Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (8)

S. Frutuoso: a “Capucha”

predilecta do “Bracarense”

É deveras interessante a incursão que Aquilino Ribeiro faz, num dos capítulos, o quarto, de “Dom Frei Bertolameu” sobre outro sublime arcebispo de Braga, S. Frutuoso.

O mosteiro franciscano menor (ou da Ordem da Piedade) era o refúgio preferido de Frei Bertolameu após longa ausência em visita às mais de quatro mil paróquias da sua Arquidiocese. A propósito de um desses acolhimentos, Aquilino Ribeiro conta-nos a história de S. Frutuoso, seguindo de perto o escrito encomendado por Frei Bertolameu ao seu confessor, Frei Mateus Tortosendo, seguidor da Regra da Capucha. Neste procurar de coisas “antigas”, tropeçamos na “Chronica da Província da Piedade, primeira Capucha de toda a Ordem” franciscana, escrita por Manoel de Monforte e impressa por Miguel Manescal da Costa, impressor do Santo Ofício, em Lisboa, no ano 1751, que narra os primeiros passos da Ordem Capucha em Portugal, vinda de Espanha, através da Galiza, após enormes dificuldades impostas pelos reis vizinhos.

Estávamos no reinado de D. Manuel, tendo a primeira casa sido aberta em Vila Viçosa, poucos anos antes de 1500, numa altura em que os Capuchinhos tinham grande sofrimento em Castela. Depois foram contemplados com outras casas conventuais em descrédito crescente, em Braga, Guimarães e Barcelos, num total de trinta e uma, com quinze a vinte monges, cada uma.

Por falar de Barcelos, uma das principais tradições deste concelho, a das cruzes, tem lugar maior no Templo do Senhor Bom Jesus da Cruz. A seguir a Vila Viçosa e Chaves, foi aqui que os Franciscanos menores (Capuchinhos) se instalaram.

Ora, na página 228 desta “Chrónica” alude-se, pela primeira vez, a este convento de S. Francisco, construído à sombra da Igreja de S. Frutuoso, a “Capucha” predilecta de Frei Bertolameu.

Aí se diz, por exemplo, que, em 1519, em “nobre e antiga cidade de Braga” fica o “nosso Convento da invocação de S. Frutuoso por ser por ele fundado”. Bertolameu tinha quatro anos de idade.

É um dos mais recolhidos e devotos que há na Província, porque está em competente distância do tumulto da cidade e comércio do povo e em sítio muito acomodado à via espiritual e contemplativa” — assegura a “Chronica”.

GUIMARÃES ESCLARECE

Vejamos como era este convento onde Frei Bertolameu se refugiava, segundo a descrição de Frei Manoel de Monforte: “tem boa cerca de pomar, regado com copiosa fonte de água, que, vindo por canos, primeiro à clausura, e depois discorrendo por algumas oficinas do convento, se vai comunicado à hora e frutífero arvoredo, ao qual se segue um espesso bosque de carvalhos e castanheiros, divididos em ruas.

Ao longo deste discorre um perene ribeiro, que com o grande sussurro das águas provoca grade devoção; e tudo mais neste convento está convidando a ela”.

É uma maravilhosa descrição. Não é? Mas há mais. O seu fundador foi “S. Frutuoso, espanhol de nação, filho de um Duque ou Capitão real de sangue, e Casa Real dos Godos: foi muito afeiçoado às cousas da religião desde a sua tenra idade, na qual lhe faltaram seus pais, deixando-o tão ricos de bens temporais como falto de anos”.

Nesta que é uma mais antigas biografias de S. Frutuoso, se escreve que recebeu o hábito de monge da “mão de Tonâncio, bispo de Palência, e uma herdade do seu património, junto a Astorga, fundou o famoso convento de Compluto, para sua habitação e de muitos outros que se lhe agregavam”.

Disputado por Beneditinos e Agostinhos, vamos encontrar, espantosamente, em Guimarães a resposta: “no arquivo da Real Colegiada, em 957, em ‘hum catalogo, que faz menção dos livros, que os fundadores derão aquella igreja, com o titulo das freiras Bentas diz estas palavras, traduzidas do latim em nosso idioma: assim lhe damos outro livro pequeno que contem as regras de S. Bento, S. Isidro e S. Frutuoso”.

Ali, em S. Frutuoso, Frei Bertolameu “sentava-se no refeitório com os religiosos (duas dúzias entre noviços e professos), onde comia o caldo de couves e a vaca, nunca tinha faltas de coro, dizia missa quotidianamente, e aconteceu-lhe mesmo fazer as vezes de acólito a Frei Mateus, quando chegava o santo sacrifício. Era no convívio deste frade que o arcebispo mais se comprazia” (cf. p. 52). Esta expressão destaca a importância do códice encontrado por Aquilino na Casa de Romarigães, em Paredes de Coura, e serve de base segura e fundamentada para o seu “Dom Frei BertolameuD”, apesar de ele conhecer e citar a “Vida” dos Frades Luís de Granada e Luís de Sousa.

O Convento que dividia as dioceses de Braga e de Dume, diz Aquilino, situa-se num “pequeno cerro (colina pouco elevada) com vista, da banda norte, para as alegres voltas que vai dando o Cávado através da fértil campina, situava-se o mosteiro do Salvador (nome que lhe foi dado por S. Frutuoso). Nele trabalhavam à compita, mãos de fidalgos e vilões, dia e noite, a dobrar o salário dos jornaleiros, quando S. Frutuoso sentiu que se aproximava a sua hora e quis em vida talhar ali a sua sepultura”.

Citando Frei Mateus — que leu devagar os “códices visigóticos muito apagados” — , Aquilino lembra que “antes de dobrarem os sinos a finados e se dar qualquer sinal da sua morte, mesmo antes de se abrirem as portas da Igreja, amortalharam-no os freires de pontifical e sepultaram-no no jazigo que o próprio tinha mandado fazer. Ficava embutido na parede do altar-mor, onde não se via, do lado do Evangelho”.

Compunha-se — descreve Frei Mateus — de uma só pedra cavada, toda lisa bem como a tampa, género salgadeira. Um guardião, obediente à traça de completar com uma charola (nicho) digna da capela-mor, removeu-o para debaixo do altar, rezam os cronistas da Ordem. Sucedeu daí que nunca inguém mais soube nem se importou de saber os restos mortais do arcebispo”.

CORCOVADINHO

E ROUBO SANTO

Com o andar dos séculos, um certo frade prior “erigiu um túmulo onde se supunha ter existido o primeiro e disse aos fiéis: aqui dentro jazem os bentos restos mortais de S. Frutuoso. Venham adorá-los”.

Durante “tanta soma de anos”, os fiéis ignoraram a devoção a S. Frutuoso e derivaram a devoção para “uma efígie em pedra, o santo Corcovadinho, assim chamado por estar debruçado” e “não lhe deram grandes ouvidos”.

Em resultado deste esquecimento de S. Frutuoso, “aconteceu visitar a S. Geraldo o bispo de Tui, D. Diogo Gelmires, e inteirar-se daquele e de outros menosprezos” dos bragueses (como gosta de escrever Aquilino).

Como o convento estava dentro da sua jurisdição, “zape, de noite mandou exumar aqueles veneráveis ossos e outros de certos templos das cercanias e transportou-os a marchas forçadas, com toda a condessilha, para a Galiza”.

É o famoso “pio latrocínio” e Aquilino assegura: “não descansou o santo ladrão enquanto não os viu do outro lado do rio Minho. Pairava sobre ele uma grande tempestade e as águas corriam de monte a monte de modo temeroso” mas a “travessia fez-se como num mar de leite. Donde se conclui, inexplicavelmente, que os Céus aprovaram o dito latrocínio”.

Citando Frei Mateus, o autor de “Quando os lobos uivam” sustenta que “talvez Deus pretendesse manifestar ao povo braguês o descontentamento pelo estado de frouxidão como adoravam o seu nome em grande comarca do Entre Douro e Minho, devido talvez à baba peçonhenta que ali deixara a vaga gnóstica. E lá estão indevidamente em terra compostelana, a alumiar e a fazer milagres, as miraculosas relíquias dos Santos Nacionais”.

No dia 1 de Abril de 1103, S. Geraldo, arcebispo de Braga, foi a Roma para se queixar desse acto extorsivo de Compostela, regressando de lá com poderes eclesiásticos acrescidos sobre as Espanhas. Porém, o “roubo” de Diego Gelmires ou “Pio Latrocínio”, como lhe chamou eufemisticamente a Igreja compostelana, só foi reparado oito séculos mais tarde: as relíquias de S. Frutuoso foram devolvidas a Braga em 1966 e as dos mártires S. Vítor, S. Silvestre, S. Cucufate e Santa Susana, em 1993.

A Igreja de S. Frutuoso era um centro de devoção dos agricultores que ali depositavam os seus cereais, deixando uma maquia e levando o resto “para semeraem os campos, certos de que ficavam imunes ao bico dos pássaros ratoneiros”.

Quanto ao templo, “todo em redondo com o seu zimbório, repartido numa cruz com quatro capelas nas pontas, também esféricas, deu que pensar pela estranha configuração aos curiosos”.

Os autores mais antigos, estudados por Frei Mateus, falam da existência de um templo consagrado a Fano e que “S. Frutuoso apenas o alimpara das imundícias dos ídolos, de modo a poder consagrá-lo ao culto divino”. Rezam os livros que Fano é o deus trapaceiro e errante. Gostava de percorrer o mundo e conhecer novos lugares e tinha a mania de pregar partidas aos outros. Assim, ele é deus dos aventureiros, dos exploradores e dos viajantes, dos trapaceiros, dos mentirosos e dos ladrões.

FUNDADOR DE CLAUSTROS

COMO POMAREIRO

Assim, conforme descreve Frei Mateus de Tortosendo, se criou a primeira Capucha, bebendo o substancial em S. Valério — esclarece Aquilino Ribeiro que nos apresenta um resumo da vida de S. Frutuoso, “filho primogénito de um rico homem de Astorga, aparentado com Recaredo, rei da Espanha visigótica”. No entanto, a “Chronica” — acima citada — desmente ter sido a “primeira” Capucha…

Recaredo tinha uma irmã que mal viu o “cunhado gastar o património em erigir, tanto na Galiza como em Leão, mosteiros e cenóbios, se foi ter com o rei que era Chindasvinto:

  • Senhor, aquele meu cunhado funda claustros como um pomareiro planta macieiras. Que tenha preferido o hábito do grande patriarca S. Bento à cota de armas, é com ele. Agora que esbanje o seu, o meu e o alheio em obra, que não deixo de reputar santa, mas inoportuna nesta hora em que a monarquia cristã é assediada por toda a sorte de inimigos e todos o cabedal é pouco para adagas e cavalos, não se me afigura muito certo”.

Chindasvinto deu razão à queixa e levantou o braço sobre as terras de Frei Frutuoso mas este recorreu ao Concílio de Toledo que o apoiou:

  • Alto lá, esses bens são de Deus e hão-de ficar de Deus. O gardingo (Chindasvinto), se quer terras, que as tome aos mouros ou aos arianos”.

Palavra conciliar dita e “descia sobre a cabeça do usurpador a maldição do Senhor. Ao recolher-se da corte a sua casa, caiu enfermo, sem que mais se levantasse da cama senão para a cova”.

A “Chronica” fala nos do Imperador dos Godos Recceivindo que o nomeia bispo de Dume, “a uma milha de Braga” (cf. p. 230), ao tempo do rei dos Suevos, Theodomiro, que dominavam esta parte de Portugal e da Galiza.

Senhor das suas terras, “pôde Frei Frutuoso multiplicar as casas de Deus pelas terras hispânicas, de levante a poente. Ali viviam os monges como serafins. E cresceu tanto a sua fama de sábio e de santo, que a portada do mosteiro se tornou mais frequentada e tumultuosa que a chancelaria de Toledo”.

Até que um dia, conta Aquilino, Frutuoso “ouviu uma voz que se abria no silêncio da sua cela como uma flor ao sol:

Larga, meu frutuoso, larga! (…) Nessa mesma noite esgueirou-se para as serranias onde ninguém o poderia sonhar. Andou, andou até que foi bater a um monte fragoso, onde descobriu uma lapa habitável, à volta da qual as abelhas a cada palmo tinham os seus favos, e lhos ofereciam; murmurava um arroio de água pura; os medronheiros estavam cobertos de frutos maduros; e ao toro dos sargaços cresciam planturosas as pútegas (cogumelo comestível), que é um parasita que, espremida, ejecta uma espécie de coalho perfumado de nardo. E Frutuoso ajoelhou” e disse uma prece.

Passou a levar ali uma vida de jejum e cilício, que ele ansiava que fosse sempre mais áspera, pois que abundava o essencial e os serranos, à primeira falta, acudiam com comes e bebes que eram uma beleza da criação”. Como esta descrição nos faz lembrar o ermitério de S. Miguel, sobranceiro à Abadia, de onde derivam os monges de Santa Maria de Bouro! (cf. GUIMARÃES, António Costa, in “Para Amares melhor Amares, Amares, 2016, pp. 351 e segs.).

Aquilino lembra que “ali habitou Frutuoso meses, anos, não se sabe. Do convento-mãe, dos demais conventos, o clamor redobrava: para onde foi o nosso santo abade?

FRUTUOSO

SUCEDE A POTÂMIO

Sendo assim, como foi sagrado bispo de Braga? Frei Mateus Tortosendo serve-se as actas do concílio de Toledo, escritas por Alonso Villega, o qual dá conta da petição de Potâmio, bispo de Braga, mas “havia quase nove meses deixado o governo da sua igreja, estando este tempo recolhido num lugar solitário, ou cárcere, fazendo penitência do seu pecado”.

E qual era o pecado do bispo Potâmio? “Declarou que fora carnal, chegando-se ilicitamente a uma mulher”.

Os dezoito bispos não lhe retiraram a honra de bispo mas determinaram “perpétua penitência” e logo, por “parecer de todo o Concílio, foi constituído em lugar de Potâmio por Arcebispo de Braga, o venerável Frutuoso, bsipo dumiense. Ao qual encarregamos tomasse a seu cargo, não somente as almas da sua própria igreja e Arcebispado, senão os bispos da província da Galiza, como seu Metropolitano e cabeça, para que, dando boa conta de tudo, glorifique a Deus, e a nós outros nos alegre pelo bem universal da Igreja” (cf. p. 68).

Era o ano 658 da era cristã. Frutuoso não esqueceu o seu zelo de fundar mosteiros, beneditinos, seguindo o seu antecessor Martinho entre Dume e a cidade de Braga que era um “outeiro e agora o vemos, e se chamava então Montélios” (cf. MONFORTE, in Chronica…, p. 231). A prova encontra-se no “Breviário bracarense” e “huma lenda pública deste glorioso santo que se se guarda no arquivo deste seu Mosteiro e outra no Arquivo da Sé (…) se dizem estas palavras traduzidas ndo Latim no nosso idioma: Entre a cidade de Braga e Convento Dumiense no alto de um monte pequeno edificou um principal mosteiro onde foi sepultado seu santo corpo‘”, a 16 de Abril de 659.

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