Aquilino Ribeiro e Dom Frei Bertolameu (fim)

“Levanta-te, animal!”

o lema do bracarense

Comparativamente com a “Vida” escrita por Frei Luís de Sousa dedica muito mais páginas à passagem de Frei Bertolameu pelo concílio de Trento que a “História admirável” escrita manuscrita por Frei Mateus de Tortosendo que Aquilino Ribeiro descobriu na Casa de Romarigães, juntamente com outros documentos que lhe inspiraram, por exemplo, a “Casa Grande de Romarigães”.

No entanto, os apontamentos do confessor do grande Arcebispo são deliciosos no que se refere ao dia-a-dia de Frei Bertolameu. Ele vivia em S. Frutuoso (onde muitas vezes se refugiava o Arcebispo, como já lembramos) e tocava “à aldraba do Paço ainda a criadagem se entregava de vassoira e espanejador à faina matutina da limpeza” pois sabia que o “Arcebispo era o mais madrugador da casa”.

Estamos perante um capítulo delicioso escrito por Aquilino Ribeiro. Caminhando até à cela de Frei Bertolameu, Frei Mateus encontrou-o com “uma sotaina velha, com uma samarra de terciopelo pelos ombros, que as manhãs de Março estavam frias e era preciso desconfiar do azul do céu”.

Frei Bertolameu é descrito com as suas “farripas de cabelo grisalho em pé” as quais indicavam que, “todo entregue à escrita, a mão esquerda errara por elas, à matroca (à toa), enquanto a mão direita se suspendia sobre o papel em sincronia com o pensamento”.

A cela, “tão conhecida de Frei Mateus, compunha-se de uma grande peça quadrada, sem alcova, com o catre à mão esquerda da porta. Esse catre, pouco mais que tarimba, reduzia-se a três ripas sobre bancos, sem pavilhão, nem cortina, e uma tábua entalada entre o muro e o travesseiro, com um papel ao meio em que se liam duas letras: S. B.

Que significavam esta duas letras? Frei Mateus de Tortosendo descodifica: “não eram as iniciais do seu homónimo São Bertolameu, mas antes um aviso que se dava a si próprio: Surge, Bestia. Levanta-te, animal! Neste castigo de carne e reacção contra a natureza física, lembrava aquele herói de França que, antes de entrar em batalha, já a cavalo, se fustigava com dizer: não tremas, carcaça!.

Frei Bertolameu “costumava ter à cabeceira uma escudela (tigela de madeira) com água para lavar os olhos, se lhe dava no sono, a que era atreito, e lá estava efectivamente no meio do chão: a outro lado do quarto, corriam as estantes, de parede a parede, abertas, cheias de livros, códices, alfarrábios, e, quer, tombados ou erectos em seus pergaminhos encarquilhados e carneiras com fechos e brochas nas pastas, na desordem da consulta e exercício, testemunhavam o seu labor”.

Era contra a estante que se apoiava a banca de trabalho, “encimada por um Cristo de madeira, e mais adiante outra, de retorcidos, onde dava despacho”.

Na descrição da cela, Aquilino acrescenta que entre as duas estantes estava, “no seu caixilho dourado, uma Nossa Senhora do Rosário” que parecia sorrir para a gente com “faces de menina, e o seu sorriso desregelava, de par com o sol, o ambiente taciturno”.

E agora reparem nesta delícia: “de envolta, ouvia-se de quando em quando um pio de pássaro, talvez o tentilhão que madruga a fazer o ninho, que os outros hóspedes, o cuco, a poupa, a rola, ainda não tinham chegado ou estavam mudos. Mas o sol ali era o habitante número um. Malcriado, pulando sobre a escritura dos cartulários, ria-se para as letras floreadas dos copistas, arrepelava nos cartapácios as folhas de cantos revirados e semeava pela casa toda seu doirado alvoroço”.

É verdade que o arcebispo fechava a porta ao sol quando este se atrevia a bater-lhe na nuca ou o importunava mas quase sempre era bem-vindo.

Frei Mateus testemunhava a “última demão ao Stimulus Pastorum, que tinha pressa em remeter para Itália, onde ia ser impresso pela primeira vez” este livro que é uma das obras primas do Arcebispo de Braga de quinhentos, ao lado de “Catecismo” e “Decretos do Sagrado Concílio Tridentino”.

Era uma verdadeira “fornada de trabalhos” produzidos depois de Frei Bertolameu voltar de Trento e é notável perceber que Aquilino Ribeiro conhece todos estes trabalhos, publicados em 1565, atestando a capacidade de estudo e honradez intelectual do autor de “O Malhadinhas”, apesar do recurso à ironia.

Conhece tão bem que não receia em traçar um retrato psicológico de Frei Bertolameu, quando escreve: “ali se pinta, tal qual era, pastor humilde, afável, mãos rotas a socorrer os necessitados, sempre humano, nada onzeneiro, nem procurando outro refrigério a trabalhos e abrolhos (dificuldades) que não fosse a soledade para orar e meditar. Acima de tudo as obrigações do cargo: celebrar o santo sacrifício, ensinar, pregar, e percorrer a diocese até aos seus mais recessos andurriais (sítio desertos e ermos). Assim fazia ele.

TÍTULO DE UM LIVRO

É COMO TABULETA

DE UM ARMAZÉM”

Nunca foi homem de panos quentes, nem de meias tintas este arcebispo de Braga. Chamava aos bois pelos nomes e aos cornos dos bois cornos” —remata Aquilino, sem sabermos se cita ou não o códice de Frei Mateus. Sabemos que ele combateu o “lastimável desmazelo dos bispos que em suas passadas pela diocese vão topar as ovelhas abocanhadas pelos lobos, as confrarias regidas por assassinos, as paróquias entregues a uns reitorzitos de cutiliquê (sem relevo), preocupados apenas com o lado material da existência, e que não têm coragem de os demitir, tantas vezes porque não há melhores, posto que o espectáculo desmoralizador lhes arranque lágrimas de sangue e as mais sentidas queixas do seio!”.

Frei Bertolameu, na escrita de Aquilino, assume a “relaxidão dos párocos como filha da negligência dos bispos” porque “sagram a cães, quer dizer, conferem ordens, benefícios e pérolas a porcos” (cf. RIBEIRO, Aquilino, in Dom Frei Bertolameu, p. 161).

Citando Frei Mateus de Tortosendo, Aquilino Ribeiro traça o perfil de um Arcebispo: “sê grave, mas não ríspido, tão-pouco frouxo, de modo que não oprimas pelo rigor, nem te diminuas pela familiaridade. Que a tua austeridade sirva de incentivo aos fracos; a tua gravidade reprima os levianos: por isso, no Paço, sê Pontífice, na casa simples pater-famílias. Que te sejam dedicados os criados, mas sabe dar-te ao respeito. Tem muito cuidadinho com as palavras que proferes, o que não quer dizer que não sejas amável.

Não sejas interesseiro. Aqueles que enterram a unha na fazenda do pobre e arrecadam ou consomem com suas pessoas o muito que cobram, são dos tais de quem está escrito: devoram o meu povo como se fosse bolo de açafate (cesto pequeno de verga fina)”.

Frei Mateus de Tortosendo discute com Frei Bertolameu o título da obra que está pronta. Este pergunta: — “que me diz ao título: Stimulus? E aquele responde: — Conciso, eufónico, perfeito”.

Frei Bertolameu aceita o comentário do seu confessor e conclui: “o título de um livro é como uma tabuleta de armazém”, sem se esquecer de advertir o seu confidente: “cuidado, padre-mestre, está-lhe a fugir o pé para as rampas perigosas da dogmática”.

Como vai a história de S. Frutuoso?

Depois de toda esta conversa, entre o Arcebispo e o seu confessor, o feitiço virou-se… A fazer fé na honestidade de Aquilino, estamos perante um dos momentos de rara beleza humana que não podemos escamotear ou esconder.

Frei Mateus ergueu-se, ficou a rolar um botão da sotaina e só disse:

  • Queria confessar-me. Atormentam-me certos maus pensamentos…

  • Atormentam-no maus pensamentos… Tentação do Demónio…?

  • Sim, mais e pérfidos pensamentos. Vieram de improviso… talvez com muitas leituras…

  • Cuidado, o poder da ciência treslê-se. Mas diga lá…

  • (…) Imagine que, no momento em que estou mais descuidado, ouço uma voz que me diz: supõe por absurdo, hem, por absurdo, que não havia eternidade…

  • Que não havia eternidade…? — repetiu o arcebispo avançando para ele e olhando-o muito fito.

  • Sim, não havia eternidade…

  • Portanto, quer dizer o padre-mestre que não haveria céu nem inferno. Nem céu nem inferno, os dois terminais da eternidade? É isso? (…) E qual seria o papel de Deus?

  • Deus quedaria alheio às criaturas que, em última análise, não passam duma simples bicheza. Quedaria de todo a latere. (…)

  • Se estou a compreender, bem e mal acabariam por pesar o mesmo na balança da justiça…

  • (…) Os corpos não acabam por reproduzir-se noutros corpos e esses noutros corpos, numa cadeia sem fim, dada a protracção das operações bioquímicas à superfície da terra? (…)

  • O arcebispo deteve-se um instante, parado de todo, a imergir em si próprio como mineiro que desce por um poço profundo para a mina. (…) Reze, reze, reze, é o que lhe aconselho.”

Negado o pedido de confissão a Frei Mateus, o arcebispo muda de conversa: “ora, diga-me cá, como vai a História de S. Frutuoso? Frei Mateus andava tão longe que chamarem-no à realidade quase lhe produziu uma vertigem”.

A minha alma anda turbada, turbada como água do tanque em que saltou uma vara de porcos, se não há mais imundo na terra. Deite-me a sua bênção… — pede Frei Mateus convidado por Frei Bertolameu para jantar com ele. Ele rejeita o convite e o arcebispo acusa-o de ser teimoso e impõe uma condição:

— “só se V. Rev.ma me der trutas.

  • Trutas não há… mas há carapaus.

  • Só sendo trutas.

Já lá ia, sala da Rosa fora, acudiu o bispo:

  • Pchit, pchit, há trutas, padre-mestre, há trutas! Volte atrás…

  • Veja lá!

  • Duvida de mim?

  • Rendo-me, Reverendíssimo Senhor. Não posso duvidar que seja capaz de fazer milagres…”

E assim, “depois de uma açordinha de pão de trigo caseiro abeberado a azeite com um dente de alho, apresentara-lhe as trutas”.

A certa altura disse o padre-mestre:

  • Estão tão boas, que até é pecado comê-las ao que sabem de bem. Deus me perdoará. Donde vieram?

  • Olhe, vieram do Minho. Mandou-mas aquele padre de Fontoura com quem há anos tive dares e tomares (desavenças e discussões). Contei-lhe a história…?” (Nós contamos num artigo anterior).

Frei Mateus comia com regalo, ao ponto de gemer:

  • Até estou com medo de pecar…

  • Coma. Eu absolvo-o por hoje desse pecado…” — respondeu Frei Bertolameu, mandando aparelhar a Águia para transportar Frei Mateus ao Convento de S. Salvador. O padre mestre queria recusar, ele levou o indicador aos lábios:

  • Chiu, quem manda aqui sou eu.”

Frei Mateus dali a pouco lá ia nela, “debaixo dos olhos curiosos ou invejosos dos beatões, rua das Cónegas fora, aparelhada de sela e arreios roxos. (…) E levou um tempo imenso até chegar à querida cela do convento de S. Frutuoso onde o esperavam os palimpsestos moçárabes dos concílios que, para corresponder a um voto do arcebispo, andava há meses a espiolhar”.

Tirano da bondade”

na defesa de Braga

Aquilino Ribeiro escolhe “A vida do Arcebispo” dos freis Luís de Granada e Luís de Sousa” para encerrar o seu “Dom Frei Bertolameu”, com uma síntese das qualidades humanas e espirituais do “Bracarense”.

Aquilino define-o como “singelo até à anulação da sua pessoa na vida comum, soberbo e cioso a manejar o báculo de prata e pedrarias, como um montante, na defesa do Primado” (cf. p.186).

Quem mais humilde que Frei Bertolameu dos Mártires? — pergunta Aquilino, acrescentando que a “pior matraca com que lhe podiam azoar os ouvidos era atirarem-lhe em rosto com os seus méritos e santidade. Se quisessem desagradar-lhe ou suscitar o seu enjoo começassem pela lisonja. A adulação era para ele como baba viscosa da lesma, que conspurca por onde passa”.

Nessa perspectiva, Dom Frei Bertolameu “odiava o salamaleque e a cortesania, bem como a gloríola dos aplausos” e Aquilino lembra a cena de Trento: “um dia não podendo a sua humildade com a carga de tantos ilustríssimos, jogou de arremesso o barrete ao chão ante os olhos esbugalhados dos magnates da cristandade” que o maçavam com o repetido “ilustríssimo bracarense”.

A defesa de Braga e do seu primado é outra das características que Aquilino destaca em Frei Bertolameu, recordando a entrada de Filipe II em Tomar, quando reafirma: “em primeiro está Braga. Braga é a igreja primaz das Espanhas. Não é Toledo, não senhor. E Filipe cede. E os cardeais curvam-se” (cf. pp.189-190).

A mesma firmeza demonstrou quando D. Sebastião quis interferir no Couto de Dornelas, “lá para as terras de Barroso e logo ele fulminou contra tais ministro (do reino) as penas de excomunhão que eram do seu foro”.

Por estas e outras coisas e acontecimentos, Aquilino Ribeiro conclui: “da noite secular emerge astralmente luminosa a figura desse bom homem e grande prelado que foi Dom Frei Bertolameu dos Mártires. Com emoção contemplo a sua figura. (…) Que adorável conjunto esse, fisionomia exangue, fronte totalmente escampada, afora as farripas de cabelos que sombreiam a orelha direita, boca de uma rusticidade simpática, uma das mãos a esboçar um gesto, que tato pode ser de apoio de um argumento como a abençoar, a outra no fuste alto de um crucifixo”.

Está explicado por que “Dom Frei Bertolameu” não fala da agonia, morte e sepultura em Viana do Castelo. Para Aquilino Ribeiro, Dom Frei Bertolameu vive ainda. É eterno.

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