Ponte de Lima: António Feijó sacerdote da Beleza e da Verdade

Norton de Matos definiu António Feijó como um “sacerdote da Beleza e da verdade e nada pode haver na sua obra que representa a apologia do egoismo e de baixos sentimentos”. O General aludia assim ao seu primeiro poema Sacerdos Magnus publicado em 1881 e representado num sarau em Coimbra.

Vem esta afirmação, feita em 1938, quando Ponte de Lima ergueu um monumento ao poeta, a propósito do centenário da morte deste Homem que cantou o rio Lima e diplomata, ocorrida em Estocolmo, a 20 de Junho de 1917.

Antonio_Feijo

Cândido Martins, um dos seus maiores estudiosos e editores, sustenta que “a voz emocionada e romântica, ou bucólica e nostálgica, mas também virtuosa e humorada de António Feijó ficará para a história da literatura portuguesa como uma criação representativa da plural renovação do fim de século português” (cf MARTINS, José Cândido de Oliveira, in “A escrita do sagrado na poesia de António Feijó: dos ecos mitológicos ao religioso cristão”, In Teografias, Aveiro, 2011, 49-62).

Sobre ele, David Mourão Ferreira — outro dos seus grandes leitores — disse: «António Feijó […] é um daqueles poetas que dificilmente podem filiar-se nesta ou naquela escola, neste ou naquele movimento [literário].» Estudos recentes o comprovam, porque António Feijó, visceralmente romântico, na preferência por certas temas – a noite, o outono, a morte, – foi um clássico pela cultura, pela disciplina, pelas exigências de perfeição formal,

Tendo despertado para a “criação poética em plena efervescência realista e parnasiana, um tanto sob a asa de Junqueiro, não menos sob o signo do bracarense João Penha, vai-se mostrando, progressivamente, permeável às difusas sugestões de um vago simbolismo que “a princípio procura satirizar, mas em cujas malhas de indefinível sortilégio pouco a pouco se deixa envolver” (cf. FERREIRA, David Mourão, in Tópicos de Crítica e de História Literária, Lisboa, União Gráfica, p. 233)

DIFÍCIL DE CATALOGAR

Segundo Manuel da Silva Gaio, António Feijó “é, entre nós, o primeiro representante do Parnasianismo” (cf. “La jeune Littérature Portugaise”) e Jorge de Sena chamou-lhe “estranhamente parnasiano” (cf. SENA, Jorge, in A poesia de Teixeira de Pascoais, Porto, Brasília Editora, 1982, p23).

Estamos perante uma figura umbilical e literariamente ligada ao bracarense João Penha, apontado como “fundador da estética parnasiana” (cf. LOPES, Óscar e SARAIVA, António J., in História da Literatura Portuguesa, p. 949).

Nesse sentido, a investigadora brasileira Zulmira Marques Santos coloca António Feijó no mesmo grupo de João Penha, Gonçalves Crespo e Cesário Verde (cf. “António Feijó — uma poética de síntese”, Mestrado de Literaturas Românicas Modernas, Faculdade de Letras do Porto, 1988, pp. 16 e 17).

A sua poesia é difícil de catalogar, uma vez que há quem o considere “parnasiano”, ou “estranhamente parnasiano” ou momento de “mudança dentro do Parnasianismo” (cf. SANTOS, Zulmira, in Art. cit., p.20).

Depois destas citações todas, o leitor pergunta: mas, afinal, o que é o parnasianismo? É um movimento literário essencialmente poético, contemporâneo do Realismo-Naturalismo que se desenvolveu partir de 1850, em França, para retomar a cultura clássica. Caracteriza-se pela sacralidade da forma, pelo respeito às regras de versificação, pelo preciosismo rítmico e vocabular, pelas rimas raras e pela preferência por estruturas fixas, como os sonetos.

NA RIBEIRA LIMA

Nasceu na Ribeira Lima, um lugar onde a harmonia das coisas se revela com única expressão natural e “nos enlaça tão suavemente pelos montes pouco impetuosos e torturados cujas encostas “descem macias” e tingidas de “uma cor meigamente violácea”.

Talvez por causa deste cenário, António Feijó se afirme perante nós como alguém que sabe “exprimir o que não sabemos dizer” porque o seu papel na comunidade foi “servir-se do seu poder de expressão para nos mostrar e fazer compreender a ânsia de beleza, de verdade, de justiça que nos enche a alma”.

Estamos perante uma personalidade a quem “muito deve a terra em que Feijó nasceu ao alto poder de expressão”, mas também é verdade que “o génio do poeta não teria sido o que foi, se não tivesse a embalá-lo desde o berço a beleza das coisas que nos cercam, as vetustas tradições da sua vila, o espírito de comunidade de que fez parte” — assinalava o grande militar e democrata português, oito anos mais velho que o poeta.

Nesse sentido, concluía, “Ponte de Lima e António Feijó estão indissoluvelmente ligados” num tempo em que se “cantava mais nas fontes, no rio e nos campos” ( cf. MATOS, General Norton de, in Memórias e trabalhos da minha vida, Coimbra, Imprensa da Universidade, Vol. III, 2005, pp. 239-245)

Norton de Matos recorda a infância de António Feijó, pouco tempo passado sobre o fim da guerra civil, em que se “vivia uma vida tranquila e ordeira, dos lutadores, miguelistas e liberais” e “principiavam os homens a respeitarem-se uns aos outros novamente; via-se claramente que nas ideias que mais antagónicas pareciam, muito havia de comum — para que serviu tão cruenta luta, tanto sofrimento, tanta tristeza, perguntava-se”.

É esta envolvência geográfica e política que cria toda a existência de Feijó e “se revela através de toda a sua obra”.

O rio Lima é um elemento essencial na vida e obra de António Feijó e, de qualquer das suas margens, “o panorama que se contempla deslumbra-nos sempre e parece dizer-nos mansamente que a felicidade suprema reside no espaço restrito onde nascem as fontes que alimentam o rio”.

Para António Feijó, o rio Lima é “o companheiro mais querido” porque, “fora das época das cheias, desliza mansamente e pleno de encanto, as suas águas descendo nessa luz reflectida, a tremer como um luar, deixa a descoberto aqui e além, as areias do seu leito para que a gente ribeirinha venha junto dele fazer as suas feiras e celebrar as suas festas” reflectidas no “grande lençol de água que o mar puxa para si” — escreveu Norton de Matos, citando o poeta.

António de Castro Feijó nasceu em Ponte de Lima no dia 1 de Junho de 1859, tendo sido um poeta e diplomata. Como poeta, António Feijó é habitualmente ligado ao Parnasianismo e o final da sua obra tende a um certo tom fúnebre.

A 20 de junho — dia em que se assinala o primeiro centenário da morte de António Feijó (1917-2017) —, o Município de Ponte de Lima abre uma exposição de homenagem ao poeta-diplomata ponte-limense, considerado um dos maiores vultos da literatura portuguesa do fim do séc. XIX.

Intitulada “António Feijó, 1917-2017: memórias e revisitações”, a mostra bio-bibliográfica de tributo — patente ao público na varanda interior da Biblioteca Municipal de Ponte de Lima —, congrega 14 painéis, generalistas e temáticos, que evocam os principais momentos da vida e obra do autor de “Sol de Inverno”. Aí se podem apreciar os livros deixados por António Feijó, artigos vários de jornais da época, nacionais e estrangeiros, com particular destaque para os periódicos suecos e brasileiros.

A exposição comemorativa, que pode ser visitada de 20 de Junho a 31 de Outubro de 2017.

JUVENTUDE EM BRAGA

António de Castro Feijó nasceu em Ponte de Lima, Concluiu o liceu em Braga, depois de ter estudado em Viana do Castelo e licenciou- se depois em Direito, pela Universidade de Coimbra, em 1883. Apesar da importância de António Feijó na literatura portuguesa, este poeta permanece desconhecido do grande público.

Em duas vertentes principais se distinguiu António Feijó: como diplomata, discreto, mas dedicado e competente, por um lado; como poeta que nos legou «uma importante soma de poesia […] que constitui um límpido repositório lírico, ora comovente, ora saboroso», como escreveu David Mourão Ferreira.

A biografia de António Feijó pode ser repartida em dois períodos relativamente distintos.

O primeiro vai, desde o seu nascimento, a 1 de junho de 1859, em Ponte de Lima, até ao final do curso de direito, em Coimbra, frequentado entre 1877 e 1883, com uma prévia passagem por Braga, onde fez os estudos preparatórios.

É um tempo marcado pela vida de estudante, com as naturais experiências afectivas e boémias mais ou menos originais, a nível pessoal e social.

O segundo período, falhada a vocação para advogado, é dominado pela carreira diplomática. Situa-se entre 1886, ano em que é nomeado Cônsul no Brasil, e o dia 20 de junho de 1917, data do seu falecimento, em Estocolmo.

Entre 1891 e 1917, durante 26 anos consecutivos, exerceu funções de Cônsul Geral e de Encarregado de Negócios, em Estocolmo e em Copenhaga, para poucos anos depois, em 1906, ascender à categoria de Ministro Plenipotenciário.

Em 24 de Setembro de 1900, tinha 41 anos, casa com Maria Luísa Carmen Mercedes Joana Lewin, uma jovem sueca de 22 anos, filha de pai sueco e mãe equatoriana.

António Feijó foi um homem que, mesmo enquanto diplomata, gostava de gozar a vida, do bem viver e de viver bem. A este respeito, Cândido Martins descreve o nosso poeta como tendo sido «sempre um fidalgo culto e distinto, espirituoso e expansivo.» Refere, a propósito, que não faltam «os testemunhos que realçam a [sua] lucidez irónica e a saudável alegria, verdadeiramente contagiantes.» E remata: «são inúmeros os ditos graciosos e as situações anedóticas protagonizadas pelo poeta e diplomata limiano, homem folgazão, de convívio desejado, repetidamente alcunhado de “opíparo Feijó” por Guerra Junqueiro.»

Num carta, Emília de Castro, esposa de Eça de Queiroz, «preocupada com a frágil saúde do marido», fala do «“temível” Feijó como responsável por desencaminhar os amigos íntimos para memoráveis e desmedidos repastos gastronómicos.»

Para exemplificar este lado divertido e folgazão de Feijó, são de ler ou reler, por um lado, em primeiro lugar, Bailatas, de 1907, e Novas Bailatas, publicado, postumamente, em 1926.

Depois, entre outros, o belo livro O Mistério da Estrada de Ponte de Ponte do Lima – António Feijó e Eça de Queiroz, de A. Campos Matos. E de Luís Dantas, António Feijó – A Boémia Estudantil e os Primeiros Versos, publicado em 2008.

O pessimismo que se encontra, com frequência, em muitos poemas de Feijó é, por isso, mais aparente que real, é mais estético que ético.

O casal teve dois filhos – António Nicolau e Joana Mercedes.

Apesar de mais nova 19 anos que o marido, Carmen Mercedes faleceu, prematuramente, em 1915, vítima de sofrida e prolongada doença. António Feijó não resistiu ao doloroso golpe: amavam-se profunda e intensamente.

Dois anos depois, em 1917,o poeta sucumbia a um duro ataque de gota.

Os restos mortais de Carmen Mercedes e de António Joaquim de Castro Feijó (o seu nome completo) encontram-se no cemitério de Ponte de Lima, para onde foram trasladados de Estocolmo, em 1927, é na legenda tumular «O amor os juntou e nem a morte os separou» que se perpetua a memória do profundo amor que este casal entre si comungou.

Vem a propósito recordar o poema «Eu e Tu», incluído no livro Sol de Inverno – Últimos Versos, que transcrevemos em caixa repleto de sentimento amoroso e de uma subtil sensualidade. Nele se encontram, por outro lado, claras influências parnasianas e simbolistas.

Na sua Juventude começa a publicar em jornais, actividade que manterá ao longo de quase toda a sua vida.

Cursa Direito na Universidade de Coimbra entre 1877-1878 e 1882-1883. Reprova no primeiro ano, facto que o transforma de «estudioso aplicado» em «cábula habilidoso», segundo as suas próprias palavras.

Com Luís de Magalhães funda em 1880-1881, nessa cidade, a Revista Científica e Literária, de orientação positivista e escreve um folheto intitulado Sátira funambulesca sob o pseudónimo de Frá-Diávolo.

Em 1882 publica Transfigurações, com poesias escritas entre os anos de 1878 e 1882 (incluindo o texto poético Sacerdos magnus que já tinha sido publicado em Coimbra em 188116).

Em 1884, saem as Líricas e bucólicas, antologia com poesias escritas entre 1876 e 1883. Um destes cinquenta e quatro poemas intitula-se “Sobre o rio Thchú (do poeta chinês Thu-Fú)” e integrará depois o Cancioneiro chinês.

Desde os fins de 1886, contudo, sofrendo com o ambiente social e o clima, começa a pensar na sua transferência do Brasil (chegando inclusive a sonhar com o consulado de Xangai (18), o que obtém apenas em 1890.

Goza então seis meses de licença em Portugal. No fim desse ano é publicado o Cancioneiro chinês.

Em 1891 parte para a Suécia onde exerce os cargos de cônsul-geral e de encarregado de negócios interino. Volta a Portugal intermitentemente, por períodos mais ou menos prolongados, publicando, em 1897, a colectânea de poemas Ilha dos amores.

Em 1907 saem as Bailatas sob o pseudónimo de Inácio de Abreu e Lima, com um prefácio assinado por ele próprio.

O espólio de cartas do poeta é riquíssimo e é uma fonte de informações pessoais e sócio-culturais valiosas, como é o caso das interessantíssimas cartas entre o poeta e Luís de Magalhães.

NOS CEM ANOS DA MORTE DE ANTÓNIO FEIJÓ

Cancioneiro Chinês (1890)

obra prima do poeta limiano

COSTA GUIMARÃES

António Feijó expôs o seu «princípio estético», na seguinte frase: «na minha estética un vers n’est jamais bien quand’il peut être mieux.»

Viajamos agora pela sua obra que começa com Sacerdos Magnus, o primeiro livro, se assim podemos chamar, que Feijó publicou, em 1881. É um longo poema, épico e elegíaco, composto e recitado, em 1880, em Coimbra, durante as celebrações do tri-centenário da morte de Camões. O poema aparece depois integrado no livro Transfigurações, em 1882, onde reúne poemas escritos desde 1878 e revela «a influência» do pessimismo de Schopenhauer, por um lado, e as “doutrinas largamente proclamadas de Augusto Conte e Herbert Spencer», por outro.

Aqui encontramos poemas da juventude, escritos nos tempos de estudante em Braga e Coimbra. Dada a extensão dos poemas, ouçamos um fragmento de «Esfinge Eterna», datado de 1880, recolhido em Transfigurações.

Não é suficiente a letra do Evangelho…

Para erguer a razão das trevas onde cai

Inflamem-se de novo as sarças do Sinai!

Que o saber alimente e eleve a inteligência!

Para tranquilizar a nossa consciência

Não basta simplesmente o que nos diz a fé:

O que ensinou Jesus e o que ensinou Mahomet!

 

Segue-se Líricas e Bucólicas, em 1884, onde Feijó reúne poemas escritos entre 1876 e 1883, isto é, poemas escritos antes de Transfigurações.

Ilha dos Amores é publicado em 1897. São XXIX pequenas oitavas, introduzidas por um «Prelúdio». O objecto poético de todos estes versos é, de novo, uma mulher que o sujeito poético amou e de quem continua a sentir saudades. Feijó encontrava-se, então, no «exílio» de Pernambuco.

É na «Alma Triste» que se encontra «Inverno», cujas quadras da segunda parte foram adotadas como hino de Ponte de Lima:

«Nasci à beira do Rio Lima,

Rio saudoso, todo cristal;

Daí a angústia que me vitima,

Daí deriva todo o meu mal.»

 

Bailatas, publicado em 1907, é o último livro que Feijó publicou em vida, ao lado de Novas Bailatas, postumamente publicado, em 1926. O poeta assina-os, porém, com o curioso pseudónimo de Inácio de Abreu e Lima. Pseudónimo? Mourão-Ferreira afirma que «era praticamente um heterónimo, no sentido em que Fernando Pessoa viria depois a pôr em voga esta palavra.»

Finalmente, Sol de Inverno, publicado em 1922 , mas pronto em 1915, ano da morte da esposa.

Sol de Inverno é considerado, pelos estudiosos da obra poética de Feijó, o melhor livro. Cândido Martins considera-o «uma verdadeira obra prima, síntese de um lirismo magoado e nostálgico, profundamente outonal e crepuscular»-

Por sua vez, Mourão-Ferreira regista: «Por meio do Símbolo, António Feijó, simultaneamente, oculta e descobre o que há de mais íntimo em si. Por isso mesmo, quando nos fala do “Cisne Branco, esquecido a sonhar no alto Norte” e que se vê, “ao despertar, das neves prisioneiro”, nós sentimos perfeitamente que é de si próprio que ele fala…»

António Feijó dedicou-se à tradução literária. Neste campo, verteu para português A Viagem de Pedro Afortunado, peça de teatro em cinco atos, do sueco Augusto Strindberg, em 1906, para além da Viagem em Portugal, 1798-1802, de Carl Israel Ruders, publicado em 1981.

A publicação do Cancioneiro chinês, em Outubro de 1890, é unanimemente aclamada pela crítica que o considera a “manifestação mais clara do código estético configurador do Parnasianismo” (cf. Santos, Zulmira, in art.cit. p.59) e a única.

São poemas, criativa e intensamente trabalhados, que Feijó traduziu, não directamente do chinês, mas do francês, a partir do Livre de Jade (1867), por Judith Gauthier. No entanto, a investigadora brasileira Zulmira Santos (in. Art. Cit., p.58) sustenta que esta obra “não foi elaborada a partir do Livre de Jade, mas de Dragon Impérial. Foi António da Costa Lopes, investigador bracarense, quem descobriu que Feijó revela, em “Cartas Íntimas”: “faz-me muita falta um livro que deixei, atado a sete cordas num desses inumeráveis pacotes, cuja confecção me fez suar, como Jesus nas Oliveiras, o melhor do meu sangue. Chama-se o livro Le Dragon Impérial, de Judith Walter” (cf. LOPES, A. da Costa, “Do positivismo ao agnosticismo panteístico no poeta Feijó”, in Revista Portuguesa de Filosofia, Tomo XXVIII, Braga, 1972, fasc. 1-2).

Trata-se, mais que de traduções, de recriações que o poeta, seduzido pelo exotismo oriental, fez de cantares de poetas da dinastia Tang (séc. VIII). Nestas recriações, Feijó procura, como o próprio diz, «resgatar por intuições e imagens uma beleza gráfica, pictural, intraduzível». Mas nelas encontramos, por um lado, «uma depuração parnasiana» e, por outro, «um vago simbolismo», como regista Cândido Martins.

Feijó não consegue, observa Mourão-Ferreira, «disfarçar», no Cancioneiro, os seus temas como a beleza romântica da mulher que, de «moça e bela», um dia ficou «Flor esquecida, que tombou no lodo».

O jornalista de Pontos nos iis (19 de Dezembro de 1890), depois de comentar que a demasiada agitação dos tempos era pouco propícia a “obras de cunho”, declara:

«[…] no meio da fúria revolucionária de uns, e dos espalhafatos bélicos de outros, parece que inda alguns trabalhadores acham sossego, para conceber, numa atmosfera límpida e perfumada de arte, coisas delicadas de poesia e narração. Aí está por exemplo o “Cancioneiro chinês”, de António Feijó, o poeta gentil-homem, que passa a vida a buscar na frase, como Flaubert, a suprema perfeição na suprema graça, e que a encontra, e neste livro a cristalizou com fortuna insólita – a ponto de parecer que o texto poético por ele vertido, não seja de poetas chineses, problemáticos, mas de Henri Heine, um Heine novo, religiosamente nostálgico, e dum humorismo velado e cheio de problemas.»

No Primeiro de Janeiro (29 de Dezembro de 1890), um comentador menciona os dois poetas que teriam sido os iniciadores deste novo caminho:

«Gonçalves Crespo e João Penha abriram caminho rasgado e têm como iniciadores uma glória indisputável no trabalho de flexibilização da nossa língua; contudo, é forçoso confessar que António Feijó, prosseguindo na mesma esteira, representa, se não a última étape, uma fase notavelmente mais perfeita em relação aos seus ilustres predecessores.»

A propósito do bracarense, recordamos aqui que, na década de 30 do século XX, a Câmara de Braga resolveu prestar uma homenagem ao seu concidadão, levantando-lhe um busto no centro da cidade.

Para isso foi escolhido um quarteirão do jardim do Largo de São do Souto. E assim numa peanha em granito, rodeada por um murete, foi colocado o busto de João Penha, tendo a “seus pés” um espelho de água. Pronto o monumento, questões burocráticas, iam atrasando a data da homenagem que estava programada para ser efectuada com grande aparato.

Passaram tempos e sempre adiada, continuava o busto coberto por uma grosseira serapilheira. Então irreverentes estudantes do Liceu Sá de Miranda, não se conformando com os sucessivos adiamentos, tomaram a peito fazerem eles a inauguração.

Numa noite foram até a São João do Souto, arrancaram a serapilheira e puseram a descoberto João Penha. Mas parece que ouviram, talvez, do além túmulo a voz do poeta ao ver onde estava e, como reclamando da situação com uma quadra que ali afixaram . “O PENHA AO VER CHEGAR A ÁGUA QUASE À TESTA NÃO SE CONTEVE E DISSE, MAS QUE . . . É ESTA !

Tempos depois, durante “O primeiro Congresso Nacional de Filosofia” realizado em Braga em Março de 1955, a Câmara quis homenagear Francisco Sanches, resolve apear o busto de Penha e no seu lugar colocar o do filósofo, professor e médico, Sanches, cristão-novo, que foi batizado na próxima igreja de São João do Souto.

Para o busto de Penha escolheram, para sua nova morada, na Avenida Central, perto do Coreto. Não contentes com esta acção, resolvem, tempos depois, levá-lo para o Largo do Rechicho e colocaram o busto sobre a Fonte do Rechicho, hoje aterrada, mas que lá está. O Centenário da Morte de João Penha acontece daqui a dois anos (3 de Fevereiro de 1919).

Luís de Magalhães, no entanto, e como é de esperar, vai mais longe e encontra afinidades profundas entre a arte dos poetas chineses e António Feijó: «Há fundas e radicais afinidades entre os caracteres do lirismo chinês, revelados no Livro de Jade e o feitio poético do autor das Líricas e Bucólicas. Esses delicados rimadores não são os ingénuos trovistas duma época sentimental, mas bárbara. São letrados, feitos por uma educação culta, erudita, oficial. Em toda aquela simplicidade há muita arte, a direcção superior duma estética clássica, a inspiração dum gosto formado e definido. São artistas consumados, verdadeiros mestres retóricos, no antigo sentido da palavra. Feijó é o mesmo. A suprema característica da sua individualidade literária é a de ser um refinado artista, discreto, equilibrado, consciente, escravo da forma, meticuloso no gosto, puro e preciso na expressão, senhor da sua língua e possuindo toda a técnica da sua arte. Ninguém, entre os novos, faz versos como ele. A sua poesia é plasticamente impecável.”

Na primeira edição de (Paris, 11 de Abril de 1892), António Nobre chama a Feijó «impecável artista» , afirmando que este, na sua

«[…] preocupação constante de bem versejar, com elevado aprumo artístico, cultiva todos os géneros e exprime todos os matizes poéticos entre os derradeiros vestígios do romantismo e do ultra-romantismo, o parnasianismo, o decadentismo e o simbolismo, misturando-os sem dissonâncias de maior e com minúcia de hábil joalheiro, a partir de básicos princípios parnasianos

O Cancioneiro chinês é «a manifestação mais clara do código estético (…) do parnasianismo» cujos traços são «a apologia da impassibilidade, a tendência para o descritivismo, o tom anti-confessional, o geometrismo e rigor da forma, a sobrevalorização do pormenor exterior sobre o interior.»

Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, pelo culto da beleza verbal, pelo rigoroso cuidado da forma, das linhas marmóreas da frase, do seu corte lapidar, das riquezas das rimas, da eufonia dos ritmos, do poder evocativo das imagens, – Feijó pode chamar-se, com acerto, um parnasiano seguidor do mestre Theo: “Ce qui n’est pas bien fait, n’est pas fait”.»

Se André Chenier foi o único europeu a interessar-se pela poesia chinesa que conhecia através das poucas transcrições dos livros dos jesuítas, deixando até umas Notes sur la litérature chinoise, António Feijó foi o segundo europeu e primeiro escritor português a fazer a ponte literária entre a Língua de Camões e o Mandarim.

Luís de Magalhães, no discurso produzido por ocasião da trasladação dos restos mortais de António Feijó para Ponte de Lima, publicado no Diário de Notícias, de 17 de Novembro de 1917, revelou: “Antero lia esta obra cheio de encanto e dizia: “É perfeito.” Esta frase valia os mais extensos e laudatórios artigos de crítica.

O poeta do comparativo clarificador

Chiara Lubich, fundadora do Movimento católico dos Focolares, afirmava que “o modo como” agimos, falamos e sentimos é tantas vezes mais importante que a essência do fazer, do dizer e do sentir. Uma das suas frases mais célebres é esta: “ Falemos sempre de qualquer pessoa como se ela estivesse presente” (cf. http://kdfrases.com/autor/chiara-lubich).

Eu e Tu, num ser indissolúvel! Como

Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,

Aspiram a formar um todo, – em cada assomo

A nossa aspiração mais violenta se ateia…

 

Como a onda e o vento, a lua e a noite, o orvalho e a selva

O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,

Ou o orvalho inundando as verduras da relva

Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

 

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,

O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,

O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,

Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

 

Como partes dum todo, em amplexos supremos

Fundindo os corações no ardor que nos inflama,

Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,

Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama…»

Neste poema dedicado à sua mulher, António Feijó mostra a sua estratégia poética assente na comparação, no vocábulo “como”, assinalado em itálico. “Apenas duas composições, “A Águia prisioneira” (p. 354) e “A Lenda dos Cisnes” (p. 399), não integram qualquer tipo de comparação. Todas as outras incluem, pelo menos, uma ocorrência de que demos exaustivamente conta e há casos em que é possível detectar três ou quatro dentro do mesmo poema (cf. SANTOS, Zulmira, in Art. Cit., p.83).

O recurso à comparação é a tendência clarificadora, nos poemas do limiano: “Pondo como uma flor, nas folhas sem aroma” (Poesias Completas, p. 343), “Como uma aranha na sua teia” (“Elegia de Abertura”, p. 346), “Como alguém que a si próprio iludir procurava” (“Descendo a encosta do Parnaso”, pp. 347-348), “Como sobre um paul contínuos sedimentos” (“A Armadura”, p. 349), “Como o caminho chão de uma aldeia ao luar” (“A Cidade do Sonho”, p. 350), “Despenha-se no mar, como um barco sem leme”

(“Beatitude Amarga”, p. 351), “E o clarão do luar, como um pranto mortuário” (“A Selva Escura”, p. 355), “Ele tenta arrancar da folha percorrida, / Como de mina obscura a pedra refulgente” (“O Livro da Vida”, p. 357), “Como se a sombra hostil de uma grande montanha” (“Díptico”, p. 358), “Dois! Eu e tu, num ser indissolúvel! Como / Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia”

(“Eu e Tu”, p. 359), “Como um dos seus avós…” (“Paladinos”, p. 360), “Como se a ruína fecundasse a hera / …como explosões… / / como o poente… (“Cabelos brancos”, p. 362), “Como esperanças desfalecidas… Como um espelho a brilhar” (“Sonâmbula”, pp. 36 3- -364), “Amarga e triste como o exílio onde agoniza” (“Cisne branco”, p. 367), “Como uma estufa a arder…” (“Súplica ao Vento”, p. 369), “Como um prisma…” (“Gota de Agua”, p. 369), “… Como chora a saudade” (“A Ventura”, p. 371), “Como uma esperança…” (“Entre pinheiros e ciprestes”, p. 372), “...como um rio amargo…” (“Rio Amargo”, p. 373), “. . .como o feto ao seio… (“Hino à Vida”, p. 374), “…como sonhos… como estrelas… como flores… como um gládio” (“Hino à beleza”, pp. 376-377), “…como se um beijo…” (“Hino à dor”, p. 378), “…como o sol de inverno…” (“Hino à alegria”, p. 380), “Vivendo como um Deus…” (“Hino à solidão”, p. 383), “como sombra…” (“Hino à morte”, p. 384), “Como um cativo…” (“Epílogo”, p. 386), “Como à luz…” (“Prelúdio”, p. 388), “Como um pobre…” (“Fábula Antiga”, p. 389), “Como a concha de nácar luminoso” (“Cleópatra”, p. 389), “…como um lírio no gelo” (“Moiro e cristã”, p. 391), “…como o olhar moribundo” (“A resposta do árabe”, p. 391), “…como a chuva em calcinada areia” (“A Vocação de Ibrahim”, p. 393), “como uma alvorada prenuncia o dia” (“A Princesa Encantada”, p. 395), “como uma tulipa no meio do abrolho” (“O Romance da Pastora linda”, p. 397) [cf. FEIJÓ, António, in Poesias completas, Livraria Bertrand, Lisboa, s/d.].

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Um pensamento sobre “Ponte de Lima: António Feijó sacerdote da Beleza e da Verdade

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