Padre João Aguiar oferece-nos coração de espanto sobre Deus

Um conselho inicial ao leitor: não se apressem. “Deixem ver o sol a desenhar árvores no chão, contar quantas flores visita aquela abelha no canteiro do jardim, ouvir a súplica do colo da menina que se encostou ás pernas da mãe e sorrir do gesto do namorado que, por três vezes, fez do indicador e médio um alicate a prender o nariz da amada” (cf. p. 220).

Existem pessoas que redigem, formalmente, bem; todavia, existem seres que descrevem muito bem as essências da vida, as substâncias da oração e os perfumes das circunstâncias. Um desses seres raros é o padre João Aguiar Campos que, no seu último livro, “Circunstâncias”, nos “oferece o vinho doce da sua gargalhada”.

Creio ter sido Thomas Mann, em “Morte em Veneza” quem nos ensinou que “a felicidade do escritor é o pensamento que consegue transformar-se em sentimento, é o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento”.

QUEM É O AUTOR?

Se é verdade que um bom escritor é, basicamente, um contador de histórias, e não um redentor da humanidade, João Aguiar narra-nos pequenas histórias despretensiosas, a partir de “olhares tranquilos”, sobre pequenas coisas que “são grandes e todas as circunstâncias podem ser excelentes ocasiões de encontro” em que se alicerça a força da fragilidade.

Com a “franqueza de quem põe a mesa na cozinha para os amigos”, João Aguiar Campos sabe que na mesa da sala as conversas são “mais distantes e os gestos mais cuidados”, como mandam os livros de urbanidade.

O ex-director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais e ex-presidente do Conselho de Administração da Rádio Renascença prefere escolher as palavras simples para nos falar de temas importantes, como vê, sente, lê e diz.

A preparar “Rio abaixo”, este padre terrabourense que foi Director do jornal Diário do Minho e director de informação da Rádio Renascença, nasceu em Dezembro de 1949, em S. João de Campo do Gerês, Terras de Bouro.

João Aguiar Campos tem 67 anos, formou-se em Teologia nos seminários de Braga e foi ordenado sacerdote em 1973. Entre 1974 e 1976 frequentou Ciências da Informação na Universidade de Navarra, em Espanha. Ingressou no Diário do Minho em 1976 e, em 1981, na Rádio Renascença.

Director do jornal Diário do Minho em 1997, desempenhou essas funções até 2005, altura em que foi designado presidente do conselho de gerência do Grupo Renascença. Em 2011 foi nomeado director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja.

As 375 páginas de “Circunstâncias” estão divididas em dois gomos, como parte de uma laranja que vimos saboreando nas obras anteriores “Intervalos”, “Encontros”, “Anseios” e “Transparências” com pevides de esperança e futuro, onde a casca amarga espevita o palato para a doçura do vinho ainda em fase de mosto.

Temos uma primeira parte de orações e uma segunda com “impressões” do coração, o denominador comum de textos com a “beleza das coisas simples” (cf. p. 220) e momentos inebriantes como a Carta de Herodes (p. 228) — uma das páginas mais eloquentes deste livro.

QUE SÃO “CIRCUNSTÂNCIAS”?

Que são “Circunstâncias”? — pergunta o leitor. Ora, aí vem a resposta (p.38): “a capacidade de esperar, como esperam os peregrinos pelo colega de viagem que tem os pés cansados. E peço que os outros me emprestem também o seu tempo, quando a fadiga ou o desânimo me colarem a um marco da estrada (…); a capacidade de ver o esforço e agradecer os seus resultados, ainda que imperfeitos; a coragem de ajudar mais e julgar menos; a ternura de um olhar sobre as feridas que tenham de ser limpas.”

Ah, mas também podem ser “cisternas rotas”, as utopias perseguidas, “os pés dormentes de fadiga” e o “peso de todas as desilusões”. Afinal, estamos perante um Homem atento e um jornalista interveniente que nunca se refugiou na inacção isenta de risco nem disputou o jogo dos equilíbrios dos palácios políticos ou eclesiásticos. Pois é. “Um cristão no sofá não deixa rasto: o seu único sinal é o desgaste das molas no local onde esteve sentado. Quem ocupar aquele lugar enterra-se cada vez mais…

Estamos perante um sacerdote que — como Amós que amuou o poder — não quer “cristãos calados, ausentes, tímidos, subservientes, equilibristas; cristãos da corte, até podem ser úteis ao poder (que também hoje amua) e ter poder — mas não têm autoridade”!

Nestas “Circunstâncias”, ou “nós cegos no coração, onde a ternura se não desata” (cf. p. 93), João Aguiar Campos vagueia até ao colo materno em que “gostava de recuperar os olhos de criança” e “a alegria limpa de saborear a prenda, sem saber preço ou proveito — mas apenas o mimo de ter sido lembrado”.

Em “Circunstâncias” também encontramos a “inconstância” do autor quanto ele se interroga: “se os meus dias fossem comparáveis a um terreno urbanizável, poderia afirmar que estão cheios de alicerces e vazios de edifícios; ou rasgados por cabos que não encontram o poste de donde a lâmpada semeie a luz…

Já estamos a ser muito rebuscados, por isso, mergulhemos na fidelidade ao sentimento de rezar que sempre foi para o nosso autor “o acto tranquilo de estar, olhar, ouvir e, também, dizer o que o Outro já sabe” ou não soubesse ele que “rezar é amar”.

De facto, nas pág. 49-51 e 57, o autor fornece os parâmetros do seu coração “atento” mas “aberto”, feito “de carne” de quem é “peregrino” e “solidário” — diante das angústias de todos os recantos do mundo!…, ou seja, “inteiro”. Tem um problema: “a porta do coração só abre por dentro” (p. 372)

Mas há muito mais neste livro: nele encontramos tantos ecos dos recantos da vida, entremeadas com cenas bíblicas enquadrados em pedaços da memória, subtitulados com flocos de poesia e sonetos de oração.

Se toda a gente sabe, João Aguiar Campos ensina-nos que a oração é diversificada e não monótona e se hoje a paz pode ser o pretexto — porque “feita de fraternidade e responsabilidade” — também é alimento que “põe a mesa para todos os que têm fome de pão, de ternura ou de diálogo” nem que se assemelhe a “tijolo de liberdade à espera de construtores!

A vida provou ao autor de “Circunstâncias” que “é mais cómodo dar, que dar-se” ou — no extremo — “disponível, para ir além de mim” como é esse “amor louco” que celebra o Natal ou essa girândola de perguntas sobre outro tempo: “vais deixar passar as horas ou vais enchê-las de vida?… Vais assistir ou vais participar?… Vais repetir ou inovar?… Vais desistir ou vais insistir?.. Vais suportar ou amar?… Vais lamentar-te ou convencer-te?…

UM CONVITE

Sabendo que as palavras “são os dentes do ouvido”, o autor convida-nos, em cada dia, a “escutar”, significando “deixar que o outro habite em nós” até atingir o cume do “amar sem negociar gestos e sem ficar na superfície dos sentidos”. Sim, porque o Deus de João Aguiar Campos “não gosta de quem está apenas por estar — por pensar que não tem outro remédio ou por medo do incerto e desconhecido” até porque, como disse, há 30 anos, José Saramago, numa entrevista ao ABC, “dentro ou fora de mim, todos os dias acontece algo que me surpreende, algo que me comove, desde a possibilidade do impossível a todos os sonhos e ilusões”.

É nesta perspectiva que vemos o autor a pedir para ver “a minha aridez”, as “feridas do mudo”, “as necessidades da Tua Igreja” ou os “sinais de ressurreição e os aponte, serenamente, a todos os pessimistas” como fez o cego filho de Timeu, perto de Jericó (Mc. X, 46-52).

Aguiar.Capa.livro

Como poeta, João Aguiar Campos “ata-se” a Deus com o olhar e mostra o seu talento em “Contemplação”, na páginas 35-36 e 109, com todo o sabor rural do berço e uma natal saudade do “tempo de frio e de dor/que sossego e confio/e desejo/ o colo macio/ do Teu infinito amor!

Por momentos, ecoaram-me saudades do nosso Maestro comum, Manuel Faria (1916-1983), que compôs essa belíssima canção: “Atei os meus braços com a tua Lei, Senhor;/ E nunca os meus braços chegaram tão Alto;/ Ceguei os meus olhos com a tua luz, Senhor/ e nunca os meus olhos viram tão longe”.

No seu “Mistério de Viver”, Cesare Pavese desabafava que “é bom escrever porque reúne as duas alegrias: falar sozinho e falar a uma multidão”, sabendo sempre que “a rotina é o pior dos inimigos” dado que “impede a festa, proíbe a surpresa, mede os passos pelos vagares de quem se contenta com migalhas e mata devagar” (cf. p. 45).

No seu diálogo connosco, João Aguiar Campos fala sózinho com o seu Deus cujas “mãos são de algodão. Não magoam mas são mais seguras que o aço” porque “são berço de esperança” e “procuram incessantemente as nossas”. Por isso, conclui, “descansar nas mãos de Deus não é dormir; é dizer-lhe que queremos ir aonde nos levar…”

Senhor, não me deixes de desistir de mim” — é uma das frases mais empolgantes deste livro (p. 59) só comparável à da pág. 72 — “Guardo-te no coração do meu coração” — embora tenha de reconhecer que a história mais linda está na pág. 62 quando João Aguiar Campos pergunta: “Deus, gostas de beijinhos?”.

Daí que tenhamos vários textos sobre a oração, seja da noite, seja do andaime (p.125), seja do trabalho, pelos amigos, pelos sacerdotes e pelos “pássaros a cantar no coração” (p. 145).

E já agora, deixem-me confidenciar — “há lágrimas novas: hoje podemos chorar de alegria!…

Se não conseguimos que leiam este livro, creiam que “não é da semente a infecundidade; é do descuido do semeador, tal como a melhor das partituras pode morrer na incapacidade do intérprete”. Restar-nos-á o desconsolo de ser o “nariz daquelas pessoas que pensam que é a sua aproximação que dá perfume às rosas que cheira…” (.p. 286). Se isso acontecer, seremos o “quase”… o nome dessa terra triste — habitam-na milhares de pessoas que muitas vezes estiveram para… mas nunca chegaram a. Estiveram para partir, mas nunca desfizeram as malas. Estiveram para dizer, mas colaram os lábios. Estiveram para amar mas congelaram o coração. Estiveram para abraçar, mas não ergueram os braços”.

Mas não se preocupem, ficamos como o Zaqueu, sim aquele pequenito que trepou à figueira e fez alguma coisa para “ver” as “Circunstâncias” que João Aguiar Campos “põe em cima da mesa. Uns alimentam-se, outros não.

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