monserrate, em Aragão, passando depois por Salamanca e entrando em Portugal por Freixo de Espada à Cinta, no dia 23 de Fevereiro de 1564. Foram três anos de ausência longe da sua Igreja mas proveitosos para a Igreja Universal.

O Lava-pés no regresso a Braga

Na sua chegada a Braga, após tanto sucesso no Concílio de Trendo (minuciosamente descrito por Frei Luís de Sousa, ao longo de umas cem páginas), Bertolameu afirmou-se com uma cerimónia emblemática: o lava-pés de Quinta-feira Santa.

Mandou vestir doze pobres, e posta uma mesa na sua sala, assentou-os a todos, e depois de os servir um espaço, pondo a cada um por sua mão o primeiro prato, assentou-se à mesa e comeu juntamente com eles.

Como acabaram de jantar, levou-se consigo à Sé, e na capela mor, à vista do povo todo, lhes lavou os pés. O que fez com tanta devoção e lágrimas, que não houve peito tão duro que não se confundisse e tornasse de cera. Foi coisa de grande edificação o pranto geral com que a Igreja acompanhou o seu Pastor.

(…) Esta cerimónia passa a fazer-se todos os anos e aos doze pobres, além do vestir e do jantar, mandava dar na mão certa esmola em dinheiro” (cf. SOUSA, Op. Cit. pp. 386-387).

Episódios tridentinos

1. Na sua primeira viagem a Trento, Dom Bertolameu dormiu uma noite em Zamora, onde os frades de S. Domingos lhe mostraram a sala do capitulo onde existe um Cristo famoso que a lenda afirma ter dito a um visitador, com “voz tremebunda”:

  • rege eos in virga ferrea” [governa-os com férula (palmatória) rija].

D. Frei Bertolameu voltara-se para o superior, dizendo:

  • Quantos santos terá feito a virga ferrea?

  • Ah, isso não sei. Faz pelo menos bons frades.

  • Este Cristo contenta-se com pouco.

2. Depois de insistir, o Prior do Convento de S. Sebastião, em lhe oferecer um almoço para suavizar a caminhada, D. Frei Bertolameu foi tributado com a oferta de “um par de pães e uns peixinhos do rio que lhe tinham mandado concertar para não irem em jejum. Não teve o Arcebispo tão saborosa iguaria no seu caminho até Trento: cheio de alegria tirou uma faca da cinta, abriu um pão e meteu-lhe dentro os peixinhos que couberam e deu-o ao seu companheiro. Logo fez o mesmo ao outro pão e atado num lenço pendurou-o no cinto

” (cf. SOUSA, p. 189)

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