Senhora-a-Branca: uma boa prenda para Braga

O livro “Senhora das Neves a Branca” é um “subsídio esplêndido com fundamento científico para o estudo do Povo de Deus, uma realidade representada nesta Igreja que é fonte de espiritualidade e de solidariedade” — garantiu o Bispo Auxiliar de Braga, D. Francisco Senra Coelho, quarta-feira, em Braga.

O Prelado falava na sessão solene e muito musical de apresentação do novo livro do padre Carlos Nuno Vaz que assinala os 500 anos daquele templo em que “muita gente fica na história da história da Senhora-a-Branca”, como sublinhou o jornalista Costa Guimarães

A sessão, com a Igreja cheia, começou com a execução de peças de órgão por Costa Gomes e a entoação de cânticos pelo grupo Coral dirigido pelo padre Júlio Vaz, preparando o auditório para uma “breve visita guiada” à evolução desta antiga ermida que hoje acolhe a Irmandade da Senhora-a-Branca, fundada em 1516.

O bispo auxiliar de Braga, sagrado há três anos, recordou as “peugadas na estrada que o padre Carlos Vaz empreendeu para nos dar a conhecer um Povo de Deus que brota do Baptismo, se alimenta da Eucaristia” através da história da irmandade, com “os seus dias de sol e os seus dias de sal”.

  1. Francisco Senra Coelho centrou a sua intervenção na Comunidade de todos os irmãos que precisa de “recontar a história da Igreja e não pode ficar encerrada num castelo” de negociações entre Papas e Reis, entre Papas e Bispos e entre Bispos e padres.

A história do Povo de Deus está por fazer mas não é fácil porque o povo não deixou documentos nos arquivos nem tinha chancelarias”, mas “é onde nós encontramos com uma multidão imensa que construiu a Igreja”.

Os documentos das irmandades testemunham a “religiosidade popular, as devoções, os ex-votos, as promessas cumpridas e as crenças mais simples como a do medo do purgatório” mas elas são “os primórdios dos movimentos que levam aos grandes Montepios mutualistas” — acrescentou o Bispo Auxiliar de Braga.

Partindo do livro de Jean Deluneau, “História vivida do Povo de Deus”, Francisco Coelho desafia ao estudo da vida e obras do “grosso volume de fiéis anónimos que são a Igreja”. Hoje, a santidade é uma chamada universal, em contraponto aos tempos medievais em que “a santidade era apanágio exclusivo das ordens religiosas” e mesmo dentro dos mosteiros existiam vários escalões.

A RESPIRAÇÃO DOS POBRES

Daí que o Bispo Auxiliar de Braga destaque este estudo do padre Carlos Nuno Vaz porque a história da Irmandade “é um caminho clarividente que nos mostra a realidade viva do povo bracarense, as Confrarias eram uma proposta de caminho da santidade para os simples que dava atenção à piedade, incluía os testamentos, os sufrágios”.

O prelado lembrou a vitalidade das confrarias civis — como a da alheira, da morcela, dos vinhos ou do pudim — quando “sentimos as nossas Irmandades a asfixiar, apáticas. Estamos a falar da respiração espiritual dos pobres, da fraternidade de pobres com pobres e de coisas marcadas com sangue, suor e esperança”.

Uma vez que agora ninguém pode ignorar — com este livro do Carlos Nuno Vaz — D. Francisco Coelho fez um apelo ao “apoio à Irmandade da Senhora-a-Branca, pela sua história e pelo património imaterial que representa para Braga”.

O bispo auxiliar de Braga não esqueceu “esta família de sacerdotes — Cónego António Vaz, padre Júlio Vaz e os sobrinhos Carlos Nuno e Júlio Vaz — que tem um compromisso umbilical, de ordem genética, com o concílio Vaticano II”.

D. Francisco não esqueceu as “cicatrizes e caminhos difíceis que eles percorreram na fidelidade, muitas vezes em silêncio e em sofrimento”.

Coube ao jornalista Costa Guimarães a apresentação do livro que se afirma como “um combate à amnésia programada” através de 570 páginas sobre 500 anos do belíssimo exemplar que acolhe a primeira obra de André Soares (o sacrário).

Trata-se do resultado do exaustivo trabalho de seis anos de estudos de cerca de duzentas fontes documentais distintas, e de muita dedicação que nos apontam momentos, actos, sentimentos, palavras, gestos que calaram fundo e nos ajudam a ter outra perspectiva sobre a importância deste templo na cidade e concelho de Braga.

Com estas 570 páginas, das quais devemos destacar uma excelente colecção de imagens que falam mais que as nossas palavras, o padre Carlos Nuno Vaz ajuda-nos, através de um trabalho que esconde um enorme amor, a aprofundar a história de Braga para a apreciarmos ainda mais” — prosseguiu Costa Guimarães, lembrando que a receita dos 1600 exemplares reverte a favor das obras da Igreja porque as rendas são muito diminutas face ao que eram outrora…

Estamos perante um contributo de muitos que foram coordenados por Carlos Nuno Vaz… como Franklim Neiva Soares (As visitações de S. Vítor), o espólio da Confraria de S. Pedro (unida 15 nos à da Senhora A branca, cedido pelo padre José Paulo Abreu), ou de outras como a Senhora do Ó, do Hospital, da Boa Nova (Arco da Porta Nova), do Bom Despacho, nas Carvalheiras, (que fazem da Senhora a Branca um quatro em um).

Outra lembrança e agradecimento vai para o Doutor José Marques, que forneceu o documento que comprova a existência do nome «Senhora-a-Branca» numa transacção de 1485 e, além disso, verteu para grafia mais acessível a introdução ao Livro dos Brasões, colocada no início do cap. XI.

De Ernesto Português veio o contributo da União com a Irmandade de S. Pedro, enquanto Eduardo Pires Oliveira facilitou a colecção dos brasões dos Arcebispos desde D. Diogo Sousa, em 1516.

UMA PRENDA PARA BRAGA

O jornalista assinalou que é “uma óptima prenda que Carlos Nuno Vaz oferece também a Braga, porque sendo mais que um livro de história, é uma parte ímpar da história de Braga, fora dos muros medievais, quando não havia a Igreja de S. Vítor , mas apenas a Capela de S. Vítor Velho, como mostra bem o Mapa de Bráunio, em 1594,a meio caminho entre a Avenida Central e a Capela de S. Vítor-o-Velho”.

A implantação e prestígio da irmandade alargavam-se de tal jeito que, em 1587, os recebimentos atingiram os 62.667 reis, o que permitia a renovação de alfaias, missais e outro mobiliário decorativo e religioso.

Costa Guimarães deu algumas pinceladas sobre os principais momentos da História da Irmandade que, após séculos de crescimento e crescimento, entrou em declínio e quase morte na primeira metade do séc. XX.

Este livro de Carlos Nuno Vaz também canta essa gente que fica na história da história da Senhora-a-Branca, esses padres e leigos que passaram nas vidas de tantos para os marcar com a sua dedicação e trabalho e não para causar cicatrizes” — sentenciou Costa Guimarães, antes de lembrar com alguma emoção alguns obreiros do renascimento da Senhora-a-Branca: os padres Manuel Rodrigues de Azevedo, António Sousa Fernandes e os irmãos Vaz “marcaram a nossa juventude pela sua coragem para afrontar poderes eclesiásticos hipócritas e castradores da formação da juventude”.

LEMBRAR OS PADRES VAZ

É a estes que a Irmandade deve o seu renascimento desde 1969 até hoje: o padre António Sousa Fernandes , o Cónego António Luís Vaz com o seu irmão Padre Júlio Hilarião Vaz. Os sobrinhos dos padres Vaz— Carlos Nuno Vaz, como capelão — o irmão Júlio, Director do Grupo Coral que anima as celebrações desta Igreja, continuaram a renovação.

Eles acreditaram, com gestos, dedicação, palavras e acções, desde há décadas, naquele grito do papa Francisco em Fátima, no passado 13 de Maio: Temos Mãe. Acreditaram quando, em alguns momentos, a Mãe Igreja se comportou como madrasta e os olhou de soslaio” — lembrou Costa Guimarães.

Eles são os construtores desta “nova centralidade especial da Senhora das Neves a Branca que devemos conhecer mais — através da leitura deste livro — para a amarmos melhor”.

Mais que perpetuar, o padre Carlos Nuno Vaz aviva a memória e dá a conhecer tantas coisas…ricas de humanidade e devoção que há dentro destas paredes. Ninguém ama aquilo que não conhece. Com esta obra deixamos de poder invocar a nossa ignorância. Já não temos desculpa para não amar tanto este templo” — concluiu o jornalista.

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