Um Prémio Nobel da Paz ignorado em Guimarães

Assim como Guimarães conseguiu ser Capital Europeia da Cultura, tenho a certeza que vai ser Capital VerdeEuropeia em 2020” — assegurou o prémio Nobel da Paz 2007, o cientista indiano Rajendra Pachauri.

Pachauri integra o Comité externo que está a avaliar a candidatura de Guimarães e esteve presente numa acção integrada no programa da Green Week que decorre em Guimarães até ao dia 8 deste mês.

Os portugueses desperdiçam recursos naturais e se todas as pessoas no mundo usassem os recursos do planeta como eles, hoje acabavam, alertou em Guimarães o presidente da associação ambientalista Zero, em vésperas do Dia do Ambiente.

Francisco Ferreira falava numa sessão ao ar livre — inserida no programa da Green Week — com o tema “compreender a utilização que Portugal faz dos recursos naturais da biosfera através da contabilização da Pegada Ecológica”, na qual participou o prémio Nobel da Paz (repartido com Al Gore, em 2007) Rajendra Pachauri.

Ao olharmos hoje para a imprensa regional e nacional, a sua presença passou completamente despercebida apesar da importância do tema: a pegada ecológica que traduz o consumo de recursos por cada habitante e do país, e a capacidade do planeta em regenerar esses mesmos recursos.

Francisco Ferreira apontou que a partir do dia 5 de Junho, hoje, o planeta estaria a subsistir das suas reservas, com os habitantes a “viver a crédito”.

A explicação para este dado tem três causas, uma relacionada com o tipo de alimentação que os portugueses têm, onde ainda prevalece o consumo de carne e de peixe, o que, do ponto de vista dos recursos, é “significativo”.

A segunda reside nas emissões de dióxido de carbono, ao nível da mobilidade, e a dependência em relação aos combustíveis fósseis, como o petróleo, o gás natural ou o carvão, cujo “impacto é extremamente elevado, por pessoa, principalmente associado ao uso do automóvel, mas também à produção de eletricidade”.

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Em terceiro, Francisco Ferreira destacou que Portugal usa “muitos recursos desnecessariamente”, e substituímos muito os equipamentos, fazemos “demasiadas” compras, desde vestuário aos eletrodomésticos, com muitos a terem um fim num aterro.

Devemos substituir o querer mais para darmos lugar a palavras como a qualidade de vida, a suficiência e, acima de tudo, o conseguirmos viver de uma forma sustentável e feliz em harmonia com aquilo que o planeta nos é capaz de dar”, sublinhou Francisco Ferreira.

Se todos os países tivessem a mesma pegada ecológica que Portugal, “seriam necessários 2,3 planetas” para responder ao consumo.

Guimarães tem apostado na implementação de boas práticas ambientais desde 2015 de modo a tornar-se na Capital Verde Europeia em 2020 e é nesta candidatura que se insere esta semana de actividades relacionadas com o ambiente. Green Week inclui concertos, cinema, workshops, gastronomia, actividade física e outras atividades que consciencializem a população para as questões ambientais, tendo em conta os objectivos do desenvolvimento sustentável 20130 das Nações Unidas.

Green Week surge no âmbito da candidatura da cidade a “Capital Verde Europeia 2020” e Ranjendra Panchuri espera que “tal como conseguiu ser Capital Europeia da Cultura, Guimarães vai ser Capital Verde Europeia”.

O testemunho de Pachauri tem peso significativo uma vez que ele integra o comité externo que avalia a candidatura da Cidade Berço.

A sua presença em Guimarães acontece num momento em que os Estados Unidos ameaçam sair do Acordo de Paris e numa era em que “as alterações climáticas são reais, isto não é ficção científica”, como alertou Rajendra Pachauri, fundador do projeto Protect our Planet Movement e vencedor do Nobel da Paz em 2007, em nome do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.

Pachauri avisou a plateia que os efeitos das alterações climáticas já se sentem e poderão agravar-se num futuro próximo. “Durante a vossa vida, vão enfrentar situações que estão, por exemplo, relacionadas com a subida do nível dos mares. Se não se fizer nada entretanto, no final do século o nível do mar subirá cerca de um metro. E esta é uma situação que pode ser agravada pelo degelo – é possível que grandes pedaços de gelo caiam no oceano, tornando a situação ainda mais dramática”, alertou.

Pachauri não acredita que os governos consigam, por si só, resolver estes problemas. “O Acordo de Paris foi um passo dado em frente, mas temos de dar mais. No entanto, este acordo já nos dá a oportunidade de chamar a atenção de todas as nações do mundo, com o objetivo de avançarmos em conjunto… Talvez até com os Estados Unidos da América”, afirmou o cientista, aludindo ao facto de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter ameaçado desvincular o país do Acordo de Paris.

O cientista indiano referiu dois fatores que mais prejudicam o ambiente: o desperdício e o consumo excessivo. “Se vão de carro para a escola ou faculdade, pensem nas consequências dessa acção, vejam se não existem alternativas. Também têm de fazer alterações no vosso dia-a-dia. Pensem na quantidade de roupa que compram. Eu não deito fora peças de roupa que têm 40 anos. E a verdade é que muitas destas peças podem voltar a estar na moda em breve. Outro apelo: comam menos carne. Fará bem à vossa saúde e à saúde do planeta”, aconselhou o Pachauri.

O cientista indiano fez ainda questão de falar sobre Portugal, sobre a sua beleza e os perigos que corre. “Este é um país muito bonito, mas também muito vulnerável às alterações climáticas: vocês têm uma costa muito grande e, por isso, muitas pessoas enfrentam os perigos provocados pela subida do nível do mar”, alertou.

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